sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Jó - Introdução II

Não há nada mais humano do que o sofrimento. Nele reconhecemos quem exatamente somos: nossa pequenez, nossa fragilidade, nossos medos e nossas razões de existência. De alguma forma, o livro de Jó nos remete a tudo isso e, apesar de não ser o nosso sofrimento, não sei se pela perfeição literária ou pela profundidade do tema, ele consegue fazer com que nos envolvamos realmente em sua história.

Há, ainda, um choque mais profundo. O conteúdo existencial da obra é altamente contrastante com a nossa moderna experiência religiosa. Em uma época na qual buscamos respostas prontas, na qual a religião é vista quase somente como o elixir pacificador da alma humana, na qual o místico é simplesmente a experiência do desconhecido e o próprio cristianismo deixa de ser um corpo mais ou menos estruturado de doutrinas, toda a sequência do livro parece destoar da harmonia segura da música religiosa moderna.

Quem enxerga a religião como um corpo ritualístico que responde até as mais comezinhas indagações, sente um desconforto abissal ao ler o livro de Jó. Praticamente toda a narrativa parece induzir à negação da fé. Pelo menos, conduzir ao cinismo da ausência da autonomia humana, sob o jogo das forças superiores do universo; sob o jugo inexorável da vontade de Deus.

O real contraste se dá porque o cristão moderno espera que sua fé o previna do imponderável. Se antes, o fiel, ainda pecador, se sentia à deriva em um mundo que o conduzia para o abismo, em Cristo ele crê, sinceramente, que todas as coisas estão resolvidas e que, sendo já um vencedor, nada mais poderia o abalar. Sua segurança não é apenas da salvação, mas de toda uma teia de proteção providenciada por Deus a fim de não permitir que os males desta vida o atinjam.

Ao ler o livro, no entanto, todos os fantasmas surgem de uma vez. Ora, se aquilo tudo está escrito na Bíblia, será que eu posso sofrer das mesmas mazelas que o personagem principal? Neste momento, o leitor tem duas opções: crê que tudo aquilo não se aplica a ninguém mais, e sim apenas a Jó, ou perde definitivamente toda a segurança. No entanto, é aí que se inicia a grande viagem na experiência do personagem.

Continua...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Jó - Introdução I

Nós, leitores, ao passearmos pelas linhas do livro de Jó, somos abarcados por uma insegurança indescritível. E quanto mais compenetrada for nossa leitura, maior será este sentimento. Há, sim, um maremoto de emoções que deixam estupefatos aqueles que se atrevem a mergulhar no mar de dúvidas e falsas certezas que compõem boa parte dessa obra. E diante disso não há como evitarmos os questionamentos sobre as razões do sofrimento, principalmente de alguém tão bom como o personagem central.

Não creio, sinceramente, que esta seja a experiência do leitor moderno apenas. Acredito que desde a primeira pessoa que leu aquelas linhas houve, em geral, a erupção dos mesmos sentimentos. Aliás, podemos ir além, e dizer que na própria história já há, entre seus personagens humanos, um amálgama de inseguranças e certezas que simplesmente espirram na alma do leitor, como em uma projeção do livro para o coração do homem.

Porém, se engana quem acredita que a emoção da obra está na profundidade da narrativa, na beleza poética ou na trágica história do personagem principal. Nada disso! Aquele livro nos toca profundamente simplesmente porque amamos nossas próprias vidas. Nele, vemos a nós mesmos ou, ao menos, a possibilidade trágica que nos rodeia. O sofrimento de Jó nos toca porque, de alguma maneira, sentimos nossa própria vulnerabilidade diante do imponderável. Independente de procurarmos algum sentido naquilo tudo, ainda que houvesse algum, seria algo que estaria além de nosso poder de intromissão, o que nos deixa, de qualquer jeito, sujeitos a forças inexoráveis. Quem chora por Jó, chora menos por ele e mais por si mesmo.

De qualquer maneira, estamos diante de uma riqueza literária estupenda. Porém, mais que isso, há um tesouro existencial, psicológico e espiritual impressionante em suas páginas. A complexidade mental dos diálogos, o caminho misterioso dos motivos do sofrimento do personagem, além do desfecho deslumbrante e poético, tornam a obra magnificamente impactante.

