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sexta-feira, 22 de junho de 2012

A guerra deste tempo

Sentes a tensão de fazer o que não queres e não fazer o que queres? Saibas que esse é um dilema essencialmente cristão. Apenas este tem consciência de que ainda se encontra infinitamente abaixo da perfeição divina, quer progredir na santidade e se depara com uma natureza transgressora da verdade. Quem não se coloca sob a direção divina vive na paz infernal de fazer o que deseja.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Não apenas tu

Por quanto tempo ainda permanecerás imerso nas profundezas de teus próprios pesadelos? Abre teus olhos um pouco e vê como todos nos debatemos nesse mar de vida, e todos lutamos para não submergir. Tu acreditas sinceramente que estás sozinho e que a Providência te abandonou. Então, olha ao redor e observa como todos estão lutando; não há ninguém em paz. Lembra-te: no mundo terás aflições. Estas são parte da própria estrutura da existência temporal. Será que ainda persiste a sensação de seres tu o mais desgraçado?

quinta-feira, 22 de março de 2012

Ser forte

O cristianismo de um homem é conhecido proporcionalmente a sua capacidade de se colocar em uma oposição defensiva contra o mundo. Se há um mínimo de vacilo, o mundo o engole; se há concessões, ele o destrói. Isso porque o mundo não é amigo de ninguém, mas apenas de seus próprios valores. Não é amigo de ninguém porque, para ele, o homem, em sua individualidade independente, é um bastião a ser derrubado, pois o mundo não aceita quem não o recebe.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Molhe seus pés (como tomar uma decisão difícil)

Um homem cristão tem como princípio que sua vida é direcionada pela vontade de Deus. Em tese, isso é bem claro, no entanto, na prática, quando ele tem que tomar decisões concretas, isso pode virar um verdadeiro tormento. Isso porque, temeroso por não desobedecer os desígnios divinos, e, ao mesmo tempo, sem enxergar com claridade quais são esses desígnios na situação de fato, ele se vê em uma encruzilhada. Nessa hora, isso pode paralisá-lo.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A força do mundo

O homem tem três inimigos: o diabo, a carne e o mundo. Entre eles, porém, me parece que o mais poderoso é o mundo. Isso porque, enquanto o diabo ataca o espírito e suas pretensões e a carne a vontade e seus desejos, é o mundo que impõe suas forças pela necessidade. É por causa da necessidade de aprovação e de atenção que muitos se entregam ao consenso e vendem suas almas e sua identidade. É pela necessidade de sustento que muitos abdicam do conhecimento, abandonando qualquer interioridade em favor de uma luta inglória pelo pão de cada dia.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Somos dependentes

Depender de alguém é reconhecer que nossos braços não são tão fortes, que nosso conhecimento não é tão profundo e que precisamos dele para direcionar-nos por um caminho melhor. Quando dizemos que somos dependentes, estamos declarando nossa limitação, afirmando que há um momento ou ponto de nossa vida do qual não ultrapassamos, não porque não queremos, mas porque nos é impossível.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Somos como o vento

"O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito" João 3.8

Tentar controlar todos os aspectos de nossa vida pode se tornar algo bastante cansativo, senão frustrante. Com o tempo, aprendemos que não temos força para alterar praticamente nada nem mesmo em nós mesmos, quanto mais nos outros ou nas coisas que nos rodeiam.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Fome e sede da verdade

Eis que vêm dias, diz o Senhor DEUS, em que enviarei fome sobre a terra; não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do SENHOR. E irão errantes de um mar até outro mar, e do norte até ao oriente; correrão por toda a parte, buscando a palavra do SENHOR, mas não a acharão” Amós 8.11-12.
O que vemos, nos últimos tempos, é que as pessoas têm buscado, desesperadamente, algo que preencha suas almas, que dê sentido às suas vidas, que sacie a fome e a sede da verdade que elas têm. Ao mesmo tempo, por mais que as cidades estejam repletas de templos, que as rádios e tvs transmitam amontoados de programas religiosos, ainda que a internet possibilite buscar, em um infinidade de pregadores, aqueles que pareçam mais convincentes, ainda assim a sede e a fome persistem.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Entre a besta e a perfeição

