O cristianismo existe para ti, saibas isso. Para quem tu achas que Cristo padeceu na cruz? E sua encarnação, não ocorrera por ti? Se há uma redenção, não há para te redimir? Jesus não morreu pela humanidade sem rosto, sem identidade. Não foi pela multidão que Ele entregou seu espírito. O que Cristo fez, o fez para homens individuais, para seres únicos.
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terça-feira, 12 de julho de 2011
Vivemos em uma sociedade intermediária
Posted by Fabio Blanco on 19:03
Há tempos, o mundo tem trabalhado a fim de diminuir a influência cristã na sociedade, atacando, prioritariamente, os fundamentos postos pelo cristianismo, os quais tornaram a civilização ocidental, se não em um paraíso, ao menos em lugar de gente civilizada.
Tantos movimentos se passaram (iluminismo, positivismo, pragmatismo, materialismo, comunismo, marxismo entre tantos outros), os quais, de uma maneira ou de outra, militaram contra o cristianismo, que torna-se uma tarefa inglória tentar descrever todos eles. O que fica claro é que há muito tempo o sistema mundano tenta apagar a influência cristã sobre a sociedade.
Nos séculos passados, no entanto, parece que a eficiência do trabalho de destruição sempre fora limitado. Apesar dos estragos nacionais, dos morticínios e das mudanças sociais, de uma maneira ou de outra a família e a religiosidade do povo sempre se mantiveram firmes. Os modernismos sempre foram coisas de intelectuais, ficando a plebe meio que imune às suas influências.
De maneira diferente ocorre hoje, pois, com a expansão da comunicação e com o domínio liberal e progressista sobre a mídia, as pessoas vêm sendo bombardeadas, há décadas, com toda a espécie de pensamento libertino, que, com a desculpa da libertação das amarras de um conservadorismo sufocante, conduz as pessoas a apoiarem as práticas mais degradantes. Por isso, cada vez mais o divórcio, o aborto, a promuiscuidade, a insubmissão, o desrespeito e a desobediência são tidos não mais como desvios de comportamento, mas como atitudes saudáveis, necessárias e, muitas vezes, até louváveis.
Os fundamentos da sociedade como a família, a honra e o respeito são, então, destituídos, restando apenas um arremedo social que não possui força própria para se sustentar. É nesse momento que a sociedade fica à mercê dos engenheiros sociais, os quais passam a colocar em prática, contra um povo sem defesa e sem alicerces, suas ideias mais mirabolantes de criação de um mundo ideal, à imagem e semelhança de suas mentes enfermas.
O que vivemos hoje é a transição de uma sociedade baseada na moral cristã e aquela que será o reflexo do anticristo. Por enquanto, nem tudo está perdido, pois ainda há cristãos, ainda há alguma moral e ainda há alguma forma de honradez. No entanto, até quando?
Quando Cristo voltar, se achará fé na terra?
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sexta-feira, 27 de maio de 2011
A trindade humana
Posted by Fabio Blanco on 17:32
O homem moderno está partido. Fragmentado pelos seus desejos e dividido pela vida moderna, ele sofre com a incompletude. Quer se achar, mas apenas se debate na insatisfação que o acompanha.
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terça-feira, 29 de março de 2011
A naturalidade do triunfo da verdade
Posted by Fabio Blanco on 20:23
A história da relação de Deus com o mundo não é a história da luta entre o bem o mal. Erram aqueles que acreditam que há uma batalha e que Deus, pelo fato de ser mais forte que Satanás, vencerá no final.
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domingo, 12 de dezembro de 2010
Aconselhamento para Novos Teólogos
Posted by Fabio Blanco on 01:46
Estudar Teologia não é um passatempo, mas uma vocação. Quem imerge nesse universo carrega então uma responsabilidade que deve ser respeitada e honrada.
Há muitos estudantes de Teologia que ingressam nos cursos sem a bagagem intelectual, psicológica e material necessárias para isso. Se defrontam com um universo muito maior do que a amplitude de suas estreitas visões pode abarcar, causando a transmutação dos conceitos e fórmulas aprendidos para dentro de seus universos limitados.
O resultado disso é a proliferação de pseudo-teólogos, linguarudos e altivos, que mesmo após anos de estudos, não são capazes de desenvolver pensamentos triviais sobre a doutrina sagrada.
O pior é que ao invés de ampliarem seus mundos a fim de alcançarem a ciência, usurpam-na sujeitando-a aos seus mundinhos, forçando para que a infinitude seja enxertada na pequenez. Com isso, numa atitude antisocrática, ao invés de tomarem consciência da ignorância, ao se depararem com a amplitude da realidade, absorvem a Teologia, adaptando-a, inconscientemente, para dentro de seu universo, olhando a parte como se fosse o todo.
Ora, se o todo é enxergável e conhecido por eles, então são eles os próprios senhores da verdade. Se tudo eles sabem, já que nada enxergam além do que vêem, nem possuem a consciência da ignorância, a perçepção que têm de si mesmos é a de verdadeiros cultores da sabedoria.
Se tornam, portanto, enfadonhos, superficiais e ridículos. O que seria uma bela vocação, edificadora do corpo de Cristo, se transforma em entrave e escândalo.
Por isso, ao estudar Teologia, não esqueça que ela é uma ciência profunda, cujo estudo demanda não apenas dedicação direta e exclusiva, mas ampliação da cultura literária, do universo imaginativo e do vocabulário. Sem esses três elementos, o que haverá é a distorção dos conceitos, tornando o que seria uma bênção em mais um obstáculo à verdadeira espiritualidade.
Fabio Blanco
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sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Sacrifício Vivo (Culto Racional)
Posted by Fabio Blanco on 13:22
“Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional”
(Romanos 12.1)
O sangue e a morte eram os componentes reais do sacrifício praticado no Velho Testamento. Por eles, através da entrega do corpo do animal a ser abatido, era concedido o perdão divino. Tudo, no entanto, era figura do sacrifício definitivo, oferecido pelo próprio Cristo. Ele, que entregue e morto, derramou seu sangue, e agora de maneira definitiva, para o perdão dos pecados dos homens. Não há mais, portanto, necessidade de qualquer sacrifício de morte, pois o de Jesus Cristo foi perfeito e perpétuo. Então, quando Paulo faz a analogia, exortando pela oferta dos próprios corpos como sacrifícios vivos, ele o faz com referência não ao sangue, nem à morte, mas aos outros componentes compreendidos no ato de sacrificar.
O sacrifício no Velho Testamento compreendia a entrega de um animal sem defeitos para ser abatido diante do altar do Senhor. Lançando mão desse conhecimento, o apóstolo conclama o povo cristão a, como se fazia com animais, que eles se façam a si próprios: entreguem-se plenamente ao Senhor de suas almas. A analogia, portanto, é perfeita. Retirando os componentes de sangue e de morte, restam a entrega total, a sujeição plena e a resignação. Como cordeiros, Paulo anima os cristãos a oferecerem a si mesmos como sacrifício, alienando-se totalmente diante de Deus, submetendo-se completamente à Sua vontade, aceitando plenamente o destino traçado por Ele. Não cabe ao sacrifício discutir os altos desígnios de Deus, mas, obediente e submisso, deitar-se no altar eterno, deixando com que o fogo do Senhor o consuma e o purifique.
O que se pede, à maneira dos antigos sacrifícios, é que ele seja santo e agradável. Separados deste mundo, separados para Cristo, esta é a santidade requerida. Como Jesus mesmo disse, não somos este mundo e não temos parte com ele1. Portanto, a separação é requisito essencial do sacrifício moderno. Apenas assim, na verdade, tornar-se-á agradável, pois é a separação que o torna puro, pois passa pela justificação de Cristo. É agradável porque é da maneira como Deus espera.
A exortação de Paulo é séria e a analogia perfeita. Quem deseja ser cristão e agradar a Deus não pode se contentar em servi-Lo desleixadamente, entregar as sobras e não as primícias ou não oferecer o que tem de melhor em si. Não se deve oferecer pão imundo, animal cego, coxo ou enfermo, pois Deus não aceitará a oferta das mão de quem assim procede2. Sim, precisamos ser puros na intenção e sem defeitos no juízo. Apenas assim agradaremos ao Senhor.
O culto, ou seja, a oferta, o louvor, a dedicação devem ser realmente compreendidas como um ato ofertório consciente. O chamado culto racional, o logiken latreian (λογικην λατρειαν), nada mais é do que a oferta consciente da própria vida no altar de Deus. É consciente porque se dá pela compreensão de quem é Jesus Cristo e qual o seu papel na economia salvífica do Evangelho. É racional porque não se dá por meio de um salto gnóstico, pelo qual a verdade se descortina como em mágica, mas, sim, através da conscientização progressiva de nossa posição diante de Deus, compreendida, principalmente, na revelação de Jesus Cristo.
Sacrifício vivo, enfim, é o homem que, conscientemente e sem reservas, se dispõe a ser devorado pelo fogo salvador do céu.
1João 17.14
2Malaquias 1.7-10
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quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Todo pecado é idolatria
Posted by Fabio Blanco on 19:31
No Velho Testamento há um tensão constante entre a fidelidade do povo ao Deus único, o Senhor Jeová, e os deuses existentes na cultura dos outros povos. Não poucas vezes os próprios judeus decaiam para a idolatria, ou seja, o culto daqueles ídolos. Em vários momentos, os profetas alertam para a fúria do Senhor Jeová, que recrimina o seu próprio povo por agir com infidelidade, adorando ídolos estrangeiros.
Mas quem são esses ídolos? Na verdade, ninguém, pois sabemos que o ídolo nada é no mundo1. Portanto, o que Deus desaprova não tem nada a ver com uma disputa com deuses menores, mas, sim, recrimina a intenção infiel do povo. Ao cultuar outros deuses, ainda que apenas criações culturais e religiosas, o homem substitui Deus, com todos os seus preceitos e determinações, por práticas estrangeiras que nada tinham em comum com o zelo do Deus de Israel. Ao fazerem isso, o verdadeiro Deus é rejeitado, pois não é possível dividir sua glória com qualquer outro ser. Sua glória, Deus não dá a outro, nem permite que seu louvor seja dado a imagens de escultura2.
Nós, homens de um tempo que não mais crê na existência de deuses, como criam os antigos, longe de acharmos que, por isto, estamos isentos do pecado da idolatria, devemos prestar atenção no que consiste, realmente, esse pecado. Não existe a idolatria putativa3, isso porque o pecado de idolatria se efetua na intenção do agente e não na realidade do deus menor. Idólatra é aquele que, ao invés de dar a glória ao único Deus verdadeiro, a outro a dá, ou a algum objeto.
Na verdade, o cerne da idolatria é o servir a deuses estranhos4. Cometer o pecado da idolatria é deixar de servir a Deus, o único Senhor verdadeiro, para servir a outros senhores. Ora, Jesus Cristo mesmo disse que ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom (riquezas)5. Sendo assim, não há como entender de outra forma: sempre que servimos a algum outro ou a alguma outra coisa, além de Deus, estamos cometendo idolatria.
Independentemente de servir a um ídolo propriamente dito (um santo, uma entidade, um espírito), o qual se imagina exista e pode atuar no mundo ou servir alguma outra coisa qualquer, ainda que saiba inexistente ou inanimada, quem assim fizer estará incorrendo no pecado da idolatria. Porque cometer idolatria é, simplesmente, ter algo como seu senhor antes de Deus. Se algo tem e proeminência na vida de uma pessoa, e ela serve a isso com mais dedicação do que a Deus, certo é que o que ela faz pode ser considerada uma atitude idólatra.
Deus é o único senhor na vida de um cristão. Todas as outras coisas, se praticadas, usadas, usufruídas, devem assim ser sob a condição de nos fazerem servir a esse único Senhor. Não é possível, como o próprio Jesus afirma, nem mesmo tentar dividir a prestação do serviço, ainda que se imagine que está servindo a Deus mais que aos outros. Isso não existe! Só deve haver um senhor! Falando de uma maneira bem direta: quem tentar servir a Deus e alguma outra coisa ao mesmo tempo fará tudo bem mal e porcamente.
Mas falando assim, para quem não entende a profundidade do cristianismo, talvez pareça um exagero. Afinal, precisamos viver, ter experiências, nos divertir. É bem possível, pensam, ser um bom servo de Deus e continuar vivendo normalmente, com cada área de sua vida cuidada de uma maneira especial: a Deus o que é de Deus, ao trabalho o que é do trabalho, ao casamento o que é do casamento, aos filhos o que é dos filhos.