Apesar de parecer paradoxal, seu material é altamente perturbador, ao mesmo tempo que é reconfortante. Ele consegue nos deixar desconfortáveis todo o tempo, em nosso acompanhamento do desenrolar dos fatos e argumentos sem conseguirmos tomar parte decisiva de nenhum deles. Todas as falas parecem corretas, mas inconstantes; lógicas, mas incompletas; justas, mas insuficientes. Vacilamos durante quase toda a leitura e nossa respiração parece até ficar suspensa por alguns momentos. No entanto, o paradoxal conforto acontece não apenas no desfecho da história, com uma das declarações mais belas de toda a Bíblia, mas existe no desenvolvimento de todo o enredo mesmo. Isso porque a saga de Jó nos torna mais humanos, nos faz ver um pouco do que somos e de nossa vida. Apesar do sofrimento, e até por causa dele, sentimos a dor do personagem e suas dúvidas se tornam também as nossas; seus desabafos parecem até sair de nossa boca.

Continua...

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Há duas coisas que não possuem limites: a maldade e a ignorância.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Para quem não sabe, a foto no canto de meu blog é do filósofo Olavo de Carvalho, hoje, também, com muito orgulho, meu professor. E por que essa homenagem? Simplesmente porque é necessário que minha consciência esteja limpa em relação às idéias que exponho neste espaço. 

Conheci o professor em meados de 1998, quando adquiri, por mera curiosidade acerca do título, o livro "O Imbecil Coletivo". Naquela época, eu, que já era um leitor voraz, porém conduzido pela maré cultural vigente, progressista e modernista, propagandeava as idéias básicas da comunidade esquerdista. Mesmo sem jamais ter sido um eleitor de partidos tipicamente de esquerda, repetia os mesmos chavões vociferados por eles e, principalmente, pelos seus asseclas da intelligentzia. Me sentia assim um jovem de vanguarda, sem preconceitos, um cristão liberal, solto das amarras da tradição. Estava bem acompanhado de pastores e líderes religiosos também modernos, que não se viam como parte do grupo reacionário e dogmático, como eles se referiam.

Voltando ao livro do professor Olavo, quando comecei a lê-lo, tomei o primeiro susto ao ver o encarte que acompanhava a obra. Um questionário engraçadíssimo sobre como o leitor poderia interpretar aquele trabalho. Nunca tinha visto ninguém se referir a si mesmo como um "mistifório reacionário", por exemplo, já dando para os seus críticos o arsenal pronto para bombardeá-lo. Aquilo, para mim, além de absolutamente original me fez ficar muito curioso quanto ao conteúdo que vinha adiante.

Lendo a obra, não sei descrever bem minha impressão e reação. Na verdade, era uma mistura de estranheza, incompreensão, susto e atração. Mesmo sem compreender como alguns "ídolos"poderiam ser destruídos daquele jeito por um, ao menos para mim, desconhecido, não conseguia parar de ler e ser absorvido pela maneira absolutamente coerente e irretrucável como o autor expunha seu pensamento.

Ao fim da leitura, tive a certeza que eu não era mais o mesmo. Caíram os totens, ruíram as imagens de barro que estavam tão orgulhosamente postas em minha estante mental. Mesmo sem ter me tornado automaticamente o conservador retrógrado que sou hoje, o caminho já estava traçado. Naquele momento, a estrada certa que eu seguia foi tomada por uma nuvem e suspendi minhas certezas políticas e filosóficas, revendo meus conceitos. Claro que isso durou algum tempo, afinal havia toda uma gama de novos autores, novas idéias que precisavam ser consultadas e analisadas para que eu pudesse fazer uma honesta comparação.

E as comparações foram devidamente feitas. Lendo autores conservadores pude compreender o quão estava equivocada a visão progressista e como os ideais utópicos da esquerda eram falsos e maléficos. Mais ainda, dei-me conta do quanto fui enganado, usurpado em minha consciência, roubado em minha possibilidade de aprender as coisas como elas devidamente são. Percebi que durante toda a minha vida fui um receptáculo passivo de todo o lixo gramsciano, preenchido até a boca de palavras vazias que tinham o intuito único de agradar, mas não de demonstrar o que é real.