O valor de todo homem, a medida de sua estatura, são reconhecidos em suas prioridades, principalmente naqueles assuntos que mais lhe afeiçoam, que são o tema comum de suas parolices. Assim como teu coração reside onde está o teu tesouro, de tua boca ecoa o verbo de tua medida. E esta reflete o tamanho do teu ser. No que tu pensas é o que tu falas, e o que tu insistes em falar demonstra o que te guia. Tu podes ser conduzido pelos céus, pelas maravilhas e pela gloriosa esperança, mas, também podes, como um tronco morto nas águas de um rio, ser levado pela correnteza da pequenez.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O vácuo

Não existe ninguém que não sinta, de vez em quando, a sensação do vazio, da distância, do abandono. Isso porque não somos o tudo, e entre nós e Deus há uma certa separação. Se fôssemos o tudo seríamos Deus, se estivéssemos inseridos totalmente no todo, Deus seria a própria natureza, o que rejeitamos totalmente.


Esse vazio, perceba, é o teu impulso, o teu motor. Como buscar a Deus se já estivéssemos plenamente nEle? Se O buscamos é porque há, sim, alguma separação e, entendo, eternamente haverá. Seremos, sempre, suas criaturas, feitas por um ato inicial seu, que carregam, sim, efeitos diretos de Seu ser. No entanto, jamais seremos Ele, e sempre necessitaremos dEle.


Ora, se há uma necessidade eterna, há, também, uma dependência eterna. E se há ambas há, obviamente, uma eterna separação. Homem algum, de época alguma, pôde se inserir completamente em Deus. Por mais santo, mais puro, mais fiel que seja, sempre haverá um vácuo, um vazio, uma distância.


Bendita separação! É ela que mantém nossos olhos no Pai. Por ela, percebemos que o abismo se encontra logo ali, entre nós e Deus. Não, o inferno não está lá atrás; está, sim, bem ali na frente. E todos caminham em sua direção. O mais irônico disso tudo, é que, de uma maneira ou de outra, esse inferno muitos encontram em seus caminhos em direção a Deus.


O inferno se encontra no fundo de um vale, cercado de um lado pelos homens e de outro pelo paraíso. Os que nele caem, normalmente seguiam para o lar de Deus, mas se depararam com um abismo sem ponte. Largo abismo, e gigante!


Quantos não tentam se achegar a Deus por suas próprias forças. Porém como, se não podem suplantar a distância? Há diversos homens que acreditam em seus caminhos, sua fé, suas religiões, acreditam que podem vencer o espaço que os separa de Deus, mas terminam por descer mesmo ao abismo. 


Isso porque nada pode ser ponte entre nós e Deus. Absolutamente nada! Todas as coisas que existem têm uma limitação intrínseca e não chegam sequer a tangenciar Deus. Onde terminam sua existências não começa a de Deus, mas, sim, o vazio. Deus, às vezes, está logo ali, mas jamais junto. Isso ocorre porque a criatura se estivesse ainda que tangenciando Deus, de alguma maneira se tornaria Ele, o que é impossível.


Há uma distância, irrevogável distância. 


Tristes dos homens que não percebem isso. Sofrem por uma plenitude inalcançável, por uma pureza impossível, por uma unidade com o divino inconcebível. São infelizes porque buscam o salto, o encontro com Deus por meio de um lanço. São petulantes, crendo poder ser um com Deus, sem escalas, sem mediadores, esforçando-se inutilmente por isso.


Entendem então porque Cristo? Ele é a ponte, Ele a ligação possível; e somente Ele.