Acontece que tal pensamento não tem fundamento, pois baseado em premissas falsas. Quem assim pensa acredita que cada área da vida de uma pessoa é parte fragmentada, que pode ser cuidada separadamente, sendo em nada afetada pelas outras partes existentes. Não entende que somos apenas um só, seres individuais, não fragmentários, que devem sua existência a um outro ser, este porém Supremo. Sendo individuais, unos, não há como separar a vida em estanques apartados, pois, de qualquer maneira, devemos tudo ao mesmo Ser Eterno, e a Ele damos conta de todas as coisas. Todas as coisas foram feitas por meio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez6. Se tudo é por Ele e para Ele, de quem é tudo e para quem nós vivemos7, nada, absolutamente nada, nem o mais ínfimo ato, nem o pensamento guardado no mais recôndito de nossa memória, estão fora do senhorio de Cristo em nossa vida. Tudo é para Ele, para que em tudo tenha a preeminência8.
O que fazemos, para Cristo fazemos. Tudo é, de uma maneira ou de outra, uma consagração a Deus. Por isso, nada tem a preferência antes do Senhor. Há um só Deus, um só Senhor9, apenas um a quem se deve servir. Todas as outras coisas confluem para Ele, direta ou indiretamente. Se alguma coisa há, em nossa vida, que consideramos que Cristo está totalmente apartado, podemos ter a certeza que ali reside o pecado, que ali se configura a idolatria.
Considerando, portanto, que pecar é não fazer a vontade de Deus, e isso significa não servi-lo, mas a outro, podemos afirmar, sim, que todo pecado é idolatria. Então, todas as vezes que pecamos, devemos nos sentir alertados como o povo do Antigo Testamento, que ouvia de Deus a voz de sua ira ao vê-los agindo como adúlteros, oferecendo a outros deuses o que pertencia somente a Deus.
Sejamos gratos àquele que tudo nos concedeu, inclusive a nossa própria existência, oferecendo a Ele de volta, como servos fiéis, e não como usurpadores, o amor, a dedicação e o culto devidos. Entreguemos nossa vida, como sacrifícios vivos10, no altar de Deus, entregando-lhe não apenas uma religiosidade exterior, não apenas uma parte da nossa vida, mas todo o nosso ser em consagração a Ele. Não vivendo como idólatras, que servem a outros deuses, mas como servos piedosos, que em tudo dedicam suas próprias vidas ao louvor do Deus Eterno.
(aula para os alunos da classe de batismo)
1I Coríntios 8.4
2Isaías 42.8
3Putativo é algo atribuído a alguém de maneira falsa, ou praticado por total engano do agente que, sem saber, não tinha possibilidade alguma de cometer tal ato.
4Josué 24.20
5Mateus 6.24
6João 1.3
7I Coríntios 8.6
8Colossenses 1.18
9Efésios 4.5
10Romanos 12.1
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quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Jesus Cristo absorveu a Lei
Posted by Fabio Blanco on 18:48
Já comentei sobre Romanos 10.4, que diz que Jesus Cristo é o fim da lei. Quero apenas fazer um adendo àquele comentário, afinal, ainda percebo muita confusão em relação a isso.
Muitos judeus messiânicos, querendo argumentar em favor da manutenção normativa da Torá, acabam por interpretar esse termo, fim, não como um término, mas apenas como finalidade. Segundo eles, a palavra fim (τελος) pode significar término, como também finalidade, e eles optam pela segunda a fim de justificar a permanência da Torá.
O que eles não compreendem é que toda finalidade denota um término, quando seu objetivo é atingido. Por exemplo, a finalidade do alimento é alimentar e, ao cumprir essa função, está ele extinto. A finalidade da tesoura é cortar o cabelo, e quando este é cortado, ela é abandonada. Aí alguns vão dizer: mas quando o cabelo crescer ela será usada de novo. Porém, tal analogia não seria perfeita, porque se, no caso, Cristo é a finalidade, não pode ser comparado analogicamente com algo que necessita ser feito outra vez. A obra de Cristo é eterna e feita uma vez apenas. Ele como finalidade da Lei torna esta desnecessária, pois seu objetivo fora cumprido e não será necessária mais uma vez para isso.
O problema é que sempre citam o outro texto, de Mateus 5.17, no qual Jesus diz que veio cumprir a Lei. Não atentam, porém, que o cumprimento da Lei é exatamente a sua finalidade, ou seja, sua satisfação. Aliás, esse é o sentido da palavra em grego (πληρῶσαι), que significa preenchimento, satisfação.
Também não observam que aquilo que é a finalidade não necessariamente abole o que passou, mas absorve. Jesus Cristo não, simplesmente, aboliu a Torá, mas a absorveu para si, sendo Ele o cumprimento dela. Com isso, também, fica compreensível a idéia de eternidade da Torá. Sim, ela é eterna, mas agora em Cristo, que a absorveu e a cumpriu.
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segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Justiça pela Graça - uma substituição sem sentido
Posted by Fabio Blanco on 14:34
Alguns pregadores modernos, alimentados por uma ideia de justiça apenas horizontal, aquela justiça baseada no conceito marxista de distribuição de riquezas, têm dificuldades de entender a justiça vertical divina. Por isso, substituem a justiça humana pela graça somente, deixando um tanto manca a atuação de Deus sobre os homens.
Sábado passado, ao comparecer a um culto de ação de graças pelo aniversário de ministério de um ex-pastor meu, tive a oportunidade de ouvir a pregação de um badalado pastor de uma igreja batista de São Paulo. Sua palavra (aliás, um samba de uma nota só, que ele e seus amigos costumam cantar), mesmo demonstrando alguma erudição bíblica, pecou na estrutura mesma de sua ideia.
Ele, como outros pregadores de mesma ideologia, costumam tecer críticas contundentes contra aqueles os quais chamam de dogmáticos, fundamentalistas, fanáticos religiosos. Se debatem contra o que denominam de legalismo, de falta de amor nas relações eclesiásticas e de insensibilidade por excesso de doutrina.
No entanto, esses pregadores pecam menos na crítica do que na solução. Enxergando a ação de Deus como contrária à justiça tortuosa dos homens, vêem naquela mesma ação não a substituição pela justiça divina, mas a atuação unicamente da graça de Deus.
O que parece que eles não entendem é que a graça divina não é um ato isolado em si mesmo, como não é a própria justiça. Não existe graça sem justiça e não existe justiça sem graça.
Por exemplo, o pregador citou a parábola dos trabalhadores (Mt 20.1-16), segundo a qual o senhor contrata trabalhadores em horários distintos, pagando o mesmo valor para todos os eles. Segundo sua interpretação, o senhor ali não fez justiça, porque o que estava em evidência era sua graça.
Tal interpretação dava subsídios para o pregador permanecer em suas críticas contra o dogmatismo, contra o fundamentalismo, contra o doutrinarianismo e tudo o que se refere ao que ele entende como conservadorismo fanático cristão. Inflando a graça, extingue a justiça e derruba na base muitos dos fundamentos dos conservadores.
Ocorre que aí reside um grave erro da visão socialista de justiça! É óbvio que o senhor da parábola não cometeu injustiça alguma contra aqueles trabalhadores, pois pagou o que havia acertado com cada um. Numa visão de justiça horizontal (tipicamente socialista), parece que a atitude do senhor fora injusta. Porém, enxergando o senhor como alguém que nada deve, em princípio, aos trabalhadores, e tendo acertado com eles um valor específico, não se pode dizer que ao pagar o mesmo salário por jornada diversas tenha cometido injustiça. Esta é a justiça vertical: paga de acordo com o acertado. Cada trabalhador possuindo sua relação pessoal com o seu patrão. Onde está a injustiça? Onde está a graça? Não é disso que a parábola fala.
Deus, da mesma forma, nada deve a nenhum de nós. Paga conforme o acertado. Os judeus, objetos específicos do sentido da parábola contada por Jesus, não deveriam achar que a extensão da mensagem salvadora aos gentios era uma injustiça contra eles, o povo escolhido há muitos anos antes. O que Deus havia prometido a eles estava sendo cumprido e seria cumprido fielmente. Se o mesmo Deus resolveu fazer uma nova aliança com um novo povo, isso não era injusto e não tinha nada a ver com eles. A parábola não fala da graça, ao menos não como fator principal da questão. O pregador, ao dar ênfase à graça de Deus nesta passagem específica, distorce o sentido original, retirando uma ideia que considera falha, colocando outra que não diz nada.
Na verdade, essa substituição carrega dentro de si o peso da ideologia que o pregador traz consigo. Tendo como inimigos públicos os conservadores, chamados por ele de fundamentalistas e legalistas, o pregador estica a corda para o lado oposto e encontra a solução numa graça divina pura, que a todos contempla e que não faz justiça por ser bom com todos, tornando a justiça, na verdade, desnecessária. Como se o senhor da parábola estivesse dando algo gratuitamente para os trabalhadores, e não uma contraprestação do trabalho prestado. Ora, há diversas passagens na qual a graça de Deus é evidenciada, no entanto, a parábola dos trabalhadores não é uma delas.
Apenas fique claro que não estou fazendo apenas uma crítica à interpretação teológica do pregador, isso é o de menor importância. O que eu quero evidenciar é o núcleo do pensamento desses pastores, padres e escritores cristãos que são mais socialistas que cristãos. Como o que eles defendem é uma justiça social plena (segundo as bases do socialismo), têm o liberalismo conservador como um inimigo declarado. Assim, ao criticar toda forma de injustiça humana, personificada, é óbvio, na ação desses fundamentalistas, enfatizam a graça divina de maneira tão distorcida, que a justiça de Deus se torna absolutamente irrelevante.
Porém, Deus é justo e há, sim, uma atuação de justiça corrretiva e punitiva sobre os homens. Esconder isso é aleijar as formas de atuação de Deus. Tendo inimigos declarados, criam um Deus à sua imagem e semelhança, idealizado pela sua ideologia. Deus torto, que distribui sua graça, mas silencia na injustiça.
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quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Jó - Introdução III
Posted by Fabio Blanco on 01:16
A moderna religião, seguindo a tendência do pensamento contemporâneo, tem simplificado demais sua concepção de existência e de relação homem-Deus e homem-mundo. A complexidade é rejeitada como algo incompatível com a vida cristã abençoada. O sofrimento é visto como fruto do pecado ou correção divina.
Diante disso, para quem assim enxerga, o livro de Jó é uma verdadeira pedra de tropeço. Quantos já não se enganaram ao tentar explicar a razão do sofrimento. E erraram já de princípio, ao tentar justificá-lo. Mesmo com o exemplo dos amigos de Jó, muitos teólogos e líderes cristãos foram seduzidos pelo desejo de explicar os motivos para o que aconteceu. A despeito de estar já no próprio texto evidente que aqueles amigos do personagem erraram fazendo isso, esses cristãos conseguiram se manter cegos quanto à lição de Deus e mergulharam em um buraco já bem sinalizado.
Isso apenas acontece porque a idéia da narrativa bíblica em Jó é demasiadamente contrastante com nossa experiência religiosa hodierna. Para esta, religião é solução; é retirar-se da incerteza a fim de viver a verdade; é encontrar realmente uma resposta. Porém, mesmo que essas definições estejam corretas em seus termos, elas apenas podem assumir um significado real se passarem pelo crivo da experiência real. No nível do discurso não há qualquer objeção, porém, na prática da experiência existencial as coisas precisam ser mais bem definidas.
Esta é apenas uma Introdução, portanto, não vou destrinchar todas as nuances da relação do leitor com o livro. Apenas quero dizer que sua leitura é maravilhosa exatamente por causa desses pontos de tensão e uma análise correta, humana e espiritual daquelas linhas pode conduzir o leitor a uma visão muito mais ampla da vida e do ser.
A leitura cuidadosa do livro possibilita uma compreensão profunda da complexidade da existência. Também permite uma ampliação responsável da própria idéia de religião. E, ainda mais, autoriza um implemento impressionante da idéia mesma de conhecimento. Mas tudo isto não aparece ao leitor apressado ou desinteressado. Apenas vai atingir aquele que se permite guiar pela narrativa, se deixa conduzir pela sequência da história e argumentos e mergulha de cabeça no mar existencial que está menos nas frases e nas idéias e mais nas razões psicológicas envolvidas.
E se há alguns que pretenderam e pretendem negar a inspiração divina do livro de Jó, ao menos para mim, a maior prova de que foi o próprio Deus quem, por meio de algum seu servo, escreveu aquelas linhas, é quão profundamente a narração pôde penetrar na alma e na mente daqueles personagens, além de não com menos força penetrar em nossa própria alma para alcançar os mais recônditos temores que existem dentro de nós.
Se a obra fosse um mero romance, diríamos que o autor conseguiu milagrosamente enxergar, como em uma máquina de raio-x, o que há de mais escondido dentro da alma humana. Porém, como aquela é uma obra de Deus, não há surpresa nisso, apenas mais um motivo de adoração do Senhor do universo.