Voltando ao professor Olavo, minha homenagem é mais do que um agradecimento, é um reconhecimento de que ele foi a pessoa que me indicou, e até hoje me indica, o caminho das pedras para a compreensão de todo um cenário político e filosófico que se encerra diante de nós. E não tenho o mínimo receio de ser tachado como seu discípulo, ou como alguns pejorativamente chamam, de "olavete". Isso é besteira. Todos precisam de mestres, de pessoas que sejam seus conselheiros intelectuais, que ensinem o que eles mesmos aprenderam e, de alguma maneira, encurtem o caminho que seus alunos devam trilhar. Como o próprio Olavo, que não deixa dúvidas de que ele mesmo teve seus mestres, não me envergonho em nada em dizer que ele é o meu professor e dele absorvo o que há de mais profundo em matérias políticas e filosóficas.

Um dos motivos que me fez expor tudo isso é ver como tantos outras pessoas que passaram pelo ensinamentos do mestre, que absorveram dele quase tudo o que hoje proclamam aos quatro cantos, simplesmente agem como se tudo o que tivessem adquirido de conhecimento fosse fruto de suas próprias pesquisas e estudo. Uns têm a petulância ainda de dizer que o Olavo deu sua contribuição, mas já está superado; outros, talvez por um resquício de consciência, de vez em quando fazem uma citação quase que envergonhada de algo que o professor disse; e há outros, ainda, que simplesmente repetem aquilo que primeiramente foi dito por Olavo de Carvalho omitindo completamente a fonte. O caso da ligação do PT com as FARC tem sido assim: articulistas, como o Reinaldo Azevedo, por exemplo, falam do Foro de São Paulo se referindo a ele como algo de notório conhecimento público, omitindo que, por muito tempo, Olavo de Carvalho fora uma voz quase isolada de denúncia daquele grupo.

Por essas e outras que achei devido colocar em meu próprio blog a indicação de que, tendo consciência de que o que tenho aprendido com Olavo de Carvalho é algo que durará por toda a minha vida, minha dívida filósofica com ele é perpétua. Perpétua porque após a morte não sei o que carregaremos daqui e o que nos será acrescentado. No entanto, nesta vida, minha dívida permanece.

Talvez alguns estejam enxergando nesse meu depoimento algum tipo de idolatria. Erram completamente os que entenderem assim. Minha admiração por Olavo não é pessoal, é intelectual - até porque não o conheço pessoalmente. Minha dívida é a gratidão por saber que sem a sua orientação ainda estaria repetindo os mesmos chavões dos senhores da academia. 

Se existe alguma coisa que falta neste mundo novo é isto: a gratidão. Não quero cair neste erro.

sábado, 24 de julho de 2010

A dominação pela educação sexual (ONU e UNESCO)

Os governos mais autoritários foram também aqueles que mais atraíram a juventude. O nazismo e  o comunismo sempre foram ideologias de jovens, os quais eram bajulados pelo governo, a fim de sentirem-se poderosos como parte das suas metas genocidas. Aproveitando-se da revolta latente, fruto do choque de gerações, esses governos sempre tiveram na juventude sua massa de manobra, obtendo dela a força e vitalidade que talvez faltasse aos líderes já um tanto mais velhos.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Uma coisinha insignificante chamada 'verdade'

Quando há alguns dias eu, em uma mensagem na igreja, disse que tinha a convicção de que nem todas as pessoas ali eram salvas, percebi que a comoção com o que havia dito fora além do que era esperado. Na verdade, algumas pessoas ficaram um tanto indignadas, acreditando que minhas palavras não foram bem colocadas. Percebi que houve um certo desconforto em algumas pessoas, o que fez com que não aceitassem bem o que eu falei.

O principal argumento que ouvi, tentando contrariar minhas palavras, foi, não que eu estivesse errado, mas que, talvez, o que eu dissera não tenha sido bem colocado, não tenha sido a maneira correta de dizer aquilo. Sem ter encontrado um argumento sequer contra o que falei, as contestações todas se basearam apenas na impressão das minhas palavras, não em seu conteúdo.