Ainda há alguma dúvida sobre sua divindade? Pensem: Jesus Cristo é Deus, sim; pois apenas Deus pode ligar-nos a Deus. Todas as outras coisas e pessoas são incapazes disso, intrinsecamente incapazes. Por suas estruturas naturais, estão eternamente separadas do Deus Eterno, não podendo preencher o vácuo, a distância.


Dizem que Cristo morreu em nosso lugar, porque não havia homem algum sem pecado. Não creio nisso. Ainda que houvesse homem sem pecado, não teria este o poder de fazer-nos juntos a Deus. Ainda que puro, seria limitado, naturalmente limitado.


Mas Cristo é Deus. Preencheu a distância sendo homem, possibilitou o encontro sendo Deus. Se fosse apenas homem, o vácuo permaneceria; se fosse apenas Deus não faria a ponte, o contato.


Jesus é a linha que permite o homem tanger Deus. Tênue e maravilhosa linha, que mantém homem e Deus eternamente juntos.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Desabrigado

"Pois quem quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a vida por minha causa e pelo evangelho, a salvará" Mc 8.35

Na complexidade da vida, os caminhos mais perfeitos nem sempre são os mais seguros. Há uma boa dose de risco em se colocar sob a Verdade. No entanto, o perigo é apenas para a tua parte mortal, sendo que a outra parte, a imortal, encontra ali seu porto seguro.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O Olhar Elevado

A satisfação da necessidade por sexo, comida, bebida, sono e lazer é o que há de comum em praticamente todos os animais. São necessidades triviais para as quais eles vivem toda a sua vida. A glória, ou a busca por reconhecimento pessoal, já é algo comum a Satanás, o pai da soberba e do orgulho. Toda sua existência é direcionada para o recebimento do louvor que não lhe cabe.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A lembrança da dor

Sabe aquele momento quando chega uma notícia que parece fazer nosso mundo cair? Aquele instante quando as nuvens se fecham, o peito aperta e a única vontade que se tem é a de chorar? Sabe quando há a sensação de ser a pessoa mais impotente do mundo, incapaz de mover um milímetro sequer da vida, e tem a impressão de ser uma mera vítima de um destino insensível? Sabe quando a única reação que resta é sentar na beira da cama e olhar para o nada, digerindo a incapacidade de transformar as coisas que estão ao redor? Por incrível que pareça, esse momento talvez seja a maior bênção que podemos ter, algo que pode ser  uma boa companhia até o fim da nossa existência.

Há um segredo que pode nos tornar mais humildes, mais compreensíveis, menos apegados às recompensas deste mundo e mais livres para desfrutar da verdade em sua totalidade. Este mesmo segredo permite nos sentirmos mais dependentes de Deus, menos afeiçoados de nós mesmos, mais atentos ao problema do próximo, mais sensíveis ao verdadeiro sentido da vida. 

Bem, o segredo nem é tão secreto assim, porém qual de nós costuma praticá-lo? O segredo é, nos dias que tudo parecer bem, quando o mundo parecer conspirar em nosso favor, quando nos sentirmos a pessoa mais bem-sucedida, mais admirada e mais amada do mundo, nos lembrarmos do sentimento próprio daqueles dias maus, cultivando, de alguma forma, aquele aperto no peito, aquele vazio no coração e aquele medo proveniente da impotência.

Longe de pregar uma teologia da derrota, o que estou tentando dizer é que apenas os momentos difíceis nos fazem enxergar nossa alma pura, nosso coração aberto, nosso interior realmente desarmado. Apenas a dor faz-nos conhecermos a nós mesmos. Somente ela nos faz experimentar uma existência mais completa, paradoxo da vida. Esvaziar-se de si mesmo talvez seja a única forma de vivenciar o que a vida oferece de verdade. 