Para mim, isso basta!
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sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Jó - Introdução II
Posted by Fabio Blanco on 13:00
Não há nada mais humano do que o sofrimento. Nele reconhecemos quem exatamente somos: nossa pequenez, nossa fragilidade, nossos medos e nossas razões de existência. De alguma forma, o livro de Jó nos remete a tudo isso e, apesar de não ser o nosso sofrimento, não sei se pela perfeição literária ou pela profundidade do tema, ele consegue fazer com que nos envolvamos realmente em sua história.
Há, ainda, um choque mais profundo. O conteúdo existencial da obra é altamente contrastante com a nossa moderna experiência religiosa. Em uma época na qual buscamos respostas prontas, na qual a religião é vista quase somente como o elixir pacificador da alma humana, na qual o místico é simplesmente a experiência do desconhecido e o próprio cristianismo deixa de ser um corpo mais ou menos estruturado de doutrinas, toda a sequência do livro parece destoar da harmonia segura da música religiosa moderna.
Quem enxerga a religião como um corpo ritualístico que responde até as mais comezinhas indagações, sente um desconforto abissal ao ler o livro de Jó. Praticamente toda a narrativa parece induzir à negação da fé. Pelo menos, conduzir ao cinismo da ausência da autonomia humana, sob o jogo das forças superiores do universo; sob o jugo inexorável da vontade de Deus.
O real contraste se dá porque o cristão moderno espera que sua fé o previna do imponderável. Se antes, o fiel, ainda pecador, se sentia à deriva em um mundo que o conduzia para o abismo, em Cristo ele crê, sinceramente, que todas as coisas estão resolvidas e que, sendo já um vencedor, nada mais poderia o abalar. Sua segurança não é apenas da salvação, mas de toda uma teia de proteção providenciada por Deus a fim de não permitir que os males desta vida o atinjam.
Ao ler o livro, no entanto, todos os fantasmas surgem de uma vez. Ora, se aquilo tudo está escrito na Bíblia, será que eu posso sofrer das mesmas mazelas que o personagem principal? Neste momento, o leitor tem duas opções: crê que tudo aquilo não se aplica a ninguém mais, e sim apenas a Jó, ou perde definitivamente toda a segurança. No entanto, é aí que se inicia a grande viagem na experiência do personagem.
Continua...
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segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Jó - Introdução I
Posted by Fabio Blanco on 22:21
Nós, leitores, ao passearmos pelas linhas do livro de Jó, somos abarcados por uma insegurança indescritível. E quanto mais compenetrada for nossa leitura, maior será este sentimento. Há, sim, um maremoto de emoções que deixam estupefatos aqueles que se atrevem a mergulhar no mar de dúvidas e falsas certezas que compõem boa parte dessa obra. E diante disso não há como evitarmos os questionamentos sobre as razões do sofrimento, principalmente de alguém tão bom como o personagem central.
Não creio, sinceramente, que esta seja a experiência do leitor moderno apenas. Acredito que desde a primeira pessoa que leu aquelas linhas houve, em geral, a erupção dos mesmos sentimentos. Aliás, podemos ir além, e dizer que na própria história já há, entre seus personagens humanos, um amálgama de inseguranças e certezas que simplesmente espirram na alma do leitor, como em uma projeção do livro para o coração do homem.
Porém, se engana quem acredita que a emoção da obra está na profundidade da narrativa, na beleza poética ou na trágica história do personagem principal. Nada disso! Aquele livro nos toca profundamente simplesmente porque amamos nossas próprias vidas. Nele, vemos a nós mesmos ou, ao menos, a possibilidade trágica que nos rodeia. O sofrimento de Jó nos toca porque, de alguma maneira, sentimos nossa própria vulnerabilidade diante do imponderável. Independente de procurarmos algum sentido naquilo tudo, ainda que houvesse algum, seria algo que estaria além de nosso poder de intromissão, o que nos deixa, de qualquer jeito, sujeitos a forças inexoráveis. Quem chora por Jó, chora menos por ele e mais por si mesmo.
De qualquer maneira, estamos diante de uma riqueza literária estupenda. Porém, mais que isso, há um tesouro existencial, psicológico e espiritual impressionante em suas páginas. A complexidade mental dos diálogos, o caminho misterioso dos motivos do sofrimento do personagem, além do desfecho deslumbrante e poético, tornam a obra magnificamente impactante.
Apesar de parecer paradoxal, seu material é altamente perturbador, ao mesmo tempo que é reconfortante. Ele consegue nos deixar desconfortáveis todo o tempo, em nosso acompanhamento do desenrolar dos fatos e argumentos sem conseguirmos tomar parte decisiva de nenhum deles. Todas as falas parecem corretas, mas inconstantes; lógicas, mas incompletas; justas, mas insuficientes. Vacilamos durante quase toda a leitura e nossa respiração parece até ficar suspensa por alguns momentos. No entanto, o paradoxal conforto acontece não apenas no desfecho da história, com uma das declarações mais belas de toda a Bíblia, mas existe no desenvolvimento de todo o enredo mesmo. Isso porque a saga de Jó nos torna mais humanos, nos faz ver um pouco do que somos e de nossa vida. Apesar do sofrimento, e até por causa dele, sentimos a dor do personagem e suas dúvidas se tornam também as nossas; seus desabafos parecem até sair de nossa boca.
Continua...
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Efésios 3
Posted by Fabio Blanco on 14:11
Uma carta de conforto, por alguém que é prisioneiro, para homens livres. Em uma situação normal era Paulo que estaria recebendo mensagens de apoio, por ter sido preso, a fim de se manter firme, com esperança. Mas aquele homem não precisava de nada disso. Ele já vivia a esperança da eternidade plenamente, e não seriam cadeias que iriam roubar isso dele. A única coisa que evidentemente o incomodava era não poder estar pregando o evangelho. De qualquer forma, não era ele quem recebia as mensagens de apoio, mas ele as escrevia, para uma igreja que podia ter sua fé abalada por causa da prisão de seu missionário. O que Paulo enfatiza é que sua reclusão é, de uma perspectiva celestial, uma grande bênção1. Ela era sinal de que ele estava cumprindo o seu chamado, pregando aos gentios e os ensinando sobre o mistério oculto de Deus, que é a salvação dos povos pagãos, em Cristo Jesus. Instava-os a manterem-se firmes, certos de que tudo o que ele estava passando era para a bem daquelas pessoas. De maneira geral, as tribulações de Paulo eram a confirmação de que os gentios estavam sendo evangelizados e se convertendo a Cristo.
Paulo aceitou o seu chamado sem reservas. Quando Jesus o fez apóstolo para os gentios, ele sabia que passaria por muitas tribulações por causa disso. Porém, jamais recuou, jamais contestou sua condição, jamais questionou a razão dessas dificuldades. E isso acontecia porque ele enxergava muito além do homem ordinário. Sua compreensão do mistério divino o fez contemplar uma realidade supra cósmica que o libertava das amarguras terrenas, o fazia suportar tudo sem nunca esmorecer. O pregador assumiu seu chamado com todas as conseqüências relativas a ele. Quando aceitou pregar o evangelho fora de Israel, com uma mensagem que iria incomodar tanto judeus como não judeus, tinha a certeza que seria perseguido, machucado e preso. Ainda assim, ele manteve-se firme no propósito de Deus, e cumpriu sua vocação irrepreensivelmente. Dizia, inclusive, que nenhuma tribulação poderia afastar um cristão do amor de Deus e, mesmo passando por qualquer dificuldade, sabia que era mais que vencedor2.
Esta carta de Paulo, claramente, procura explicar para a igreja o que Deus revelou para ele. Em síntese, é a demonstração de que os gentios também tinham parte no plano de salvação divino, que este não era apenas para os judeus, mas uma possibilidade universal. Sabia, porém, que até aquele momento, essa realidade era um mistério oculto, ou seja, uma verdade que existia, mas não havia sido ainda revelada. E Deus escolheu exatamente Paulo para receber essa revelação e mais, para administrá-la. Isso significa que ele era o arauto de Deus para os povos pagãos. Foi ele o incumbido de deflagrar essa mensagem e explicá-la.
Havia plena consciência, no apóstolo, de que sua mensagem era nova para os homens, e talvez até mesmo incompreensível, principalmente para os judeus. Tendo sido ele um zeloso religioso, sabia muito bem o que pensavam seus antigos pares e como compreendiam a relação de Deus com o povo de Israel. A pregação para os gentios, sem o proselitismo tradicional judaico, pelo contrário, mesmo liberando os pagãos de se agregarem à religião judaica, só poderia trazer escândalo e ódio por parte de seus concidadãos. Mas este era seu chamado, e como já dito, Paulo o aceitou plenamente.
Aquele homem sabia, inclusive, que o mistério revelado a ele era tão grande, que não era conhecido nem mesmo de anjos e demônios. Essa é uma passagem impressionante desta carta. Ele diz que para ele foi dada a graça de anunciar aos gentios o mistério que esteve oculto em Deus, para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus3.
No entanto, que não se confundam, nem se embaracem num aparente paradoxo. O mistério oculto (salvação dos gentios) era um mistério para os homens, mas estava em Deus por toda a eternidade. Desde o princípio havia um plano de salvação para os pagãos, o qual foi colocado em evidência no momento certo. Os gentios não são uma sobra da salvação rejeitada pelos judeus, mas estavam, sim, dentro dos propósitos divinos desde toda a eternidade4. Quando na carta aos Romanos Paulo diz que o evangelho é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê: primeiro do judeu e também do grego5, claramente está evidenciando uma ordem cronológica de apresentação dessa salvação, jamais uma ordem preferencial.
Paulo assumiu com amor o seu chamado e desejou, ardentemente, compartilhar a verdade do evangelho com todas aquelas pessoas. Ansiava por vê-las aos pés de Cristo, deixando para trás seus cultos místicos idólatras. Queria muito que eles compreendessem a verdade da salvação de Deus, mas sabia que tal compreensão só poderia ser alcançada se houvesse uma intervenção real do Espírito Santo, seguida de uma fé incontestável em seus corações e amor irrepreensível em suas almas6. Com todas essas coisas entranhadas no espírito humano, aí sim, poderiam eles alcançar o nível de compreensão das coisas.
Quando Paulo diz que os santos poderão compreender perfeitamente qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade7, está deixando claro que aquilo que Deus revelou é possível ser compreendido pela mente humana. Diferente de tantos gnósticos que sempre insistiram na necessidade do uso de ritos místicos para se alcançar uma compreensão das coisas elevadas, a Bíblia nos ensina que o homem possui capacidade para entender os propósitos de Deus. Diante disso, vê-se que há dois erros comuns nesta questão: um daqueles que acreditam que apenas por meio de 'rituais misteriosos' se alcança verdades superiores e outro dos que acreditam que a razão, por si só, é capaz de entender a vontade divina. Na verdade, o homem pode, sim, em sua razão, compreender as realidades celestiais reveladas, porém, só alcançará isso, se tiver fé, e amor em Cristo Jesus. Nós não sabemos qual a real capacidade de um cérebro humano, mas podemos dizer, sim, que há coisas que não são simplesmente compreensíveis logicamente, mas demandam uma compreensão mais ampla, que envolve também a intuição e o sentimento. São verdades que simplesmente são, e talvez nem saibamos porque o são, mas que as percebemos num ato cognitivo direto. Isso não tem nada a ver com misticismo, mas é a realidade da constituição do próprio homem. Dessa forma, quando Paulo clama a Deus para que Ele conceda o poder do Espírito Santo aos irmãos, para que eles alcancem uma compreensão inteira da realidade, está levando em consideração esse tipo de compreensão, que não é apenas místico, mas também não é apenas racional, na verdade é uma compreensão com todo o ser (razão, sentimento, intuição e percepção).
Uma das maiores críticas que se faz a qualquer religião é o fato de ela ser achar a 'dona da verdade'. Em primeiro lugar, não há como ser diferente. Uma religião que não tivesse certeza do que prega não poderia ser uma religião, pois quem a seguiria se nem mesmo ela tivesse certa de seus preceitos? Mas, em relação ao cristianismo, isso é ainda mais evidente, afinal ele arroga a si a explicação não apenas do universo, mas de toda a realidade. Isso é um absurdo para os céticos e agnósticos, conduzindo-os a desferirem os mais duros golpes contra a fé cristã, chamando-a de intolerante e soberba. Ocorre que esses críticos jamais poderão compreender o que a Bíblia diz, pois não possuem em princípio a fé. Sendo assim, não têm o amor a Deus que harmoniza todas as coisas, E, por fim, negam a própria percepção, ignoram a própria sensibilidade que, sem dúvida, mostra para eles que há um Deus criador de todas as coisas. O que o cristão faz é exatamente o contrário: ele percebe e sente que há realmente um Deus; antes de compreendê-lo, crê; antes de explicá-lo, ama-o; e depois disso é abençoado com o entendimento das coisas.