Ora, não houve contestação porque é evidente que nem todos, dos que se dizem fazer parte da Igreja universal de Cristo, são salvos e, por uma mera questão estatística, assim é também em qualquer igreja local. Se nem todos são salvos na Igreja universal porque todos seriam em uma igreja local? Uma igreja local que se arrogar no direito de acreditar que todos os seus membros são salvos está agindo com grande petulância, querendo ser mais pura do que a Igreja universal de Cristo.

Mas o problema não é esse, pois ali reside apenas uma questão de compreensão lógica das coisas. O que surpreende é a reação instintiva a algumas palavras desagradáveis, com a conseqüente condenação do interlocutor pelo pecado de dizer a verdade, porém verdadeira demais para ouvidos tão sensíveis. As pessoas preferem ouvir coisas que massageiem suas convicções e frases que fortaleçam suas idéias. Ignorando completamente a realidade, trocam o desconforto que salva, pela condenação que promete o conforto.

Isso ocorre porque somos treinados, desde muito jovens, a não descrevermos as coisas como elas são verdadeiramente. Desde que iniciamos nossa carreira social, aprendemos a fingir concordância, a dar sorrisos insinceros, a calar a boca mesmo diante do erro alheio. Um pouco mais crescidos, somos convocados a sermos bajuladores, puxa-sacos, fingidos e cínicos. Assim, nos graduamos em viver de impressão, a falar o que agrada, a desprezar a realidade em favor de palavras que angariem aplausos. Nos tornamos, portanto, adultos incapazes de sinceridade, cegos para a realidade e impossibilitados de descrever uma simples apreensão.

O que nos tornamos, na verdade, é em crianças grandes e mimadas, loucos por atenção e aprovação, dispostos a tudo, inclusive sufocar toda e qualquer realidade, pelo prazer de nos sentir amados. A verdade? Esta é dispensável, pois vale mais o sentimento! Por que me indispor e ser mal visto? Só por causa de uma coisinha insignificante chamada 'verdade? Assim pensa a maioria...



terça-feira, 20 de julho de 2010

O bastião contra os senhores deste mundo

Importa decidir se preferimos saber a verdade e com o seu conhecimento alcançar a liberdade ou alimentar-se das mesmas convicções e informações já possuídas, com o fim apenas de acariciar o conforto de certeza e segurança. Se a verdade liberta, mas a porta para a salvação é estreita, parece claro que poucos são os que se abrem para o conhecimento do real, estando a multidão embevecida no êxtase da mentira que diverte e dá prazer.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O Olhar Elevado

A satisfação da necessidade por sexo, comida, bebida, sono e lazer é o que há de comum em praticamente todos os animais. São necessidades triviais para as quais eles vivem toda a sua vida. A glória, ou a busca por reconhecimento pessoal, já é algo comum a Satanás, o pai da soberba e do orgulho. Toda sua existência é direcionada para o recebimento do louvor que não lhe cabe.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A lembrança da dor

Sabe aquele momento quando chega uma notícia que parece fazer nosso mundo cair? Aquele instante quando as nuvens se fecham, o peito aperta e a única vontade que se tem é a de chorar? Sabe quando há a sensação de ser a pessoa mais impotente do mundo, incapaz de mover um milímetro sequer da vida, e tem a impressão de ser uma mera vítima de um destino insensível? Sabe quando a única reação que resta é sentar na beira da cama e olhar para o nada, digerindo a incapacidade de transformar as coisas que estão ao redor? Por incrível que pareça, esse momento talvez seja a maior bênção que podemos ter, algo que pode ser  uma boa companhia até o fim da nossa existência.

Há um segredo que pode nos tornar mais humildes, mais compreensíveis, menos apegados às recompensas deste mundo e mais livres para desfrutar da verdade em sua totalidade. Este mesmo segredo permite nos sentirmos mais dependentes de Deus, menos afeiçoados de nós mesmos, mais atentos ao problema do próximo, mais sensíveis ao verdadeiro sentido da vida. 

Bem, o segredo nem é tão secreto assim, porém qual de nós costuma praticá-lo? O segredo é, nos dias que tudo parecer bem, quando o mundo parecer conspirar em nosso favor, quando nos sentirmos a pessoa mais bem-sucedida, mais admirada e mais amada do mundo, nos lembrarmos do sentimento próprio daqueles dias maus, cultivando, de alguma forma, aquele aperto no peito, aquele vazio no coração e aquele medo proveniente da impotência.

