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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O conservadorismo religioso não se opõe à razão

Alguns liberais podem até entender alguma coisa de economia, mas quando adentram pelo campo do debate moral e religioso vacilam, menos por serem eles mesmos amorais e mais por não entenderem nada de teologia, que é o fundamento da moral conservadora. Vê-se isso claramente no artigo que Joel Pinheiro escreve em seu blog (Conservadorismo religioso não se salva) em resposta ao articulista do Mídia sem Máscara, Nivaldo Cordeiro, que, há alguns dias, por meio do artigo Direita, volver, fez uma crítica a um outro artigo do sr. Pinheiro chamado Nova direita nascida velha.

O sr. Pinheiro afirma, em seu texto, que os conservadores defendem formas sociais tradicionais baseados unicamente na fé. Em outras palavras, ele está querendo dizer que essa defesa é irracional ou, pelo menos, sentimental. Isso apenas deixa claro que, em seu entendimento, fé se contrapõe à razão.

Ocorre que, desde os primeiros pensadores cristãos, como Justino e Clemente de Alexandria, ficou muito claro que a fé não é uma irracionalidade, pelo contrário, é uma antecipação de razões ainda não alcançadas pela mente finita. A fé é um instrumento preparatório para o conhecimento. O objetivo é o conhecimento mesmo. Portanto, fé é conhecimento, sim, mas um conhecimento antecipado. Entende-se, com isso, que não há oposição entre razão e fé, e quando o sr. Pinheiro ressalta-a, apenas faz eco a um existencialismo antigo, como o professado por Kierkegaard.

Mais que isso, é evidente que um religioso mais experiente não defende os valores cristãos fundamentado na fé. Sua base é a razão. A fé ficou lá atrás, em seus primeiros passos no Evangelho. Por exemplo, um novo crente pode se opor ao homossexualismo apenas porque a Bíblia assim ensina, mas um cristão mais antigo já pode compreender, racionalmente, os motivos dessa oposição, e são estes motivos racionais que embasam suas ideias. Nenhum desses conservadores que escrevem artigos de opinião diz que tal coisa deve ser assim porque está na Bíblia, simplesmente. Há toda uma argumentação racional que baseia sua defesa, mas isso não é considerado por seus opositores.

Quando o sr. Pinheiro afirma que o conservadorismo religioso erra por fundamentar seus valores na fé, na verdade apenas demonstra sua incompreensão em relação ao que é religião e o que é fé. Isso porque ele as enxerga como um apego irracional a algo superior desconhecido e inacessível. Dessa forma, apenas repete o que desde o Iluminismo se divulga. Enfim, não traz qualquer novidade ao debate, mas apenas demonstra que um liberal pode muito bem ter os mesmos conceitos de qualquer revolucionário.

O que há, na verdade, é a velha arrogância daqueles que se vêem como iluminados contra os pertencentes às trevas da ignorância reinante, representada, principalmente, pela religião. E é sobre esta arrogância que o sr. Pinheiro comete um segundo erro teológico: a dissociação da moral do Velho e do Novo Testamento bíblicos. Afirma, com isso, que se a base para a defesa da moral atual for aquele, é desnecessária, por já haver a razão para isso, por outro lado, se for este é impossível, por não conter nele qualquer argumento em favor de uma agenda política.

Neste ponto, seu equívoco se encontra na incompreensão da natureza das duas alianças bíblicas. Qualquer catecúmeno logo aprende que quando Cristo apresentou o amor a Deus e aos homens como o primeiro e segundo mandamentos, o fez afirmando que a antiga lei se resumia nisso. Falando de outra maneira, a Lei Nova não aboliu a antiga, mas a absorveu e a resumiu, mostrando qual era sua verdadeira essência. Portanto, quando um conservador apresenta as Escrituras como fundamento de suas ideias, sendo ele cristão, não faz isso com base em uma ou outra Aliança bíblica, nem com base em um ou outro artigo de fé, mas, sim, fundamentado em todo o sentido cristão de amor e de respeito à vida. E esse fundamento não é ele mesmo uma declaração de fé, mas posterior a ela, já compreendida em suas devidas formas racionais. Os preceitos bíblicos são apenas o farol que conduz à verdade e esta se desnuda não como um mistério revelado, porém, incompreensível, mas, pelo contrário, como a explicação do que não era compreendido.