Ainda assim, sabemos que há verdades que nem a mente humana pode compreender. Um exemplo é o amor de Cristo8. A razão humana não consegue entender o que move Deus a demonstrar tamanho amor. Como já vimos, Cristo morreu por pessoas que estavam contra Ele, em rebelião. Nenhuma compreensão é possível para isso, nenhum raciocínio pode explicar essa ação. Apenas sabemos que ela é real, mesmo sem podermos explicá-la.
Outra verdade que está além de nossa compreensão é o poder de Deus. O que Ele pode fazer vai muito além do que podemos imaginar. Apesar de sabemos que Deus é infinito em poder, não sabemos exatamente o que isso significa. Não há limite, Ele pode tudo? Nos resignamos em aceitar que isso está além de nossa compreensão.
Está claro, portanto, neste trecho da carta de Paulo, que os gentios fazem parte da família de Deus, e, como todos os homens, têm acesso livre ao Pai, devendo, como qualquer ser humano sobre a face da terra, possuir fé para poder se achegar ao Salvador das almas, que é Jesus Cristo, nosso Senhor.
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Efésios 2.11-22
Posted by Fabio Blanco on 11:50
Os que estão espiritualmente mortos não têm esperança. Seus dias são meramente uma seqüência cronológica ininterrupta, aguardando o último suspiro. Se há algum sonho, não passa de planejamento imediato, que morre tão rápido quanto morre a carne do homem. Em quem podem depositar sua confiança? Em sua força, seus ideais, sua frágil capacidade, ou em um Estado, em uma utopia? Tudo isso passa tão velozmente que as palavras do sábio podem ser repetidas altissonantemente: Tudo é vaidade!1
Os deuses pagãos jamais ofereceram qualquer esperança para o homem. Eram eles apenas uma idealização que, longe da perfeição, tentavam elevar o ser humano a padrões de virtuosidade. Seus favores, porém, não passavam de concessões imediatas, as quais estabeleciam alguma possibilidade de uma vida melhor. Eram melhores colheitas, vitórias em guerras, prosperidade material; nada muito além disso. Esperança eterna? Não havia muita! Apesar de a maioria dos povos crerem em uma eternidade, esta não passava de um Hades comum. O além-vida era algo inexorável, uma continuação prosaica da vida terrena, mas que não abarcava a idéia de recompensa ou conquista. Ir para o além era comum e não significava, absolutamente, um aprimoramento existencial. Me arriscaria a dizer até que, pelas descrições do além feitas por poetas e escritores gregos, por exemplo, o Hades estava mais próximo a uma idéia de inferno do que de paraíso. De qualquer forma, essa era a vida pagã, uma vida sem Messias, sem esperança eterna.
Em Israel isso era um pouco diferente. Os judeus criam em um Deus único, perfeito e eterno. Deus, não é apenas uma idealização, um exemplo, é a fonte da existência, o princípio e o fim. A Ele todos devem seu ser e para Ele devem se conduzir. Nisso acabava existindo já uma idéia de recompensa. Se Deus é perfeito, alguma exigência deve haver para receber os seus justos favores. É verdade que mesmo os judeus não faziam uma idéia muito clara de paraíso e inferno e também tinham suas esperanças muito voltadas para as recompensas terrenas. Porém, diferente dos povos pagãos, em sua teodicéia já havia inserida a idéia do Messias libertador, da necessidade do perdão para a redenção e o sistema de compensação pós-vida. Talvez o povo judeu não compreendesse todas as coisas, mas tudo estava já inserido em suas leis, em seus ritos, em sua simbologia. Deus, ao proporcionar ao povo uma revelação sagrada, já manifestara todo o seu plano, sua forma de agir e sua presciência.
Não podemos olvidar da aliança de Deus com o povo, suas promessas para ele. Não havia nada parecido no mundo gentio. Os deuses pagãos viviam suas vidas em si mesmos, apenas esporadicamente atuando sobre o ser humano. Ainda assim, quando imaginava-se essa atuação, normalmente era ela independente de qualquer valor moral ou espiritual, sendo inclusive, tantas vezes, movida por interesses absolutamente pessoais. O Deus de Israel, de maneira completamente diferente, era o Deus atuante, que conduzia o povo, que acompanhava e interferia na história desse povo, que indicava o caminho, que castigava e recompensava. Era o Deus vivo que tinha o poder sobre tudo e todos. É evidente que a Aliança de Deus só podia estar com o povo de Israel, afinal os outros povos sequer conseguiam alcançar a idéia do Deus Todo-Poderoso como os judeus já compreendiam.
Porém, sendo aqueles deuses gentios apenas idealização, não existindo de fato, é óbvio que mesmo aquele povo pagão era criatura do Deus Verdadeiro e Eterno. De alguma forma, aqueles homens e mulheres estavam dentro da realidade divina e eram amados pelo Deus Criador. Mesmo havendo um pacto entre Deus e o povo judeu, os povos gentios não foram excluídos da realidade eterna do Senhor. Desde o princípio, Deus havia preparado o redentor, que seria não apenas o redentor de Israel, mas o salvador de todos os povos, de todas as raças, línguas e nações.
Os judeus, no entanto, não poderiam saber disso. Se mal compreendiam sua própria redenção, como poderiam vislumbrar uma salvação, por meio de seu Messias, de povos incrédulos e idólatras? Ocorre que esse era o grande mistério que Paulo afirma que existia na mente de Deus, e que, a partir de Jesus Cristo, foi revelado de maneira completa.
Os pagãos estavam longe da salvação não porque Deus os houvesse abandonado, mas porque eles se agarraram aos seus deuses e neles compreendiam sua realidade. Nesses povos, não havia lugar para um Deus Único e suficiente. Quando estes povos, por meio de seus sábios passaram a, de alguma maneira, questionar sua infindável ordem de deuses é que parece que o terreno começou a ser preparado para a aceitação, por eles, da idéia de um Deus Único e verdadeiro. Talvez por volta do século III antes de Cristo começaram a haver as primeiras discussões sobre a existência dos deuses e sua razão de existirem. Mesmo sendo ainda questionamentos tão distantes da realidade existente, já era um prenúncio e, quem sabe, um princípio para a pregação posterior do Evangelho. Deus sabe essas coisas, e quando a Bíblia diz que Cristo veio na plenitude do tempo2, esse talvez seja um dos fatores que contribuíram para isso.
De qualquer forma as palavras de Paulo são bem claras: eles estavam sem Messias, não faziam parte do povo de Deus, não tinham esperança, e viviam sem Deus no mundo.
O Messias era o libertador, aquele que salvaria o povo da opressão e da escravidão. Talvez os judeus não compreendessem que essa libertação era de algo muito maior do que o cativeiro terreno, mas, de qualquer forma, havia a esperança real no salvador. Essa esperança manteve a coesão do povo e sua existência. Imagine um povo sem terra que mantém suas raízes durante milhares de anos. Essa é a história do povo de Israel. Foram cativeiros, escravidão, deportações, expulsões, massacres e holocaustos. Ainda assim, esse povo continuou a existir, manteve-se como uma raça, preservou sua língua e sua identidade. Ora, isso apenas pode ocorrer se houver algum princípio que o mantenha coeso, unido e identificável. Esse princípio é a esperança no Messias. Essa esperança é o norte que sempre conduziu esse povo e o manteve alerta.
Sem essa esperança, não é possível manter-se. No fundo, todos percebemos que a vida é vaidade. Vivemos entre tristezas e alegrias, e, de uma maneira ou de outra, morreremos. Ainda que haja a crença num mundo posterior, ela só dá algum sentido para a vida atual se esse além-mundo for também um além-existência. Se crêssemos apenas em uma continuação ininterrupta da vida terrena, não haveria qualquer necessidade de libertação, de salvação. Desse jeito, se a vida aqui neste mundo tiver suas incoerências, seus desatinos e sua falta de sentido, a vida além não seria diferente. Com isso, a escravidão espiritual seria eterna, alterando apenas o local de onde ela se daria.
O salvador é necessário! Isso foi revelado aos judeus muito antes. Não se pode aceitar que toda fragilidade desta atual existência seja eterna. Não se pode aceitar que o que Deus preparou para o homem seja essa vida pequena e fugaz. A eternidade superior, perfeita, livre das impurezas terrenas é tão necessária que não pensar nela é quase que um suicídio. E de tão necessária ela se torna óbvia, e de tão óbvia sua inexistência é impensável.
Excluindo qualquer dúvida da existência de uma vida eterna paradisíaca, porém, sendo ela não uma continuação automática da vida presente, seu acesso só pode ocorrer como conseqüência do que se faz nesta vida. No entanto, não havendo ser humano capaz de produzir obras que o conduzam a essa eternidade perfeita, foi necessário que o próprio Deus, fazendo-se homem, derramasse seu sangue, possibilitando assim, para aqueles que aceitassem esse sacrifício, o acesso a eternidade maravilhosa do céu. Este Homem é o Messias esperado. Ele veio, Ele morreu, Ele deu seu sangue, e Ele venceu, então, a morte, Ele nos deu a vida, Ele nos deu acesso a Deus. Quem não tem o Messias não tem o céu, quem não tem o Salvador, não tem a esperança, e isso é o que ocorre a todos que estão fora da realidade cristã.
Os povos pagãos não faziam parte do povo de Deus, pois não o compreendiam. Assim, estavam fora da esperança. Eram estranhos à Aliança da promessa porque não poderia haver promessa a quem não acreditava na oferta. Ainda que Deus falasse aqueles povos, ainda assim seriam palavras ao vento, pois não as teriam como respostas, já que seus questionamentos eram muito diferentes.
De toda forma, mesmo os gentios estavam no plano de Deus, e o sangue do Messias não fora derramado apenas para o povo judeu, mas para toda a humanidade. Diante disso, na plenitude dos tempos, essa verdade precisava chegar aos ouvidos pagãos e possibilitar a eles a conversão. Aqueles que tão longe estavam, não apenas fisicamente, mas em sua própria concepção de existência, agora poderiam ser aproximados. O preço já estava pago e tanto os judeus como os pagãos poderiam ter acesso à esperança da eternidade ao lado de Deus.
Se Deus não faz acepção de pessoas, e todos estão incluídos no seu amor, não havia como deixar de fora mesmo os povos mais distantes. Ainda que os judeus não compreendessem isso, pois concebiam uma libertação nacional e terrena, tiveram que aceitar essa verdade, uma verdade que foi revelada simbolicamente a Pedro e de uma maneira ainda mais completa para Paulo. A partir de Cristo, não haveria mais separação entre judeus e o resto do mundo. Não haveria mais a exclusividade que norteou Israel durante tanto tempo.
O muro da separação caiu. Ressaltemos, no entanto, que esse muro existia principalmente na visão judia da realidade. No coração de Deus o homem sempre foi apenas uma espécie, criada a sua imagem e semelhança. Mas essa verdade não estava disponível para o imaginário israelense, que conhecia a revelação da lei e pouco compreendia toda a profundidade da graça já nela contida. Em Cristo, porém, foi descortinado esse mistério oculto, esse conhecimento escondido e, a partir dele, todos podem ser apenas um em Jesus. Daquele instante em diante, era necessário compreender que não poderia haver mais inimizade entre judeus e gentios, já não cabia mais a separação que havia inclusive no próprio Templo de Jerusalém, no qual os gentios podiam permanecer apenas nas partes exteriores.
O que o homem antigo compreendia era apenas a sombra da realidade. Sua vida era conduzida por ordenanças que apenas refletiam, como um espelho, a verdade. O judeu daquele tempo seguia essas ordenanças e sua virtude residia exatamente em fazer bem isso. Mas Deus não é um deus de sombras e reflexos, e sim a realidade plena, a verdade – que nunca deixou de ser – que precisava se definitivamente descortinada. E isso ocorreu com a vitória de Jesus na cruz. O véu foi literalmente rasgado e o sentido mais profundo daquelas ordenanças se apresentou ao mundo. A Lei era inimizade, não porque fosse uma regra de preconceitos, mas, precisamente por ser lei, precisava determinar o que era e o que não era. Para ensinar, que era o seu grande propósito, precisava definir os pecados, afastar as impurezas, determinar os ritos de expurgo etc. Com isso, invariavelmente, ela excluía, condenava. Porém, com a revelação do entendimento final do intuito da lei, toda exclusão pré-determinada, toda condenação antecipada perde o sentido. O que há, enfim, é a apresentação da verdade, mas uma verdade disponível a todo homem, que escolhe, simplesmente, se a aceita ou se exclui dela por si mesmo.
