sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

O Abismo

Uma grande distância existe entre nós e Deus. Aqueles que se sentem íntimos do Criador, como se tivessem acesso VIP à sala do trono, podem até discordar, mas tenho certeza que a distância que existe entre nós e Deus é algo imensurável.


Vejo, de nossa parte, uma total incompreensão dos caminhos de Deus, uma presunção de sabedoria que desmorona aos primeiros sinais de decepção, uma idéia de fortaleza que rui diante das primeiras míseras dores. Há tantas doutrinas, tantas idéias, tantas certezas que torna-se impossível dizer quem tem verdadeiramente razão. Minha conclusão: nenhum de nós tem razão. O que temos é uma fagulha da verdade que mantém viva a chama da esperança e da fé; mas é apenas uma fagulha. Construímos castelos de convicções que podem ser postos no chão com argumentos tão simples que têm a capacidade de fazer desaparecer a nossa fé, ainda que nos vejamos como homens de grande espiritualidade.

Há um abismo entre nós e Deus, e o que vejo é uma tentativa imbecil de tentar entender os pormenores do Rei do Universo. Não vejo, diante de tudo isso, nenhuma solução palpável para se achar Deus, para entender Deus ou para viver a vontade de Deus.

Ele fugiu do homem, então? Evidente que não. Nós, com nossa estupidez, nossa corrupção e nosso orgulho é que caminhamos cada vez para mais longe de Deus. E não se engane, não estou falando daqueles que vivem longe dos preceitos religiosos (esses estão ainda mais afastados), mas falo de nós, os espirituais, os religiosos, os cumpridores da vontade do Pai, os filhos, a geração eleita. Nossos passos de religiosidade nos guiam não em direção a Deus, mas por uma linha paralela a Ele. Não nos faz chegar mais perto, a não ser em alguns pequeníssimos passos. Ainda assim, apenas nos momentos que sentimos ter maior intimidade com Ele. Mas são passos tão minúsculos que os dias, às vezes as horas, nos trazem ao status quo ante da mediocridade. Se nossas experiências, estudos e reuniões nos levassem para tão perto de Deus, não recuaríamos tão facilmente nos momentos posteriores. Essa volta à normalidade, às vezes para mais atrás ainda, só mostra que nossa aproximação da divindade foi ridícula. Não creio, porém, que este seja um sacramento eterno, ao qual estamos todos condenados. Alguns homens, ainda que poucos, parecem ter encontrado esse liame que conduz ao Senhor e trazem a nós uma luz de esperança de que é possível, ao menos, encurtar de forma mais significativa o espaço que existe entre nós e Deus. O que vemos neles é, antes de tudo, a total falta de presunção de conhecimento. Absolutamente abertos para receber de Deus a verdade, não discutiam com Ele, não acrescentavam nada a Ele; apenas reproduziam sua vontade. De um esvaziamento completo, surgia o preenchimento pelo poder do céu, sem dividir a glória eterna com a honra corrupta da terra.

Muitos já pregaram sobre isso, mas duvido que a maioria tenha entendido o significado desse esvaziamento. Talvez por ser um conceito tão simples traga tantas dúvidas para o homem. Esvaziar-se não é tornar-se um ser autômato, sem vontade e decisão, mas, sim, compreender a si mesmo como alguém absolutamente limitado, corrupto e ignorante. Já ouvi muitos falarem sobre fazer a vontade do Pai, esvaziar-se a si mesmo, não ser mais nós a viver, mas Cristo. Tudo isso é lindo, e correto. Porém, na prática, vemos a feitura da vontade de Deus conforme a nossa idéia do que seja a sua vontade. Praticamos um esvaziamento de atos, mas não de idéias, pois insistimos em encaixotar Deus em nossas doutrinas humanas. Achamos que não vivermos mais nós mesmos se relacione com vontade, quando, na verdade, tem mais a ver com submissão e obediência. Deus fala que para encontrá-lo o homem deve buscá-lo com toda a força e todo o coração. Acontece que essa busca não pode se dar numa corrida desenfreada por práticas de lisonjeio ou guarda de preceitos presumivelmente agradáveis a Deus. Buscar a Deus, normalmente, tem mais a ver com não fazer, não pensar, não construir, mas deixar Ele trabalhar em nós. Se achamos que podemos encontrar a Deus por meio de nossos atos, talvez estejamos caindo no mesmo erro dos homens que construíram a Torre de Babel. Seu final foi apenas confusão.

Somos incapazes, aceite. Acredito que apenas Deus pode nos conduzir para mais perto de si, desde que em nós não haja barreiras que impeçam o seu agir.