Em síntese, na nossa memória reside o segredo para vivermos melhor e mais profundamente, conhecendo mais de nós mesmos, principalmente o quanto limitados nós somos.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Cristãos valentes

Uma pregação sobre as dificuldades da vida e sobre o quanto de aflição está reservada para todos nós, diferente do que possa parecer, não é derrotista ou conformista, mas, sim, uma pregação de consciência. Enxergar a verdade nua e crua jamais pode ser considerado fraqueza. Muito pelo contrário, demonstra uma clareza que é exigida de qualquer pessoa sã. Não pode ser sadio alguém que não enfrenta a realidade como ela é, mas cria fantasias ilusórias, mentindo para si mesmo, engendrando um mundo falso e alienante.

O cristianismo jamais foi uma religião de coitados. Mesmo diante das mais cruéis perseguições, a característica que sempre se observou nos crentes foi a resistência diante das maiores crueldades cometidas contra eles. São histórias e mais histórias de homens e mulheres que não abriram mão de sua fé, ainda que isso lhes custasse sofrer o terror da tortura e até a morte.

Por isso, é difícil compreender a postura dos cristãos atuais, os quais disseminam um sentimento de coitadismo absurdo, pelo qual todos se sentem vítimas de um mundo mal, aguardando a chegada de uma mão forte que os restaure a uma posição de honra que supostamente caberia a eles. Sentem-se como vítimas do mundo, do diabo, do Estado, dos patrões e de todos os que, de alguma maneira, possuem algum tipo de superioridade em relação a eles.

Diante da assimilação dessa idéia, então surge uma cultura típica de coitados, a saber, a cultura da reclamação. Reivindicam, determinam e rejeitam tudo aquilo que acreditam ser injusto. E é óbvio que, conforme essa cultura, são, o tempo todo, injustiçados. E para os injustiçados não cabe outra alternativa senão reclamar, reclamar, reclamar.

Mas há ainda outra conseqüência dessa cultura da reclamação, que é a crença de que todos eles têm um lugar de honra do qual foram retirados. Incrivelmente crédulos de seus direitos, acham que tudo conspira para os remover de seus postos elevados. Precisam, portanto, reclamar muito a fim de que haja uma restituição de seu status de direito.

É impressionante como o cristão contemporâneo é semelhante a uma criança mimada dentro de um supermercado. Bate o pé, chora, grita, esperneia, reclama, pede, exige. Talvez, a sorte dele esteja no fato de Deus ser absolutamente misericordioso. Senão, já teria levado uns belos de uns bofetões.

O pior de tudo é que aquele que vive assim, apenas dessa cultura da reclamação, tem a petulância de achar que é mais espiritual do que o pobre cristão que, de uma forma ou de outra, enxerga a realidade da vida. Aquele tem a este como um derrotado, um conformista e resignado que não tem coragem de exigir o que, supostamente, é seu por direito. Diante disso nós vemos o quanto está distorcida toda a noção de moralidade e virtude, mesmo no seio do cristianismo.

Derrotado, por certo, é aquele que não luta e não enfrenta a realidade com todas as suas agruras e dificuldades. Seu destino é a reclamação. Impotente diante das forças do mal, apenas lhe resta botar as mão na cintura e bater bastante o salto, como um típico guerreiro bárbaro!

Diferente disso, o cristão verdadeiro é um valente. E por isso a Bíblia ensina que os tímidos e medrosos não herdarão o céu[1]. Quem não for tido por guerreiro de Cristo, quem não lutar as lutas do Evangelho, quem não vestir as armas de combate espirituais[2], não terá o prazer de fazer parte da família eterna de Deus.

No entanto, a valentia cristã se dá numa base um tanto diferente da de um guerreiro de fato. O cristão valente o é por sua convicção, em primeiro lugar. Sua valentia é demonstrada diante dos ataques morais e intelectuais que sofre. Sendo um guerreiro, com efeito, não sucumbe diante dessas investidas e mantém-se firme. Também é valente por causa de sua fé. Com ela não enxerga inimigos tão grandes os quais não possa enfrentar. Tendo um supremo general, que é Cristo, segue firme no campo de batalha, certo que faz parte de uma tropa vencedora. Mas o cristão também é valente porque seus valores não estão arraigados nesta vida, e, como bom soldado, não se embaraça nos negócios deste mundo[3]. Pelo contrário, se mantém alerta ao chamado de Cristo e pronto para morrer por seu Nome!