A revelação, agora compreendida, não mais desune, mas aproxima o ser humano. E isso deve produzir a formação de um homem novo, restaurado no Espírito do próprio Deus. Não apenas homens novos, mas um modelo perfeito, um arquétipo santo. Esse protótipo é o próprio Cristo, no qual todos devem se espelhar, a quem todos devem servir e se submeter. Deus não deve ser mais chamado o Deus dos judeus, não deve mais ser nominado o Senhor de Israel. Deus é o Deus dos homens, de toda a raça humana, que foi reunida em Jesus Cristo para O adorarem. O acesso ao Pai é livre a qualquer um, independente de raça, cor ou nacionalidade.
No mundo há apenas uma família de Deus, a qual trabalha em favor do Evangelho de salvação, nessa luta incessante contra Satanás e seus anjos3. Um só corpo, uma só fé, um só batismo e um só espírito. Uma unidade que deve abalar as portas do inferno, saqueando vidas que caminham para a perdição, conduzindo-as à maravilha da eternidade ao lado de Deus. Guiados pela Palavra de Deus (fundamento dos apóstolos e dos profetas), o povo do Senhor, obedecendo as ordens de Cristo, propagando a sua verdade, como uma missão inescusável, se mantém firme numa só esperança, que é a certeza de viver eternamente junto ao Pai Celeste.
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Efésios 2.1-8
Posted by Fabio Blanco on 14:56
Estávamos mortos e esta morte pode ser compreendida em duas acepções complementares: a morte espiritual, que é a condenação eterna como destino certo para o homem natural e a morte existencial, que é a ausência de sentido e razão no homem que vaga pela vida. Seja como for, quem fez isso conosco foi o nosso próprio pecado. Antes de tudo, a condição pecaminosa está em nós desde nossa concepção, o que, por si só, nos manteve afastados de Deus. E essa condição, certamente, nos levou ao erro, à rebelião contra Deus, às ofensas e pecados. Tempo de morte, pois seguíamos o curso deste mundo (v.2).
Uma característica óbvia de algo morto é sua passividade, seu estado inerme. O que está morto é carregado pelo vento, pelas águas, pelo transcurso das coisas. Não reage, não luta. Como um pedaço de madeira em um rio, é levado pela correnteza. Nós também éramos conduzidos, passivelmente, pelas águas mundanas. Carregados pelo instinto, pelos valores deste século, pelo desejo animal, fazíamos a nossa vontade, ou melhor, cedíamos à vontade da carne e do pensamento (v.3). Passivos diante da força do pecado, éramos, assim, sujeitos às ações do diabo (v.2). A partir do momento que não tenho controle sobre a minha vida, que não sou liberto da força da carne, evidente que estou sujeito às obras satânicas, as quais acabam por impor a vontade do diabo, conduzindo-me a executar os seus desígnios malignos.
Nenhum de nós esteve livre dessa condição. Nascemos assim: em pecado. Se há uma herança certa é esta: o pecado original. Não recebemos de Adão apenas as características humanas exteriores, mas, principalmente, esse estado corrompido de pecado, que, impregnado ao ser, naturalmente nos acompanha desde a concepção. Ninguém, absolutamente ninguém, está livre disso. Nem judeu, nem gentio, nem os santos. Todos estão sujeitos, naturalmente, ao pecado original. Rousseau, por exemplo, como outros iluministas, acreditava que o homem nascia bom e era corrompido pelo meio no qual vivia. Porém, isso é um erro. O homem nasce pecador, nasce com a tendência pecaminosa, com a inclinação ao erro. Ainda que muitos se iludam, crendo que o homem tem a capacidade de ser bom por meio de duas próprias forças, prefiro concordar com Chesterton que disse que a única parte da Teologia que é passível de prova é a doutrina do pecado original. Basta olhar para o homem; basta olharmos para nós mesmos.
Alguém ainda duvida da infinita misericórdia de Deus? E seu amor, há como contestá-lo? Ele nos deu vida (v.1) estando nós ainda mortos (v.5). Ora, nem ainda tínhamos tomado uma decisão em seu favor e Ele já havia morrido por nós. Pense nisso: o sacrifício de Cristo não foi para pessoas que estavam com Ele, pelo contrário, Jesus morreu por homens que estavam contra Ele (mortos em pecado). Não existe prova maior de amor e isso demonstra o quanto Deus, realmente, ama o mundo (Jo 3.16).
Nada fizemos para merecer isso. Pelo contrário, merecíamos mesmo era a condenação. Ninguém que já possua alguns anos de vida pode olhar para trás e dizer que merece a salvação. Alguém que diz isso mente ou está completamente iludido. O interessante é que existem pessoas que realmente acreditam nisso. Dizem elas que serão salvas porque são boas e que não fazem mal a ninguém. Ora, isso é uma completa distorção da realidade. Quem fala isso enxerga sua vida com lentes embaçadas pelo próprio pecado. Sem saber, têm um visão turva, crendo que enxergam a verdade. Esta imagem disforme, que é o pecador, para ele mesmo é alguém perfeito, justo e bom. Grande engano!
Se há uma salvação, sem dúvida ela é imerecida. Se podemos ser salvos, apenas se for por um ato de graça (v.5). O que Cristo fez naquela cruz não tem preço. Ninguém pode pagar por aquilo. Nenhum ato, nenhuma vida, nenhuma santidade ou perfeição tem o poder de comprar aquilo que Jesus pagou com sangue: nossa redenção. A salvação pela graça não é um regra criada e imposta por Deus. É, simplesmente, a única possibilidade. Se não fosse assim, ficaríamos eternamente mortos em nossos delitos e pecados.
Deus, porém, nos ressuscitou juntamente com Cristo (v.6). E o que é esta ressurreição além da possibilidade, antes impossível, de nos tornarmos vivos? O que é a ressurreição além do que a vitória sobre a morte. Se antes estávamos mortos, por causa do nosso pecado, em Cristo há a possibilidade de reviver, de vencer esta morte e se tornar verdadeiramente vivo. A vitória factual de Cristo sobre a morte é a vitória espiritual nossa também. E tal vitória não é apenas uma esperança futura, mas uma realidade bem presente. O esmagamento da morte já ocorreu na vida do cristão. Ele não é mais aquele ser passivo, conduzido pelo curso deste mundo. Agora, ele tem vida, consciência de sua existência e destino, podendo, com isso, negar o mal, o pecado, o diabo. Haverá uma ressurreição de fato, mas podemos seguir o apóstolo e dizer que já ressuscitamos, pois não estamos mais mortos, à mercê do príncipe deste mundo.
Podemos dizer, então, que somos salvos ou esta é apenas uma condição futura? Paulo não exitava em falar disso como certo. 'Nos ressuscitou', 'nos fez assentar': verbos no passado, como se referissem a fatos que já houvessem ocorrido. Estas formas de expressão denotam a certeza que o apóstolo tinha em relação a realização de tudo isso. Para ele, já mergulhado na infinitude da existência divina, não fazia muita diferença expressar-se no passado, no presente ou no futuro. Independente do tempo cronológico, tudo aquilo já era uma realidade.
Da mesma forma, passamos, a partir do momento que fomos levantados de nosso sepulcro existencial, a ser prova viva da bondade de Deus. Sem merecermos, Ele transformou homens absolutamente corrompidos em seres agora restaurados. Quem os olha, não pode deixar de captar algo impressionante e sobrenatural. Acabamos por nos tornar testemunhas vivas da benignidade divina (v.7). Somos a prova de que Deus é bom.
Evidência disso é que nossa salvação é gratuita, um presente (dom) de Deus para nós. Não compramos, não adquirimos, não conquistamos. Na verdade, recebemos livremente. Apenas aceitamos esse presente humildemente. Nada do que façamos é capaz de atrair o favor da salvação sobre nós. Que me desculpem os espíritas que acreditam na força redentora de suas obras. Isso é presunção, cegueira, ilusão. Isso também é contrária à verdade revelada da Bíblia. Um dos pilares dessa revelação é a completa incapacidade humana para conquistar a salvação. Esta apenas acontece por causa de um amor eterno do Pai e por pura misericórdia de sua parte. Quem nega isso não pode ser chamado de cristão.
Por causa disso, ninguém possui motivo pra se envaidecer por causa de sua salvação. Como alguém que recebe um presente, não temos mérito algum na redenção (v.9). Isto não quer dizer que fomos envolvidos passivelmente pela salvação. Para que ela tivesse efeito em nossa vida, perdoem-me a redundância, houve uma atitude ativa de nossa parte. Um presente pode ser aceito ou rejeitado, no entanto, nós aceitamos esse presente divino. Enquanto muitos negam a oferta de Cristo, nós nos agarramos a ela. Mesmo assim, não é possível enxergar mérito algum nisso. Quem pode se orgulhar simplesmente porque aceitou um presente?
Agora, mesmo estando claro que não há obra alguma que possa nos fazer conquistar a salvação, isso não quer dizer que as boas ações não façam parte da vida do crente. Seria absurdo pensar em alguém que, como dissemos, é testemunha da bondade de Deus e não reflita isso através de suas atitudes. Dispensar as boas obras da vida é ignorar a vontade de Deus. O cristão pratica, sim, boas ações e vive de maneira correta. Porém, ele não faz isso para obter a salvação (o que seria inútil), mas por causa dela. A diferença entre o cristão e o que crê no poder salvador das obras é que aquele compreende que as obras são apenas o corolário da fé, a exteriorização dela. Se digo que possuo fé, isso, invariavelmente, me conduzirá à prática das boas obras. Se não produzo boas obras, não é porque, simplesmente, estou em falta com a religião, mas, porque, verdadeiramente, eu não tenho fé. A fé é o motor das boas obras. No entanto, não custa repetir, essas obras não têm o condão de proporcionarem a salvação. Elas são, unicamente, um subproduto da fé e a prova da existência da alma cristã.
Uma característica óbvia de algo morto é sua passividade, seu estado inerme. O que está morto é carregado pelo vento, pelas águas, pelo transcurso das coisas. Não reage, não luta. Como um pedaço de madeira em um rio, é levado pela correnteza. Nós também éramos conduzidos, passivelmente, pelas águas mundanas. Carregados pelo instinto, pelos valores deste século, pelo desejo animal, fazíamos a nossa vontade, ou melhor, cedíamos à vontade da carne e do pensamento (v.3). Passivos diante da força do pecado, éramos, assim, sujeitos às ações do diabo (v.2). A partir do momento que não tenho controle sobre a minha vida, que não sou liberto da força da carne, evidente que estou sujeito às obras satânicas, as quais acabam por impor a vontade do diabo, conduzindo-me a executar os seus desígnios malignos.
Nenhum de nós esteve livre dessa condição. Nascemos assim: em pecado. Se há uma herança certa é esta: o pecado original. Não recebemos de Adão apenas as características humanas exteriores, mas, principalmente, esse estado corrompido de pecado, que, impregnado ao ser, naturalmente nos acompanha desde a concepção. Ninguém, absolutamente ninguém, está livre disso. Nem judeu, nem gentio, nem os santos. Todos estão sujeitos, naturalmente, ao pecado original. Rousseau, por exemplo, como outros iluministas, acreditava que o homem nascia bom e era corrompido pelo meio no qual vivia. Porém, isso é um erro. O homem nasce pecador, nasce com a tendência pecaminosa, com a inclinação ao erro. Ainda que muitos se iludam, crendo que o homem tem a capacidade de ser bom por meio de duas próprias forças, prefiro concordar com Chesterton que disse que a única parte da Teologia que é passível de prova é a doutrina do pecado original. Basta olhar para o homem; basta olharmos para nós mesmos.
Alguém ainda duvida da infinita misericórdia de Deus? E seu amor, há como contestá-lo? Ele nos deu vida (v.1) estando nós ainda mortos (v.5). Ora, nem ainda tínhamos tomado uma decisão em seu favor e Ele já havia morrido por nós. Pense nisso: o sacrifício de Cristo não foi para pessoas que estavam com Ele, pelo contrário, Jesus morreu por homens que estavam contra Ele (mortos em pecado). Não existe prova maior de amor e isso demonstra o quanto Deus, realmente, ama o mundo (Jo 3.16).
Nada fizemos para merecer isso. Pelo contrário, merecíamos mesmo era a condenação. Ninguém que já possua alguns anos de vida pode olhar para trás e dizer que merece a salvação. Alguém que diz isso mente ou está completamente iludido. O interessante é que existem pessoas que realmente acreditam nisso. Dizem elas que serão salvas porque são boas e que não fazem mal a ninguém. Ora, isso é uma completa distorção da realidade. Quem fala isso enxerga sua vida com lentes embaçadas pelo próprio pecado. Sem saber, têm um visão turva, crendo que enxergam a verdade. Esta imagem disforme, que é o pecador, para ele mesmo é alguém perfeito, justo e bom. Grande engano!