Acontece que os inimigos da religião são assim: acreditam que tudo o que os crentes fazem o fazem por um apego emocional à sua crença. Eles não consideram, por um segundo que seja, a possibilidade desses religiosos terem refletido profundamente sobre os assuntos que expõem. Parece que todo religioso, sendo ele homem de pouca ou muitas luzes, é um desvairado defensor de uma fé irracional.

E acho que não estou sendo injusto com o sr. Pinheiro ao afirmar que ele enxerga os religiosos dessa maneira, pois ele mesmo afirma que os ideais dos conservadores religosos estão mais para uma turba de fanáticos do que para uma população educada e bem intencionada. Mesmo sabendo que esta afirmação, de qualquer maneira, tinha um objetivo mais específico: afirmar que o debate que ocorreu nas eleições presidenciais passadas, em torno da questão do aborto, fora uma, segundo suas próprias palavras, demonstração de histeria.

Ora, segundo o que observei, aquela questão fora tratada de uma forma muito inteligente, por meio de sites, blogs, pregações e panfletos (inclusive alguns apreendidos pelo poder público, como no caso daqueles distribuídos pelo bispo de Guarulhos, Dom Luiz Bergonzini). O que ocorreu foi algo quase nunca visto neste país: um grupo de pessoas, sem qualquer organização formal, sem qualquer financiamento público, sem qualquer apoio midiático que, espontaneamente, se unem na defesa de algo que realmente acreditam. O que o sr. Pinheiro gostaria? Que fossem marcadas audiências públicas para a discussão (no caso, a questão do aborto)? Pois bem, era isso exatamente o que aqueles que defendem os tais direitos da mulher queriam: que a questão fosse levada em banho-maria. Foi a tal histeria que forçou a sra. Dilma Rousseff a assinar um compromisso que hoje está impedido-a de dar um andamento mais rápido ao seu projeto abortista. Histeria ou não, o que vimos é que o movimento acabou sendo razoavelmente eficiente.

Eu não sei se o sr. Joel Pinheiro é contra ou a favor do aborto, já que esta matéria não fora elencada dentre as que ele afirma concordar com os conservadores. No entanto, o que fica claro, ao menos para mim, é que o resultado daquela movimentação não o agradou muito. De qualquer maneira, e esse é o ponto central deste artigo, uma coisa é certa: a ideia que ele tem de um pensador conservador religioso é tão distorcida quanto de qualquer ateu e anticristão.

 

 

 

 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Eu não quero me mobilizar

Cresci ouvindo que passeatas, mobilizações, comícios e aglomerações eram sinal de que ali se encontravam homens de elevada nobreza, pois seus atos demonstravam preocupação pública, momentos que as pessoas mais alienadas jamais se envolviam. Cheguei a participar de alguns desses movimentos, como o dos "caras-pintadas". Tudo sem muita consciência, mas convencido de que aquilo tudo era a melhor maneira de adentrar no mundo adulto. Sentia-me assim uma pessoa que se colocava em uma posição mais virtuosa, pois, segundo me ensinavam, era desse jeito que os homens de elevada estirpe deveriam se comportar.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Os ratos estão roendo

Me espanta o cinismo das mentes privilegiadas deste país. Elas que, em outros momentos, se postaram como guardiãs da lei e da ordem, agora, quando lhes interessa, mantêm um silêncio sepulcral. Mesmo quando a lei máxima é vilipendiada, dissimulam não perceber o que ocorre.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Talvez alguns cristãos fiquem escandalizados com artigos como estes, chamados "Estado: ministro de Deus"e "A Pena Capital é Bíblica?", ambos publicados no site do Julio Severo, ambos escritos pelo Pr. Marcello Oliveira. Isso porque eles não conseguem compreender como cristãos podem de alguma maneira ser favoráveis à aplicação da pena de morte pelo Estado.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Nossos governantes são o fruto do nosso pecado

...tudo o que o homem semear, isso também ceifará (Gl 6.7). Tal regra não se aplica apenas aos indivíduos, mas, com toda certeza, aos povos. Se ficamos atordoados com mais uma vitória de um partido como o PT, e se já estávamos atordoados antes, quando nossas possibilidades de escolha não iam muito além dos socialistas fabianos do PSDB, isso não foi por pura obra do acaso.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Conservador: um horror!