Longe de pregar uma teologia da derrota, o que estou tentando dizer é que apenas os momentos difíceis nos fazem enxergar nossa alma pura, nosso coração aberto, nosso interior realmente desarmado. Apenas a dor faz-nos conhecermos a nós mesmos. Somente ela nos faz experimentar uma existência mais completa, paradoxo da vida. Esvaziar-se de si mesmo talvez seja a única forma de vivenciar o que a vida oferece de verdade. 

Em síntese, na nossa memória reside o segredo para vivermos melhor e mais profundamente, conhecendo mais de nós mesmos, principalmente o quanto limitados nós somos.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Réplica em defesa (desnecessária) de Norma Braga

A revista Ultimato publicou, recentemente, um artigo de Norma Braga, no qual ela expõe razões devidamente explicadas para um cristão não ser um militante de esquerda. O texto é simples, direto e objetivo, lançando mão de argumentos racionais, fundamentados em verdades históricas, para demonstrar a incompatibilidade entre o cristianismo e as idéias de esquerda.

Na mesma revista, fora publicado, então, um outro artigo, em forma de contestação, no qual Joanildo Burity explica porque ser de esquerda seria compatível com ser cristão. Neste artigo, diferente de Norma, ele não se atém apenas aos pontos práticos do problema, mas invade o âmbito pessoal da articulista. Leiam ambos os artigos e percebam a diferença de enfoque. Enquanto ela sé mantém estritamente no âmbito da análise ideológica e política da esquerda em geral, Joanildo atravessa a linha dessa argumentação e tenta analisar a própria pessoa da Norma.

Bom, até aqui, nenhuma novidade, afinal essa sempre foi a estratégia dos debatedores de esquerda, estratégia que permanece, seja por convicção seja por puro cacoete ideológico. Por isso, não porque acho necessário, afinal a própria Norma deve responder àquele artigo da sua maneira irrepreensível de sempre, quero muito expor algumas considerações que entendo importantes e que, creio, ajudarão a clarear, um pouco, uma suposta confusão de idéias que possa aparecer na mente de leitores menos atentos.

O texto de Burity inicia descrevendo o que seria o que ele chama de teologias da desigualdade natural, segundo as quais as pessoas estariam presas, por destino indelével, a uma casta social, econômica ou política. Por essas teologias, as pessoas são, conforme o próprio nome afirma, desiguais por natureza e nada podem fazer para mudar isso.  

O problema é que o articulista inventa uma teologia que não existe, e pior, além de criar uma teoria, ainda diz que foram os outros que a inventaram. São duas mentiras em uma só idéia - um erro verdadeiramente frutífero.

Não há, na história do pensamento cristão, qualquer corrente teológica de expressão significativa que defenda essa tal de teologia da desigualdade natural, nos termos trazidos por Burity. O que ele afirma parece mais um sistema de castas hindu, e ainda assim somos obrigados a informar que mesmo no hinduísmo o que se vê de mais radical na idéía de castas não é uma doutrina muito fiel à original. No cristianismo, porém, não há nada de parecido. Mesmo a predestinação agostiniana ou calvinista não se atrevem a cerrar os homens em celas econômicas ou sociais. Do que estaria falando, então, o senhor Joanildo?

Feito aquele preâmbulo, demarcada, ainda que falsamente, a categoria teológica da contestada, o próprio articulista preparou o terreno fértil que fará ele tirar suas conclusões pretensamente lógicas. É óbvio que a lógica é apenas formal, pois não condizente em nada com a realidade, mas, apenas, com as categorias formatadas pelo próprio Burity.

Em uma seqüência desastrada, seu artigo passa a defender a profunda igualdade natural dos homens, afirmando que toda desigualdade é fruto apenas do resultado histórico, da ação das instituições e da, pasmem, ação humana. O que ele não explica é por que, se todos os homens são naturalmente iguais, houve, no processo histórico, a implantação de tantas diferenças? Se todos são absolutamente iguais, o são na bondade, na maldade, no trabalho, no amor. Se houve, no decorrer dos tempos, tantas diferenças, em algum momento elas ocorreram por causa, evidentemente, da desigualdade. Concluo, portanto, que, apesar de serem todos naturalmente iguais, os homens agiram de maneira muito desigual, evidenciando que, na verdade, são desiguais, apesar de serem iguais. Apenas a lógica burityana poderia chegar a essa conclusão.