Se há uma salvação, sem dúvida ela é imerecida. Se podemos ser salvos, apenas se for por um ato de graça (v.5). O que Cristo fez naquela cruz não tem preço. Ninguém pode pagar por aquilo. Nenhum ato, nenhuma vida, nenhuma santidade ou perfeição tem o poder de comprar aquilo que Jesus pagou com sangue: nossa redenção. A salvação pela graça não é um regra criada e imposta por Deus. É, simplesmente, a única possibilidade. Se não fosse assim, ficaríamos eternamente mortos em nossos delitos e pecados.
Deus, porém, nos ressuscitou juntamente com Cristo (v.6). E o que é esta ressurreição além da possibilidade, antes impossível, de nos tornarmos vivos? O que é a ressurreição além do que a vitória sobre a morte. Se antes estávamos mortos, por causa do nosso pecado, em Cristo há a possibilidade de reviver, de vencer esta morte e se tornar verdadeiramente vivo. A vitória factual de Cristo sobre a morte é a vitória espiritual nossa também. E tal vitória não é apenas uma esperança futura, mas uma realidade bem presente. O esmagamento da morte já ocorreu na vida do cristão. Ele não é mais aquele ser passivo, conduzido pelo curso deste mundo. Agora, ele tem vida, consciência de sua existência e destino, podendo, com isso, negar o mal, o pecado, o diabo. Haverá uma ressurreição de fato, mas podemos seguir o apóstolo e dizer que já ressuscitamos, pois não estamos mais mortos, à mercê do príncipe deste mundo.
Podemos dizer, então, que somos salvos ou esta é apenas uma condição futura? Paulo não exitava em falar disso como certo. 'Nos ressuscitou', 'nos fez assentar': verbos no passado, como se referissem a fatos que já houvessem ocorrido. Estas formas de expressão denotam a certeza que o apóstolo tinha em relação a realização de tudo isso. Para ele, já mergulhado na infinitude da existência divina, não fazia muita diferença expressar-se no passado, no presente ou no futuro. Independente do tempo cronológico, tudo aquilo já era uma realidade.
Da mesma forma, passamos, a partir do momento que fomos levantados de nosso sepulcro existencial, a ser prova viva da bondade de Deus. Sem merecermos, Ele transformou homens absolutamente corrompidos em seres agora restaurados. Quem os olha, não pode deixar de captar algo impressionante e sobrenatural. Acabamos por nos tornar testemunhas vivas da benignidade divina (v.7). Somos a prova de que Deus é bom.
Evidência disso é que nossa salvação é gratuita, um presente (dom) de Deus para nós. Não compramos, não adquirimos, não conquistamos. Na verdade, recebemos livremente. Apenas aceitamos esse presente humildemente. Nada do que façamos é capaz de atrair o favor da salvação sobre nós. Que me desculpem os espíritas que acreditam na força redentora de suas obras. Isso é presunção, cegueira, ilusão. Isso também é contrária à verdade revelada da Bíblia. Um dos pilares dessa revelação é a completa incapacidade humana para conquistar a salvação. Esta apenas acontece por causa de um amor eterno do Pai e por pura misericórdia de sua parte. Quem nega isso não pode ser chamado de cristão.
Por causa disso, ninguém possui motivo pra se envaidecer por causa de sua salvação. Como alguém que recebe um presente, não temos mérito algum na redenção (v.9). Isto não quer dizer que fomos envolvidos passivelmente pela salvação. Para que ela tivesse efeito em nossa vida, perdoem-me a redundância, houve uma atitude ativa de nossa parte. Um presente pode ser aceito ou rejeitado, no entanto, nós aceitamos esse presente divino. Enquanto muitos negam a oferta de Cristo, nós nos agarramos a ela. Mesmo assim, não é possível enxergar mérito algum nisso. Quem pode se orgulhar simplesmente porque aceitou um presente?
Agora, mesmo estando claro que não há obra alguma que possa nos fazer conquistar a salvação, isso não quer dizer que as boas ações não façam parte da vida do crente. Seria absurdo pensar em alguém que, como dissemos, é testemunha da bondade de Deus e não reflita isso através de suas atitudes. Dispensar as boas obras da vida é ignorar a vontade de Deus. O cristão pratica, sim, boas ações e vive de maneira correta. Porém, ele não faz isso para obter a salvação (o que seria inútil), mas por causa dela. A diferença entre o cristão e o que crê no poder salvador das obras é que aquele compreende que as obras são apenas o corolário da fé, a exteriorização dela. Se digo que possuo fé, isso, invariavelmente, me conduzirá à prática das boas obras. Se não produzo boas obras, não é porque, simplesmente, estou em falta com a religião, mas, porque, verdadeiramente, eu não tenho fé. A fé é o motor das boas obras. No entanto, não custa repetir, essas obras não têm o condão de proporcionarem a salvação. Elas são, unicamente, um subproduto da fé e a prova da existência da alma cristã.
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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
A Mornidão
Posted by Fabio Blanco on 10:32
Há algo que desagrada a Deus profundamente e este algo é a mornidão. Não sei se vocês já pararam para pensar no que isso quer dizer. Se Jesus diz para a igreja de Laodicéia que, antes fosse ela fria ou quente, mas por ela ser morna, seria vomitada de sua boca, quer dizer que há nesta atitude algo que afronta o caráter divino.Posted in Teologia
segunda-feira, 26 de maio de 2008
O Fim da Lei é Cristo
Posted by Fabio Blanco on 14:25
Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê. Romanos 10.4
Um grande conflito há na mente de grande parte dos cristãos relativo à sua relação com o Antigo Testamento bíblico. Sentem-se eles inseguros; vacilantes na linha divisória entre a negação da prática do escrito e a aplicação irrestrita da lei mosaica. Ainda que tenham consciência que nenhuma das duas antagônicas posições pode ser irrestritamente encampada, resta-lhes a incerteza de qual é a posição correta neste assunto.
Podemos começar com a própria denominação que é dada aos pactos de Deus com o homem. A Velha e a Nova Aliança. Apenas por ela já temos uma indicação de uma separação. Se há o novo, o velho ficou para trás. Se há um novo pacto, isso significa que o pacto antigo, de alguma forma, foi substituído. Não haveria sentido em haver uma nova aliança sem a revogação da antiga. Do contrário, não seria uma nova, mas uma continuação da velha aliança. Porém, isso não resolve todo o problema, muito diferente, poderiam objetivar a possibilidade de uma nova aliança não revogar a antiga, mas, apenas, aperfeiçoá-la.
Gostaria de começar citando as palavras de Jesus Cristo, o personagem central de nossa discussão. Afinal, se há uma nova aliança, está se dá nele, a partir dele, por causa dele. Em Mateus 9.16 e 17, o mestre diz:
Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho; porque semelhante remendo tira parte do vestido, e faz-se maior a rotura. Nem se deita vinho novo em odres velhos; do contrário se rebentam, derrama-se o vinho, e os odres se perdem; mas deita-se vinho novo em odres novos, e assim ambos se conservam.
Cristo, ali, havia sido indagado do motivo de seus discípulos não jejuarem, como os de João Batista. A resposta dada por ele, no entanto, parece envolver mais do que simplesmente a questão do jejum. Jesus parece estar se referindo a um novo período na relação entre Deus e os homens. Alguma coisa estava mudando; algo na prática religiosa ao menos. Pelo menos é isso que Jesus parece dizer. Nessa passagem, claramente, ele faz referência de uma incompatibilidade ou, ao menos, inconveniência, da composição de algo novo com algo que já estava estabelecido. Segundo Ele, essa mistura não seria, no mínimo, satisfatória. Se Ele estava se referindo, exatamente, a uma nova aliança e a completa incompatibilidade com a antiga, isso vamos analisar melhor.
Aqueles que defendem que o Velho Testamento é absolutamente aplicável aos dias de hoje, apenas sendo aperfeiçoado por Jesus Cristo, costumam citar a passagem de Mateus 5.17 a 19, na qual está escrito, conforme Jesus expressou:
Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus.
É compreensível, para o leitor neófito, ou ao leigo, interpretando apenas essa passagem sem atentar para todo o sistema salvífico criado por Deus, concluir que todos os preceitos e cerimoniais contidos na lei e nos profetas do Antigo Testamento (que é ao que Cristo se referia) devam ser cumpridos, ou melhor, praticados religiosamente da maneira como estão expressos. Bem, como eu disse, essa interpretação é compreensível àqueles que não possuem um conhecimento mais abrangente do plano de salvação de Deus. Porém, para aqueles que compreendem a verdade do Evangelho tal interpretação chega a beirar a apostasia.
O apóstolo Paulo, em Romanos 10.4, afirma que “...Cristo é o fim da lei para justificar a todo aquele que crê”. Considerando apenas essa passagem, parece haver um conflito evidente entre as palavras do apóstolo e a de Jesus Cristo. Aquele diz que Jesus é o fim da lei e o próprio Cristo afirma que veio cumprir a lei. Ora, como pode alguém que cumpre a lei ser, ao mesmo tempo, a abolição dessa mesma lei?
Quando Jesus fala que veio cumprir a lei isso pode estar se referindo, primeiramente, no sentido óbvio, que Ele veio cumprir os cerimoniais, os ritos e a lei do Antigo Testamento. Tal interpretação poderia ser feita, considerando que Cristo, realmente, na sua passagem terrena, como judeu que era, cumpriu muitos dos rituais religiosos previstos no Antigo Testamento. Apenas para citar: Mateus 8.4, João 7.10, Mateus 26.19. Porém, tal interpretação parece restrita demais para ser aplicada no contexto do sermão do monte, dentro do qual tais palavras foram proferidas. O ensinamento do mestre tinha a dimensão da história universal; abrangia não apenas aquele povo, mas toda a humanidade, de todos os tempos; chegava até o fim do mundo. Parece claro que Cristo estava enfatizando a eternidade das palavras do Senhor, sua aplicabilidade eterna, seu valor perene.
Uma segunda interpretação, que considero ainda mais restrita que a anterior, é que Jesus haveria dito aquilo apenas para não parecer um revolucionário, um herege. Apesar de poder haver algum conteúdo nesse sentido em suas palavras, não é este o objetivo principal delas. O que Jesus estava ali expressando era algo absolutamente verdadeiro. Era a expressão manifesta de uma realidade pura. Era o sentido de sua missão. Compreendamos!
Paulo falou que Jesus era o “fim da lei”. E que não nos percamos pela aparência da expressão. Fim, não significa, apenas, o término de algo, mas, além disso, o objetivo de alguma coisa. Por exemplo: o casamento tem o fim de unir perpetuamente duas pessoas. A finalidade do matrimônio é juntar um homem em uma mulher numa instituição familiar. Podemos dizer que esse é o seu fim, ou seja, sua finalidade. Podemos dizer, também, que determinado contrato, tem por fim a entrega de produtos a um determinado comerciante. O ato de entregar as mercadorias é o fim do contrato. Com a efetiva entrega, o contrato se resolve, não há mais razão de existir. Podemos dizer que o fim (finalidade) do contrato é a entrega, e que a ocorrência desta resulta no fim (término) do negócio jurídico. Veja como a mesma palavra ‘fim’ tem uma conotação um pouco mais ampla do que, simplesmente, a de término de algo. Numa linguagem coloquial não costumamos usar o termo ‘fim’ no sentido de finalidade, mas é um uso muito comum numa linguagem pouco mais formal.
Vamos percorrer um pouco mais pelas palavras da Bíblia para concluirmos este ponto. Gálatas 3.24 e 25 expressa:
“...a lei se tornou nosso aio, para nos conduzir a Cristo, a fim de que pela fé fôssemos justificados. Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio”.
Aio era o criado particular encarregado da educação doméstica das crianças de famílias nobres. Paulo compara a lei mosaica a este professor. E diz mais: que vindo a fé, tal professor não tem mais ascendência sobre o seu antigo aluno. Se torna evidente, portanto, que o apóstolo afirma que os que vivem sob a Nova Aliança não mais estão sujeitos aos preceitos do Velho Testamento. Usando da mesma analogia bíblica, podemos dizer que o que nos ensinou o velho professor se mantém insculpido em nossas almas, porém não possui mais qualquer valor normativo. Como a obediência a um pai. Quando criança isso não é uma escolha: obedecemos, pois somos absolutamente dependentes dele. Na fase adulta, se ainda o obedecemos, isso se dá por uma decisão livre, por uma expressão da vontade individual. Mas isso não resolve completamente o nosso problema. Se encerrássemos o estudo por aqui poderíamos concluir que antes o homem cumpria os preceitos do Velho Testamento por determinação legal e hoje deve cumprir por decisão livre. Ocorre essa não é a interpretação correta dos textos citados e não é a nossa conclusão.