No Brasil que é teu e meu
muito menos é um horror
um homem dizer-se ateu
do que um conservador.

O Estado é paternal,
o governo encardido,
e o eleitor que se dá mal
com o político bandido

O sindicato é uma máfia,
a justiça uma piada,
a universidade só empáfia
e a escola abandonada.

Assaltados por impostos,
abusados pelos juros,
não poupam nem os mortos,
nos carregam como a burros.

No Brasil que é teu e meu
muito menos é um horror
um homem dizer-se ateu
do que um conservador.

Todo mundo é marxista,
da polícia fala mal,
tem milico comunista,
tudo aqui é sem igual.

Tem padre esquerdista,
bispo liberal,
pastor que é abortista,
uma igreja anormal

Cristão que é progressista,
católico espiritualista,
mulher crente feminista,
puritano hedonista

No Brasil que é teu e meu
muito menos é um horror
um homem dizer-se ateu
do que um conservador.

Todo mundo qué rezistro
Na carteira pra trabaiá
Quem não tem ela assinada
É um pária, sai pra lá

Cesta-base, aviso-breve
Tique-alimentação
Brasil, um país de todos
que do governo comem na mão

Bolsa aqui, Bolsa acolá
que compra o voto do peão
que assim sem trabalhá
não compra nem Luis Vintão*

No Brasil que é teu e meu
muito menos é um horror
um homem dizer-se ateu
do que um conservador.

Aqui, ninguém pode ser culto,
desse todos falam mal,
pois é quase um insulto
saber mais que um animal

Estudo só certificado
pra emprego arrumar
ou concurso pro Estado
pra de suas tetas mamar

Um sonho: aposentadoria
pro churrasco aproveitar,
no futebol a alegria
de quem só pensa em descansar

No Brasil que é teu e meu
muito menos é um horror
um homem dizer-se ateu
do que um conservador.

Militar é condenado
Pelo zelo e por civismo
Guerrilheiro indenizado
por usar de terrorismo

Conservador é um ET
Por ninguém é compreendido
Que não é só contra o PT
mas contra qualquer partido

Pois aqui só há esquerda,
Socialismo universal.
A moral sofreu sua perda
Lembra um grande carnaval

No Brasil que é teu e meu
muito menos é um horror
um homem dizer-se Deus
do que um conservador.


* eu tinha colocado Lui Vitão, mas a sugestão do Edson Camargo (www.profetaurbano.blogspot.com), Luis Vintão, é muito mais legal.


postado por Fabio Blanco às 11:44

terça-feira, 12 de junho de 2007

Porque Defendo a Liberdade de Expressão

Lembro de uma vez, no setor no qual eu trabalhava, no Porto de Santos, havia um colega de trabalho que era de uma igreja evangélica. Conversávamos, eu, ele e mais dois colegas cristãos sobre um artista conhecido que dizia que sacrificava animais em oferenda para demônios, por conta de seus trabalhos musicais. Este colega, diante disso, disse a seguinte pérola: ‘Isso é culpa da nossa Constituição, que permite essa liberdade religiosa. Isso deveria ser proibido!’. No mesmo instante, arregalei os olhos, estupefato com a frase e lembro apenas de ter dito isto: ‘Se não houvesse essa liberdade religiosa, você estaria rezando para Nossa Senhora da Aparecida’.

Muitas pessoas não percebem que toda liberdade tem um preço. Para que uma pessoa possa gozar de alguma liberdade, deve haver um correspondente equivalente às outras pessoas, o que cria uma diversidade de pensamentos e idéias e atos. A liberdade carrega consigo também a responsabilidade, pois o julgamento e a condenação apenas são possíveis em relação a quem possui a condição de escolher livremente. Sem essa condição, não é possível determinar valor para o ato, impossibilitando o julgamento.