A desigualdade humana não é uma teoria, menos uma teologia, é um fato. As pessoas são diferentes e ponto. Não é necessário ter mais de 2 anos de idade para perceber isso. Quanto à hierarquia, ela existe, não por natureza, mas por conveniência. Porém, ela, além de ser necessária, é, no mínimo, reconhecida pela Bíblia. No entanto, em seu texto, a Norma jamais defendeu qualquer hierarquia natural e imóvel, aliás sequer tocou no assunto. Nem sobre igualdade e desigualdade ela escreveu. O que fez Joanildo, então? Impôs sobre ela uma marca e sobre essa marca ele fez a sua contestação. Parece que sequer leu o texto, porém, rebateu, não o que ela escreveu, mas o que ele acredita que ela representa.

Há uma altivez nos homens de esquerda: crêem que apenas eles lutam por justiça. São tão entorpecidos por sua ideologia, que não vêem salvação fora de Marx, Gramsci e do PC. Para eles, não ser de esquerda é não querer o bem, e só o socialismo pode efetivamente criar igualdade. Determinam que, a despeito de toda evidência histórica, quem denuncia as atrocidades cometidas pela esquerda no mundo está, na verdade, querendo perpetuar a exploração e a injustiça. Acontece que esses são estereótipos úteis para suas finalidades, uma delas, ter o socialismo como o único meio de salvação para a humanidade. A conclusão lógica do texto de Burity é que Norma se encaixa nesse perfil elitista, que se delicia da desigualdade humana e a promove até. E vai além, perdendo até um pouco de seu cavalheirismo diante de uma dama - algo absolutamente normal, afinal, para agir assim é necessário que se enxergue alguma diferença no sexo oposto, o que é uma afronta à teoria da igualdade natural - insinuando que a articulista apenas fala, mas não faz nada. Acredito que ele, como eu, não conheça nada da vida privada da Norma para fazer essa afirmação tão categórica, mas, só para comparar, o que seu ídolo Marx fez, senão apenas tecer teorias? E o sr. Joanildo, faz o quê? De qualquer forma, esse culto da ação como a única forma de combate a injustiça é tão besta que só pessoas infantilizadas por uma doutrina estúpida podem se deixar levar por ele.

A cereja do bolo, porém, está na citação que o senhor Joanildo faz de Marx, Engels e Gramsci, como conscientes das raízes religiosas do socialismo. Não, senhor Joanildo, os homens que o senhor citou não tinham consciência dessas raízes, a não ser que o senhor entenda como religião as idéias utópicas de Morus, Campanella e Fourier. Tê-las assim seria um rebaixamento vil do conceito de religião. Pelo contrário, aqueles homens viam a religião, e em especial o cristianismo, como um inimigo de suas ideologias e acreditavam (em Gramsci isso está explícito), que ele deveria ser extinto, pois, por incrível que pareça, era, esse mesmo cristianismo, uma das barreiras ao implemento do socialismo.

Insistir na defesa do socialismo de mãos dadas com o cristianismo é rejeitar a história, forçando uma comunhão que apenas pode existir na cabeça oca de certos cristãos vermelhos, não de vergonha, mas ideologicamente. Pessoas que acreditam numa teoria socialista eu até aguento, mas quando fingem que na prática essas teorias não causaram nenhum mal à humanidade e, pior, como faz o senhor Burity, ainda exaltam seus ícones, reprovar o que falam é pouco. Mandar calar a boca e exigir respeito à nossa fé cristã seria o mínimo.  