Por outro lado, não é verdade que um bom soldado nunca chore. A diferença é que seus lamentos são derramados em seu leito, longe dos olhos do inimigo, diante apenas daquele que tudo vê e pode trazer o verdadeiro conforto. Ao toque da trombeta, no entanto, o bom soldado enxuga suas lágrimas e responde à convocação com firmeza de ânimo, pronto a servir ao grande exército de Deus.

 O bom soldado não finge que a guerra não existe, nem se sente injustiçado por causa do ataque do inimigo, o que seria absurdo. Ele, de fato, enxerga os perigos e as dificuldades inerentes a qualquer batalha. Assumindo os riscos e consciente das dificuldades, ele veste a armadura de Cristo e se dispõe a lutar todas as batalhas que se apresentam diante dele, até a derradeira, na qual sucumbirá, enfim. Porém, mesmo nesta, ele poderá dizer: Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé...


[1] Apocalipse 21.8
[2] Efésios 6.11
[3] 2ª Timóteo 2.4


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A presença da eternidade

Enquanto a morte for uma ruptura, a vida será trágica. Apenas a compreensão da dimensão da eternidade pode oferecer paz à alma humana. Somente quando a eternidade deixa de ser o estágio futuro, com o início determinado, é que ela se torna realmente eternidade e abraça não apenas a esperança do porvir, mas a existência presente.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Amigo de Deus

A diferença entre um verdadeiro cristão e um mero religioso é que aquele não apenas crê em um Deus pessoal, mas se relaciona com Ele intimamente. Isso parece tão óbvio, porém tenho percebido o quanto estamos nos afastando desse tipo de relação em favor de um contato pagão com Deus. Explico: uma carecterística comum de todas as religiões pagãs era possuirem deuses que pouco se relacionavam individualmente com os pobres seres mortais humanos. O contato destes com a divindade era ritualístico, praticamente impessoal. Os rituais religiosos eram a forma de se aproximar desses deuses, porém sem qualquer menção à relação direta entre o homem individual e o deus venerado. O cristianismo, no entanto, revelou uma face de Deus antes não bem compreendida: o amor que se envolve diretamente com o ser amado inferior. O que era absurdo para os gregos, os quais apenas concebiam o amor ascendente (o amado superior), foi revelado por Jesus Cristo sem qualquer ressalva. A partir disso, com a compreensão da simbologia do véu rasgado, o homem pôde saber que o Deus ao qual ele se remete não é uma entidade distante, alcançado somente por meio de mistérios iniciáticos, mas é o amigo acessível, a despeito de sua eterna superioridade, que nos ama e nos ouve.
O nosso afastamento não tem ocorrido por omissão (apesar de muitos cristãos negligenciarem a oração como forma de contato com Deus), mas, principalmente, pela maneira como nos dirigimos a Ele. As orações que tenho escutado em nossos templos têm se mostrado tão impessoais que parece que Deus está bem distante. São reivindicações, invocações, reclamações e instigações que se encaixariam muito bem numa linguagem entre empregados e seus patrões. Sabe aquele jeito impessoal de se dirigir a alguém como se o seu interlocutor não estivesse presente e você quisesse apenas mandar um recado por meio de outras pessoas? Sem contar o conteúdo que tem se restringido a requerimentos quase formais de satisfação dos desejos mais idiossincráticos.
Estamos perdendo uma amigo, não porque Ele tem se afastado de nós, mas porque estamos conservando-o a uma distância segura em relação às nossas vidas. O Deus próximo e pessoal é um incômodo que faz-nos deparar com nosso pecado, vícios e mentiras. O amigo sincero se torna o chato que só pela sua presença nos força a olharmos para dentro de nós mesmos e vermos a imensidâo de incoerências e impurezas que existe. Então, é muito mais agradável mantermos este amigo longe, a uma distância que Ele possa nos ouvir, mas não sussurrar aos nossos ouvidos.
O que não percebemos é que o que parece uma simples conveniência, na verdade é um desperdício absurdo. Se quem rasga dinheiro é louco, podemos ser chamados de loucos quando, tendo o Criador de todas as coisas e Deus Todo-Poderoso se dispondo a ser nosso amigo, nos ouvindo e estendendo suas mãos para estar ao nosso lado, preferimos a pobreza da vida pseudo-espiritualizada de quem apenas fala para Deus, mas jamais com Ele. E se esta noite Ele pedisse nossa alma?
Fica fácil compreender, com isso, quando Jesus diz que muitos agirão em seu nome mas não serão conhecidos por Ele. São aqueles que a despeito de repetirem a palavra Jesus Cristo incessantemente, não colocam a pessoa Jesus Cristo em suas vidas cotidianas. Estão sacrificando a um deus distante, adorando uma entidade, invocando uma divindade que parece menor.
Quando eu for recebido pessoalmente por Cristo, desejo que Ele me reconheça, não apenas como um bom religioso, mas como alguém que viveu ao seu lado. Quero perceber em seu olhar a confirmação de estar recebendo uma pessoa já íntima, da qual possui diversos segredos e confissões. Espero me deparar com aquele olhar de confirmação, próprio dos amigos que se conhecem há tempos e já não precisam das palavras para se expressar.
Para isso, não posso esperar mais. Preciso começar, desde já, a ter Deus em minha vida intimamente. Devo perder o medo de me confessar, de me expor. Devo, também, estar pronto para ouvir e obedecer. Devo ser amigo de Deus, numa amizade eterna que ninguém pode quebrar.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Exatamente como somos