Com a possibilidade de escolha, o ser racional tem a possibilidade de se posicionar da maneira como bem entender. Inclusive, podendo negar o bem, agir contrário à moral, dizer o que pensa, ainda que seu pensamento seja reprovável segundo os valores estabelecidos.

Pela liberdade, os homens têm escolhido se afastar de Deus, viver como nos tempos de Sodoma e Gomorra, sendo “amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus...” (2Tm 3.2-4).

Por isso, seremos contra a liberdade? Absolutamente não!

Em primeiro lugar, ainda que desejássemos o seu fim, isso não seria possível. A liberdade é inerente ao ser racional. Orígenes, pensador cristão do século IV, já intuía isso: “... os que afirmam ser o homem incapaz de agir por decisão própria, negam-lhe a natureza racional, equiparando-o ao animal. Onde há uma razão, ali também há liberdade. Pois pensar racionalmente significa julgar” (extraído do livro História da Filosofia Cristã, de Philotheus Boehner). A racionalidade está intimamente ligada à liberdade. Não é possível a existência de uma sem a outra. Se é possível raciocinar, isso pressupõe a liberdade para o fluxo do pensamento; se é possível a liberdade, é porque há a condição de julgar, raciocinar.

E, ainda que não houvesse essa premissa lógica da racionalidade com a liberdade, o verdadeiro cristão deve entender que a liberdade é um pressuposto inerente à proporia fé cristã. Deve-se considerar que Deus criou o homem livre, seja por vontade própria, seja por um impulso lógico, segundo o que foi dito acima. De qualquer forma, essa liberdade é indiscutível e, só por isso, ser contrário a sua existência, de qualquer forma, é pensar diferente de Deus. Se a liberdade inicia no próprio Deus, seguir um caminho diverso é negar um princípio divino, ou seja, negar o próprio Deus.

Além disso, devemos atentar para a ordem dada por Jesus a seus discípulos: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15). Como compreender o cumprimento deste comissionamento, sem o mínimo de liberdade? É verdade que o mundo ainda vivia longe do entendimento da possibilidade da expressão individual totalmente livre do pensamento. E se analisarmos, sem muito esforço, percebemos que isso apenas criava embaraços à pregação. Sendo assim, concluímos que a falta de liberdade é contrária à própria pregação do Evangelho. E mesmo que argumentem que tal tolhimento ajudou o fortalecimento da fé, essa ajuda não foi direta, mas conseqüência oblíqua dos fatos, não podendo, com isso, ser argumento em defesa da falta de liberdade. A perseguição aos cristãos, no início da era cristã, fortaleceu muito a fé daqueles homens, mas quem poderá dizer que tal perseguição era justa e devida? A ausência de liberdade, por muitas vezes, pode fortalecer a fé de comunidades, mas jamais será um pressuposto moral para o crescimento destas mesmas comunidades.

Pregar é falar para outros sobre algo. Falar indica liberdade de pensar e de se expressar. Falar para outros pressupõe essa possibilidade. A liberdade, quanto mais ampla, mais facilitadora dessa pregação. Se é facilitadora, então, é favorável à pregação e, por isso, deve ser defendida.

Portanto, o cristão, por todas as razões citadas acima, deve ser um defensor da liberdade de expressão, da maneira mais ampla possível. Liberdade que tem seu preço. Liberdade que nos depara com muitas coisas que chegam a corroer nosso ser intimamente. Que nos faz enxergar a corrupção humana, em seu nível mais profundo. Que desperta em nós a revolta por causa da depravação e imoralidade. Que nos faz, muitas vezes, querer inclusive a sua extinção, fazendo-nos crer que isso solverá todas as mazelas humanas. Mas quem poderá obstruir o pensamento? E o homem mal, cerceado em seus atos e palavras, deixará de ser mal?

Sou cristão, luto pela liberdade. Liberdade de pensamento e expressão, ampla e irrestrita (limitada apenas naquilo que constituiria crime, ou apologia a este). Não confundo a maldade humana com sua liberdade. O homem não é corrupto por causa da liberdade. Esta apenas permite que saibamos disso.

Fabio Blanco