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O que é o amor cristão

O amor cristão é indefinível. As palavras flutuam no pensamento de quem tenta descrevê-lo, porém não descem à boca. É tentar falar o que sabemos, mas não podemos expressar. Não sei se isso se dá pela indefinição intrínseca do amor, ou por ser ele, na verdade, um conglomerado de outros sentimentos e virtudes, não possuindo, assim, uma característica específica. Mas uma coisa me parece certa: quando se fala de amor bíblico, invariavelmente essa noção vem carregada da idéia de sinceridade e entrega. Ora, não existe amor onde ambas estão ausentes, já que a sinceridade é o fundamento da realidade e suporta toda e qualquer ação virtuosa e a entrega é o que dá valor ao ato, pois onde não está o coração e onde não está alma há apenas o vácuo existencial. Nada vale à pena se não for totalmente doado, sem reservas, sem restrições. Leia 1 Coríntios 13 com esse entendimento e experimente uma noção real do verdadeiro amor cristão. Essa compreensão parece explicar a entrega do próprio senhor Jesus, o ato do bom samaritano, os dois primeiros mandamentos e mesmo o próprio amor divino. Amar, enfim, com a astúcia talvez imprudente de tentar definir o ato, é doar-se completa e sinceramente.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Fascismo de esquerda

É histórica a identidade da plataforma política da esquerda com a plataforma fascista. Apesar de os esquerdistas adorarem acusar a direita de fascista, as semelhanças entre as idéias socialistas e nazistas são impressionantes. Porém, tais semelhanças não são obra do acaso. O que ocorre que é uma identidade ideológica mesmo, havendo, talvez, uma pequena diferença metodológica. A esquerda mundial teve momentos de affair com os movimentos fascistas e momentos de ódio também. Porém, isso não apaga o que há de semelhante entre eles. Com base nas idéias propagadas por ícones da esquerda norte-americana, o articulista Jonah Goldberg escreveu um ótimo livro chamado "Liberal Fascism", traduzido, para melhor entendimento no Brasil, de "Fascismo de Esquerda". O livro é recheado de exemplos de idéias e atitudes dos liberals americanos que coincidem plenamente com os ideais e ações do fascismo alemão e italiano de Hitler e Mussolini. O livro é imperdível e, apesar de tratar-se especificamente de personagens da política americana, ajuda a entender muito bem as fontes dos nossos políticos esquerdistas tupiniquins.

terça-feira, 27 de abril de 2010

A frágil convicção de Marina Silva

Político é político, independente da cor partidária e até das convicções religiosas que dizem ter. A senhora Marina Silva, provável candidata à Presidência da República, e conhecida por sua defesa do meio ambiente, além de seu cristianismo confesso, não foge à regra. Perguntada, em um programa de televisão, se era contra ou à favor do aborto, sua resposta foi intrigante. Textualmente ela disse: "Pessoalmente sou contra o aborto, mas acho que deveria haver um plebiscito sobre isso". Impressionante! Então, a lógica é est:a: já que ela é contra o aborto e o aborto é proibido, porque não dar uma chance para que ele venha ser permitido? Ou seja, mesmo contra suas frágeis convicções, o que importa é ficar bem na fita. 

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Conhecimento e eternidade

Todo o conhecimento é baseado na eternidade, afinal, ele necessita de algo imutável para fincar seus alicerces. Sendo assim, podemos dizer que todo conhecimento depende de Deus, já que ele é o único eterno e perene. A ciência que ignora a eternidade é apenas um pseudo-conhecimento, pois ignora o que deveria ser seu fundamento.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Satisfação posterior

Todos os filósofos concordam que o homem busca a felicidade. Inclusive os pensadores cristãos não negam essa verdade. Porém, como conciliar isso com a idéia de não seguir os próprios desejos, mas a vontade divina? Bom, para mim essa conciliação se encontra na idéia de felicidade final ou satisfação posterior. Explico: é como o prazer de fazer uma dieta saudável - o resultado traz a satisfação, porém o caminho é árduo. Assim é com os esportistas, artistas e trabalhadores em geral. Dificilmente o prazer está no ato, mas, sim, quase sempre, nos resultados. No cristianismo não é diferente: árdua luta no caminho, pedras e tropeços, lágrimas e lamentos - tudo para o riso final.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

No limiar da fé

Muitas pessoas se questionam por que Deus não deixou as coisas mais claras em relação à sua Revelação e fatos históricos, a fim de tornar mais fácil a aceitação da Verdade. Minha percepção, no entanto, é que Deus age no limiar da possibilidade, ou seja, nem tão claro que dispense a fé, nem tão oculto que a não permita. E parece que essa tem sido a perfeição dos tempos.