Em um mundo no qual as máscaras são nossas companheiras, verdadeiras fortalezas que permitem a nossa sobrevivência, quem pode renegar, ainda que sejam apenas alguns instantes, a chance de experimentar momentos de limpidez, de sinceridade e transparência?

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Silêncio

O homem possui um desejo imenso de se fazer compreender, porém, se fosse apenas isso, nenhum mal causaria, então. No entanto, mas do que compreensão, ele exige aceitação e, daí, começam os problemas. Querer ser ouvido é um direito, querer ser acatado não passa de um desejo.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Fome de Verdade

(pregação do dia 21 de janeiro de 2009)



Aos covardes não falta apenas o comprometimento com Deus, mas há uma falta evidente de fidelidade consigo mesmo. Se a fidelidade é fruto do Espírito, então não é apenas um ato exterior, mas algo que passa a fazer parte da personalidade do cristão. E se faz parte da personalidade, então envolve todos os aspectos da vida. Se é assim, portanto, o cristão fiel o é não apenas em relação a Deus, mas em relação ao outro e em relação a si mesmo. Aliás, seria impossível ser fiel a alguém se antes não fosse fiel a si mesmo.

Clamo para não me encontrar infiel, traindo minha consciência e tudo o que acredito. Quero poder olhar no espelho e me reconhecer. Saber que o que falo é o que penso e o que penso é o que digo acreditar.

Para isso, preciso de um inegociável compromisso com a verdade. Ainda que tantos prefiram a ilusão, o aplauso fácil, as lisonjas superficiais, devo escapar da zona de conforto da ilusão e mergulhar na incerteza da verdade. Até quando buscareis a mentira? (Sl 4.2).

Incerteza da verdade? Que paradoxo tão estranho! Mas é isso! A ilusão nos conforta, nos abraça e finge nos assegurar o que desejamos. A verdade, ainda que seja o fim último de tudo, nos é insegurança pois nela nos abandonamos a nós mesmos e nos deixamos levar por suas ondas.