Os que são das obras da lei estão debaixo de maldição[1] e por ela ninguém será justificado[2], assim afirma Paulo. Apenas essas duas afirmações já servem para concluirmos que não há salvação pela lei. Não precisamos nos alongar nisso, afinal sabemos que a salvação vem por meio de Jesus Cristo, que morreu por todos, e oferece a vida eterna a todo aquele que nele crê[3]. Para o assunto abordado aqui neste estudo gostaria de enfatizar o aspecto mandamental da lei sobre nós, os quais vivem na época da graça. Concluímos que sendo um professor em nossa infância, como humanidade, poderíamos carregar os ensinamentos da Velha Aliança conosco, mesmo que não mais sob a tutela legal desse tutor. Mas isso pode facilmente conceder a possibilidade da necessidade da prática dos ritos e cerimoniais antigos, não mais como lei, mas como escolha religiosa. É claro que essa não é a conclusão que chegamos. E isso vamos resolver agora.
Paulo afirma, categoricamente, que aquele que tenta se justificar pela lei está decaído da graça[4]. Não há dúvida que há uma inconciliação entre as duas coisas. A justificação do homem, sua salvação, apenas pode ocorrer pela graça divina manifestada em Jesus Cristo. Qual o sentido, então, de guardar algum preceito do Velho Testamento? Se ele não justifica, se ele não salva, se ele é uma maldição, por que seguiríamos seus cerimoniais? Qual a razão disso? A resposta é dada pelo próprio apóstolo que diz que toda a lei se cumpre no mandamento: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo[5]. Essa afirmação paulina se coaduna perfeitamente com aquilo que Jesus já havia dado como resposta a um doutor da lei, quando disse que os dois maiores mandamentos eram “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças” e “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”[6]. Não farei aqui uma ode ao amor, pois não caberia neste conciso estudo. Porém, posso dizer que tanto Jesus Cristo, como seu apóstolo resumiram a verdade do Evangelho. O que eles querem dizer é que, para aqueles que vivem o amor verdadeiro, o qual tem dentro de si diversas manifestações como obediência, fidelidade, misericórdia etc., tudo o que está contido na lei é absolutamente desnecessário, pois o próprio amor conduzirá sua vida na direção da vontade de Deus. A Bíblia indica isso:
“...o fruto do Espírito é: o amor, o gozo, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão, o domínio próprio; contra estas coisas não há lei” (Gálatas 5.22-23) - (grifo meu).
Em Jesus Cristo foi inaugurada uma era absolutamente nova. Aquilo que era preceito legal, cumprido apenas por causa da coação penal, agora deveria ser cumprido observando a essência do que nela estava contida - o espírito da lei. O espírito da lei mosaica (sua essência) era ensinar os homens sobre Jesus Cristo, prepará-los para sua vinda, fazê-los compreender o plano de salvação. Até a vinda de Cristo, a lei nos ensinava sobre ele, após sua vinda, para que ela serviria? Se o espírito da lei (sua essência) é Jesus Cristo, sendo ele manifestado, é ele a quem devemos agora obediência, não mais à lei. A letra mata, mas o espírito vivifica[7]. Se obedecemos a lei, olhando apenas sua forma externa, estamos condenados; porém, se compreendemos sua essência (espírito) e vemos nela Jesus Cristo, somo justificados. O Velho Testamento é como o contrato firmado que tem por fim (finalidade) ensinar sobre o Messias. Aparecendo esse Messias, o contrato se resolve, não mais tendo utilidade, sendo apenas um registro, uma memória, uma prova. Resumindo: o amor é o cumprimento da lei[8].
Agora, essa ausência de lei não significa a completa libertinagem dos costumes. Aliás, o apóstolo Paulo precisou explicar isso em suas cartas. O ser humano tem muita dificuldade em compreender o império do amor. Não entende como Jesus pode ter enfatizado um reino que não tivesse regras a serem seguidas. O homem não consegue separar religião de regras, de imposições. Isso porque não compreende que na prática do amor verdadeiro reside um completo entendimento da vontade de Deus. Apenas no amor há obediência sincera, só no amor há santidade, nele apenas há fidelidade, somente nele se encontra humildade. A verdadeira religião é amar a Deus e aos homens e quem no amor vive não precisa ser julgado por lei alguma, afinal seus atos serão mais virtuosos, mais corretos e mais preciosos do que qualquer ordenamento legal pode prever. Não é o império dos sentidos e da vontade, é o império do amor. Não é relatividade da moral, mas a moral perfeita. Não é a anarquia, mas o governo de Cristo sobre nós. A lei existe para ordenar e pacificar os homens[9], mas se esses homens já estão ordenados pela força do amor de Deus, se já estão pacificados pela consciência de Cristo, que lei pode ser tão perfeita que ainda precise ser promulgada para eles?
Com esse entendimento podemos, agora, conciliar o que vimos no início deste estudo. Se Jesus veio cumprir a lei, o fez isso sendo ele mesmo o Messias. Se a lei, em tudo, apontava para Ele e preparava o povo para a sua vinda, Ele era o cumprimento dessa mesma lei. Não o que Ele fizesse ou praticasse, mas Ele mesmo, sua figura humana e divina que era o Messias esperado e profetizado pela lei e pelos profetas. Assim, era Ele o fim da lei. Finalidade única de todo o arcabouço de normas, ritos e cerimônias dadas no Velho Testamento. Nele se cumpre todo o prometido e esperado, finaliza o logro da lei. Dessa forma, da lei nada mais resta, a não ser o exemplo e a prova do pacto que se cumpriu.
Falando diretamente do Velho Testamento, podemos enxergá-lo como prova das coisas que haviam de vir e outras que ainda virão; instrumento do conhecimento da personalidade divina, naquilo que Deus se Deixou revelar; compreensão de uma moral eterna, imutável, que permanece no tempo[10]; preparação para a compreensão da vinda de Cristo, afinal, sem o Velho Testamento, o Novo Testamento é incompreensível; e, por fim, o registro da história humana em sua relação com Deus.
Gostaria de terminar este estudo transcrevendo um artigo meu chamado - O Governo do Símbolo e o Reino do Espírito, o qual fala sobre essa relação entre o Velho e o Novo Testamento:
“O cristianismo é a religião do sentido real das coisas, e não da aparência. A Lei Mosaica era apenas o simbolismo do real[11]. Em Jesus, o real se manifesta por inteiro, sem mais a simbologia. Ora, para o homem que tem o encontro com o real, não convém regredir à aparência, não faz sentido. Enquanto o real é o reino do espírito, a aparência é o governo do símbolo, necessário como instrutor para o que havia de vir, mas sem mais função quando o que ele apontava se manifesta. Para o homem espiritual, que teve a seu favor o véu de acesso a Deus rasgado para todo sempre, o ritual é inócuo. Se ele ainda o pratica, só pode ser para a satisfação da carne mesmo[12], já que, espiritualmente, não possui mais efeito algum. Até parecem piedosos, mas não servem para nada!Hoje, se nos relacionamos com Deus, não mais é por meio dos símbolos que, de maneira incompleta, representavam a divindade. Esta relação é direta – espírito com Espírito. Então, e isso Paulo tenta alertar, não devemos aceitar o jugo da estética. O reino de Jesus não é estético, é conceitual (realístico).Santidade, obediência, pureza, amor, sabedoria não se encaixam no conceito de rituais simbológicos representativos do real. São princípios e virtudes reais mesmo. Não é possível ser santo apenas em aparência, nem sábio. Ou é ou não é. A aparência é do ritual, que pode tentar representar o real, mas nunca será o real. Então, quando Paulo fala que essas coisas possuem até aparência de virtude, ele está afirmando que jamais essas coisas serão virtude.
Até hoje as pessoas têm dificuldade de compreender isso. Como não se sentem capacitadas de alcançar a realidade, preferem manter-se na aparência. Até porque a aparência não pode ser julgada, por não possuir valor moral. Sendo apenas uma representação, a virtude que ela simboliza é que é passível de julgamento. Mantendo-se apenas no rito, o homem tenta, talvez inconscientemente, se eximir de responsabilidade. Ao ser retirado da segurança do ritual, o homem é desnudado por completo. E o que sobra? Sua essência. Aí, não adianta se contentar em parecer piedoso, é necessário o ser, de verdade”.
[1] Gálatas 3.10
[2] Gálatas 2.16
[3] João 3.16
[4] Gálatas 5.4
[5] Gálatas 5.14
[6] Mateus 22.36-40
[7] 2ª Coríntios 3.6
[8] Romanos 13.10
[9] 1ª Timóteo 1.8-10
[10] As leis morais de Deus não mudaram. O que Deus condenava antes continua condenando hoje. Porém, não podemos confundir os preceitos morais com as penas determinadas no Antigo Testamento. A execução da pena pode variar no tempo, devido às peculiaridades de cada época, o que não afeta em nada à compreensão da eternidade da moral divina.
[11] Hebreus 10.1
[12] Colossenses 2.16-23
Um grande conflito há na mente de grande parte dos cristãos relativo à sua relação com o Antigo Testamento bíblico. Sentem-se eles inseguros; vacilantes na linha divisória entre a negação da prática do escrito e a aplicação irrestrita da lei mosaica. Ainda que tenham consciência que nenhuma das duas antagônicas posições pode ser irrestritamente encampada, resta-lhes a incerteza de qual é a posição correta neste assunto.
Podemos começar com a própria denominação que é dada aos pactos de Deus com o homem. A Velha e a Nova Aliança. Apenas por ela já temos uma indicação de uma separação. Se há o novo, o velho ficou para trás. Se há um novo pacto, isso significa que o pacto antigo, de alguma forma, foi substituído. Não haveria sentido em haver uma nova aliança sem a revogação da antiga. Do contrário, não seria uma nova, mas uma continuação da velha aliança. Porém, isso não resolve todo o problema, muito diferente, poderiam objetivar a possibilidade de uma nova aliança não revogar a antiga, mas, apenas, aperfeiçoá-la.
Gostaria de começar citando as palavras de Jesus Cristo, o personagem central de nossa discussão. Afinal, se há uma nova aliança, está se dá nele, a partir dele, por causa dele. Em Mateus 9.16 e 17, o mestre diz:
Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho; porque semelhante remendo tira parte do vestido, e faz-se maior a rotura. Nem se deita vinho novo em odres velhos; do contrário se rebentam, derrama-se o vinho, e os odres se perdem; mas deita-se vinho novo em odres novos, e assim ambos se conservam.
Cristo, ali, havia sido indagado do motivo de seus discípulos não jejuarem, como os de João Batista. A resposta dada por ele, no entanto, parece envolver mais do que simplesmente a questão do jejum. Jesus parece estar se referindo a um novo período na relação entre Deus e os homens. Alguma coisa estava mudando; algo na prática religiosa ao menos. Pelo menos é isso que Jesus parece dizer. Nessa passagem, claramente, ele faz referência de uma incompatibilidade ou, ao menos, inconveniência, da composição de algo novo com algo que já estava estabelecido. Segundo Ele, essa mistura não seria, no mínimo, satisfatória. Se Ele estava se referindo, exatamente, a uma nova aliança e a completa incompatibilidade com a antiga, isso vamos analisar melhor.
Aqueles que defendem que o Velho Testamento é absolutamente aplicável aos dias de hoje, apenas sendo aperfeiçoado por Jesus Cristo, costumam citar a passagem de Mateus 5.17 a 19, na qual está escrito, conforme Jesus expressou:
Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus.
É compreensível, para o leitor neófito, ou ao leigo, interpretando apenas essa passagem sem atentar para todo o sistema salvífico criado por Deus, concluir que todos os preceitos e cerimoniais contidos na lei e nos profetas do Antigo Testamento (que é ao que Cristo se referia) devam ser cumpridos, ou melhor, praticados religiosamente da maneira como estão expressos. Bem, como eu disse, essa interpretação é compreensível àqueles que não possuem um conhecimento mais abrangente do plano de salvação de Deus. Porém, para aqueles que compreendem a verdade do Evangelho tal interpretação chega a beirar a apostasia.
O apóstolo Paulo, em Romanos 10.4, afirma que “...Cristo é o fim da lei para justificar a todo aquele que crê”. Considerando apenas essa passagem, parece haver um conflito evidente entre as palavras do apóstolo e a de Jesus Cristo. Aquele diz que Jesus é o fim da lei e o próprio Cristo afirma que veio cumprir a lei. Ora, como pode alguém que cumpre a lei ser, ao mesmo tempo, a abolição dessa mesma lei?