Não sirvo a Deus por escolha, mas, unicamente, por Ele ser a verdade. Se fosse uma preferência seria apenas mais uma. Mas não, Deus não me deixou escolha. Não o escolhi, me rendi a Ele. Se sou cristão, não sou pelos privilégios (que nesta vida nem são muitos), mas simplesmente por causa da verdade contida no cristianismo. Há outra opção? Não, não há. Mas apenas para os que tem fome de verdade. Ainda que minha natureza clame por se afastar, o espírito e a razão são mais fortes. Aquele me faz sentir e intuir a verdade, este me convence da mentira.

Ouço, por todos os lados, que a Bíblia é um livro maravilhoso, belo e reconfortante. Não discordo, mas, para ser sincero, ela sempre foi, para mim, um livro terrível. Nela descobri que sou pecador e rebelde, que no mundo teria aflições e que o salário do pecado é a morte. Mas ela fala da verdade, e ainda que sejam tremendamente impactantes suas palavras, nela me fio.

Esta fome de verdade, então, me conduz a Deus e me faz buscá-lo com toda a minha força. Quando Deus diz: Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes com todo o vosso coração (Jr 29.13), nos instiga a querê-lo não apenas com o esforço exterior e ascético do corpo, mas com uma ginástica descomunal da alma que, ainda que enfrente as contradições e antinomias de um mundo estranho, se joga com todo empenho nos braços da verdade.

Ser cristão não é um escolha, repito. Pois as escolhas podem mudar. Ser cristão é uma mudança na alma, no ser. Aquele que está em Cristo é nova criatura (2ª Co 5.17). Um novo homem que nasce não apenas de um ato único e milagroso de Deus (apesar do conteúdo de milagre que existe nisso), mas que se transforma a ponto de ser outro, que agora vê a existência de uma outra perspectiva, mais real, mais ampla e mais correta.

Se queremos encontrar a verdade, imperioso é que passemos por quatro fases, essenciais nesta caminhada:

Em primeiro lugar, antes de a buscarmos, deve haver uma necessidade imperiosa de razão para a existência. Sem isso não podemos ver a Deus, já que Ele não preenche um coração que se acha abastecido e que de nada tem falta. Na verdade, um coração assim não sabe que é um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu. Em um coração cheio não há espaço para Cristo.

Depois, deve haver um desejo impressionante de verdade. E isso significa aceitá-la como ela é, ainda que não seja exatamente o que esperamos. Aceitar a verdade é como um filho horrível que não abrimos mão, ainda que nos ofereçam outras crianças infinitamente mais belas. Nenhuma mãe, em são consciência, escolheria outra criança que não o seu próprio filho, ainda que ele fosse a mais feia das crianças. Isso é fome de verdade, pois o filho é a verdade de uma mãe e é tudo o que ela quer.

Em terceiro lugar de ve haver uma aceitação absoluta das conseqüências. Se render à verdade é se render também a tudo o que ela traz consigo. Por isso, uma conversão não é apenas um ato exterior de mudança de práticas, mas um caminho sem volta.

Por fim, deve haver um compromisso inquebrável com a consciência. Se não foi apenas uma escolha, mas uma verdadeira alteração no ser, esta mudança deve acarretar uma aliança tal de si para consigo que nada pode quebrá-la: nem a morte, nem a vida, nem os anjos,nem potestades. O corpo até pode ser dilacerado, mas a alma, esta jamais é destruída.

A verdade existe, e ela é Deus. Porém, apenas a contemplam aqueles que a desejam com todo o coração, com toda alma e com toda a força.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

O Sustentador

Olha as aves do céu. Quem as sustenta? Olha as flores do campo. Quem as alimenta?[1] Por acaso elas perdem noites de sono preocupadas com o que há de acontecer amanhã? Há quem não pertence o poder de controlar as coisas, não faz sentido sofrer por elas. Acumula toda a sabedoria do mundo, junta toda a riqueza, ainda assim não poderás definir o dia que Deus pedirá tua alma[2].