Quando Jesus fala que veio cumprir a lei isso pode estar se referindo, primeiramente, no sentido óbvio, que Ele veio cumprir os cerimoniais, os ritos e a lei do Antigo Testamento. Tal interpretação poderia ser feita, considerando que Cristo, realmente, na sua passagem terrena, como judeu que era, cumpriu muitos dos rituais religiosos previstos no Antigo Testamento. Apenas para citar: Mateus 8.4, João 7.10, Mateus 26.19. Porém, tal interpretação parece restrita demais para ser aplicada no contexto do sermão do monte, dentro do qual tais palavras foram proferidas. O ensinamento do mestre tinha a dimensão da história universal; abrangia não apenas aquele povo, mas toda a humanidade, de todos os tempos; chegava até o fim do mundo. Parece claro que Cristo estava enfatizando a eternidade das palavras do Senhor, sua aplicabilidade eterna, seu valor perene.
Uma segunda interpretação, que considero ainda mais restrita que a anterior, é que Jesus haveria dito aquilo apenas para não parecer um revolucionário, um herege. Apesar de poder haver algum conteúdo nesse sentido em suas palavras, não é este o objetivo principal delas. O que Jesus estava ali expressando era algo absolutamente verdadeiro. Era a expressão manifesta de uma realidade pura. Era o sentido de sua missão. Compreendamos!
Paulo falou que Jesus era o “fim da lei”. E que não nos percamos pela aparência da expressão. Fim, não significa, apenas, o término de algo, mas, além disso, o objetivo de alguma coisa. Por exemplo: o casamento tem o fim de unir perpetuamente duas pessoas. A finalidade do matrimônio é juntar um homem em uma mulher numa instituição familiar. Podemos dizer que esse é o seu fim, ou seja, sua finalidade. Podemos dizer, também, que determinado contrato, tem por fim a entrega de produtos a um determinado comerciante. O ato de entregar as mercadorias é o fim do contrato. Com a efetiva entrega, o contrato se resolve, não há mais razão de existir. Podemos dizer que o fim (finalidade) do contrato é a entrega, e que a ocorrência desta resulta no fim (término) do negócio jurídico. Veja como a mesma palavra ‘fim’ tem uma conotação um pouco mais ampla do que, simplesmente, a de término de algo. Numa linguagem coloquial não costumamos usar o termo ‘fim’ no sentido de finalidade, mas é um uso muito comum numa linguagem pouco mais formal.
Vamos percorrer um pouco mais pelas palavras da Bíblia para concluirmos este ponto. Gálatas 3.24 e 25 expressa:
“...a lei se tornou nosso aio, para nos conduzir a Cristo, a fim de que pela fé fôssemos justificados. Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio”.
Aio era o criado particular encarregado da educação doméstica das crianças de famílias nobres. Paulo compara a lei mosaica a este professor. E diz mais: que vindo a fé, tal professor não tem mais ascendência sobre o seu antigo aluno. Se torna evidente, portanto, que o apóstolo afirma que os que vivem sob a Nova Aliança não mais estão sujeitos aos preceitos do Velho Testamento. Usando da mesma analogia bíblica, podemos dizer que o que nos ensinou o velho professor se mantém insculpido em nossas almas, porém não possui mais qualquer valor normativo. Como a obediência a um pai. Quando criança isso não é uma escolha: obedecemos, pois somos absolutamente dependentes dele. Na fase adulta, se ainda o obedecemos, isso se dá por uma decisão livre, por uma expressão da vontade individual. Mas isso não resolve completamente o nosso problema. Se encerrássemos o estudo por aqui poderíamos concluir que antes o homem cumpria os preceitos do Velho Testamento por determinação legal e hoje deve cumprir por decisão livre. Ocorre essa não é a interpretação correta dos textos citados e não é a nossa conclusão.
Os que são das obras da lei estão debaixo de maldição[1] e por ela ninguém será justificado[2], assim afirma Paulo. Apenas essas duas afirmações já servem para concluirmos que não há salvação pela lei. Não precisamos nos alongar nisso, afinal sabemos que a salvação vem por meio de Jesus Cristo, que morreu por todos, e oferece a vida eterna a todo aquele que nele crê[3]. Para o assunto abordado aqui neste estudo gostaria de enfatizar o aspecto mandamental da lei sobre nós, os quais vivem na época da graça. Concluímos que sendo um professor em nossa infância, como humanidade, poderíamos carregar os ensinamentos da Velha Aliança conosco, mesmo que não mais sob a tutela legal desse tutor. Mas isso pode facilmente conceder a possibilidade da necessidade da prática dos ritos e cerimoniais antigos, não mais como lei, mas como escolha religiosa. É claro que essa não é a conclusão que chegamos. E isso vamos resolver agora.
Paulo afirma, categoricamente, que aquele que tenta se justificar pela lei está decaído da graça[4]. Não há dúvida que há uma inconciliação entre as duas coisas. A justificação do homem, sua salvação, apenas pode ocorrer pela graça divina manifestada em Jesus Cristo. Qual o sentido, então, de guardar algum preceito do Velho Testamento? Se ele não justifica, se ele não salva, se ele é uma maldição, por que seguiríamos seus cerimoniais? Qual a razão disso? A resposta é dada pelo próprio apóstolo que diz que toda a lei se cumpre no mandamento: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo[5]. Essa afirmação paulina se coaduna perfeitamente com aquilo que Jesus já havia dado como resposta a um doutor da lei, quando disse que os dois maiores mandamentos eram “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças” e “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”[6]. Não farei aqui uma ode ao amor, pois não caberia neste conciso estudo. Porém, posso dizer que tanto Jesus Cristo, como seu apóstolo resumiram a verdade do Evangelho. O que eles querem dizer é que, para aqueles que vivem o amor verdadeiro, o qual tem dentro de si diversas manifestações como obediência, fidelidade, misericórdia etc., tudo o que está contido na lei é absolutamente desnecessário, pois o próprio amor conduzirá sua vida na direção da vontade de Deus. A Bíblia indica isso:
“...o fruto do Espírito é: o amor, o gozo, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão, o domínio próprio; contra estas coisas não há lei” (Gálatas 5.22-23) - (grifo meu).
Em Jesus Cristo foi inaugurada uma era absolutamente nova. Aquilo que era preceito legal, cumprido apenas por causa da coação penal, agora deveria ser cumprido observando a essência do que nela estava contida - o espírito da lei. O espírito da lei mosaica (sua essência) era ensinar os homens sobre Jesus Cristo, prepará-los para sua vinda, fazê-los compreender o plano de salvação. Até a vinda de Cristo, a lei nos ensinava sobre ele, após sua vinda, para que ela serviria? Se o espírito da lei (sua essência) é Jesus Cristo, sendo ele manifestado, é ele a quem devemos agora obediência, não mais à lei. A letra mata, mas o espírito vivifica[7]. Se obedecemos a lei, olhando apenas sua forma externa, estamos condenados; porém, se compreendemos sua essência (espírito) e vemos nela Jesus Cristo, somo justificados. O Velho Testamento é como o contrato firmado que tem por fim (finalidade) ensinar sobre o Messias. Aparecendo esse Messias, o contrato se resolve, não mais tendo utilidade, sendo apenas um registro, uma memória, uma prova. Resumindo: o amor é o cumprimento da lei[8].
Agora, essa ausência de lei não significa a completa libertinagem dos costumes. Aliás, o apóstolo Paulo precisou explicar isso em suas cartas. O ser humano tem muita dificuldade em compreender o império do amor. Não entende como Jesus pode ter enfatizado um reino que não tivesse regras a serem seguidas. O homem não consegue separar religião de regras, de imposições. Isso porque não compreende que na prática do amor verdadeiro reside um completo entendimento da vontade de Deus. Apenas no amor há obediência sincera, só no amor há santidade, nele apenas há fidelidade, somente nele se encontra humildade. A verdadeira religião é amar a Deus e aos homens e quem no amor vive não precisa ser julgado por lei alguma, afinal seus atos serão mais virtuosos, mais corretos e mais preciosos do que qualquer ordenamento legal pode prever. Não é o império dos sentidos e da vontade, é o império do amor. Não é relatividade da moral, mas a moral perfeita. Não é a anarquia, mas o governo de Cristo sobre nós. A lei existe para ordenar e pacificar os homens[9], mas se esses homens já estão ordenados pela força do amor de Deus, se já estão pacificados pela consciência de Cristo, que lei pode ser tão perfeita que ainda precise ser promulgada para eles?
Com esse entendimento podemos, agora, conciliar o que vimos no início deste estudo. Se Jesus veio cumprir a lei, o fez isso sendo ele mesmo o Messias. Se a lei, em tudo, apontava para Ele e preparava o povo para a sua vinda, Ele era o cumprimento dessa mesma lei. Não o que Ele fizesse ou praticasse, mas Ele mesmo, sua figura humana e divina que era o Messias esperado e profetizado pela lei e pelos profetas. Assim, era Ele o fim da lei. Finalidade única de todo o arcabouço de normas, ritos e cerimônias dadas no Velho Testamento. Nele se cumpre todo o prometido e esperado, finaliza o logro da lei. Dessa forma, da lei nada mais resta, a não ser o exemplo e a prova do pacto que se cumpriu.
Falando diretamente do Velho Testamento, podemos enxergá-lo como prova das coisas que haviam de vir e outras que ainda virão; instrumento do conhecimento da personalidade divina, naquilo que Deus se Deixou revelar; compreensão de uma moral eterna, imutável, que permanece no tempo[10]; preparação para a compreensão da vinda de Cristo, afinal, sem o Velho Testamento, o Novo Testamento é incompreensível; e, por fim, o registro da história humana em sua relação com Deus.
Gostaria de terminar este estudo transcrevendo um artigo meu chamado - O Governo do Símbolo e o Reino do Espírito, o qual fala sobre essa relação entre o Velho e o Novo Testamento:
“O cristianismo é a religião do sentido real das coisas, e não da aparência. A Lei Mosaica era apenas o simbolismo do real[11]. Em Jesus, o real se manifesta por inteiro, sem mais a simbologia. Ora, para o homem que tem o encontro com o real, não convém regredir à aparência, não faz sentido. Enquanto o real é o reino do espírito, a aparência é o governo do símbolo, necessário como instrutor para o que havia de vir, mas sem mais função quando o que ele apontava se manifesta. Para o homem espiritual, que teve a seu favor o véu de acesso a Deus rasgado para todo sempre, o ritual é inócuo. Se ele ainda o pratica, só pode ser para a satisfação da carne mesmo[12], já que, espiritualmente, não possui mais efeito algum. Até parecem piedosos, mas não servem para nada!Hoje, se nos relacionamos com Deus, não mais é por meio dos símbolos que, de maneira incompleta, representavam a divindade. Esta relação é direta – espírito com Espírito. Então, e isso Paulo tenta alertar, não devemos aceitar o jugo da estética. O reino de Jesus não é estético, é conceitual (realístico).Santidade, obediência, pureza, amor, sabedoria não se encaixam no conceito de rituais simbológicos representativos do real. São princípios e virtudes reais mesmo. Não é possível ser santo apenas em aparência, nem sábio. Ou é ou não é. A aparência é do ritual, que pode tentar representar o real, mas nunca será o real. Então, quando Paulo fala que essas coisas possuem até aparência de virtude, ele está afirmando que jamais essas coisas serão virtude.
Até hoje as pessoas têm dificuldade de compreender isso. Como não se sentem capacitadas de alcançar a realidade, preferem manter-se na aparência. Até porque a aparência não pode ser julgada, por não possuir valor moral. Sendo apenas uma representação, a virtude que ela simboliza é que é passível de julgamento. Mantendo-se apenas no rito, o homem tenta, talvez inconscientemente, se eximir de responsabilidade. Ao ser retirado da segurança do ritual, o homem é desnudado por completo. E o que sobra? Sua essência. Aí, não adianta se contentar em parecer piedoso, é necessário o ser, de verdade”.
[1] Gálatas 3.10
[2] Gálatas 2.16
[3] João 3.16
[4] Gálatas 5.4
[5] Gálatas 5.14
[6] Mateus 22.36-40
[7] 2ª Coríntios 3.6
[8] Romanos 13.10
[9] 1ª Timóteo 1.8-10
[10] As leis morais de Deus não mudaram. O que Deus condenava antes continua condenando hoje. Porém, não podemos confundir os preceitos morais com as penas determinadas no Antigo Testamento. A execução da pena pode variar no tempo, devido às peculiaridades de cada época, o que não afeta em nada à compreensão da eternidade da moral divina.
[11] Hebreus 10.1
[12] Colossenses 2.16-23
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A religião do homem