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sábado, 10 de abril de 2010

A volta de quem não foi

Amigos leitores:

Após um longo e tenebroso inverno, voltei a postar em meu blog. No entanto, decidi escrever posts curtos, a fim de permitir que vocês tenham acesso às minhas idéias de maneira rápida. Por causa disso, não enviarei mais os textos por e-mail, mas, periodicamente, mandarei um lembrete com os títulos postados. Também abrirei o espaço do blog para comentários. Portanto, aproveitem.

Fiquem com Deus.

Fabio Blanco

Enviado de meu iPod


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Tentando compreender o amor bíblico

O amor bíblico sempre foi um mistério pra mim. Nunca consegui inseri-lo na idéia de amor como um sentimento bom em relação a alguém ou alguma coisa. Tenho, sim, tido a tendência de compreendê-lo como mais próximo da sinceridade do que da compaixão. Façam o teste: todos os textos do Novo Testamento que falam de amor substituam por sinceridade (fazer alguma coisa ou sentir alguma coisa real e honestamente).


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Não espere reconhecimento

Você quer se sentir livre? Então pare de esperar qualquer reconhecimento das pessoas. Se você não é mais um adolescente, então isso é uma obrigação. Faça as coisas por amor e se preocupe apenas em saber que você está dando o melhor. Não esperar o reconhecimento humano é a chave que desata os grilhões da infelicidade.

Lado Cego

Gostaria de saber quem traduz os nomes dos filmes aqui para o Brasil. Outro dia fui assistir "Um Sonho Possível" no cinema e fiquei indignado de não aproveitarem o nome original - "Blind Side", que além de ser muito mais interessante, diferente do título breguíssimo em português, explica muito da estória do filme.

Lado Cego II

Esse filme foi uma grata surpresa, pois o comentário que havia ouvido do Rubens Ewald Filho era de que se tratava de um besteirol religioso. No entanto, além de ter um ritmo bem gostoso, o filme retrata uma bela história real. Vale à pena assistir.

Lado Cego III - O Preconceito

Impressionante como tudo o que é favorável ao cristianismo incomoda as pessoas. O filme, apesar de retratar a vida de uma família cristã, apenas resvala na questão religiosa, não sendo esse, absolutamente, o mote principal do filme. Ainda assim, já é suficiente para alguns críticos o classificarem como um besteirol religioso. Tenho certeza que se o enredo retratasse a história de um casal homossexual que acolheu um garoto negro seria feito um alarde estrondoso em favor do filme. Porém, como se trata de um casal cristão, as coisas são vistas de maneiras bem diferentes.


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sábado, 26 de dezembro de 2009

Resgatando nossos valores

pregação de Natal
dia 20 de dezembro de 2009

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O Natal é uma festa de crianças

(comemoração de Natal na igreja Fonte da Vida)


O Natal é uma festa de crianças! Vocês já repararam que são as crianças que mais se empolgam com ela? As luzes, o clima, tudo o que envolve o Natal tem um impacto muito maior nelas do que em nós, homens e mulheres maduros. Realmente, o Natal é uma festa de crianças.

Nós, corações amargurados, lamentamos o Natal, dizendo que não tem mais o encanto de antes, de quando éramos crianças. Mas, será que, realmente, o Natal mudou ou nós que não somos mais crianças? Será que não se apartou de nós aquela pureza própria da inocência que transformava tudo em mais belo e mais feliz? Nós, que hoje somos tão maduros, tão independentes e tão realistas, será que não fechamos as portas para a beleza da vida?

Não há criança que não goste do Natal. Afinal, o Natal é uma festa de crianças. Inclusive os presentes, tão criticados pelos embrutecidos pelo amargor da luta, encantam muito mais às crianças do que a nós. Veja: a esperança, o anseio da surpresa, tudo nisso desperta o imaginário infantil, de tal forma que é impossível uma criança não gostar do Natal.

Em nossas memórias natalinas estão ainda aquelas reuniões familiares, as quais, para nós, tinham o encanto da unidade e da alegria do encontro. Hoje, se pudéssemos, fugiríamos delas, afinal, dão tanto trabalho, há tanta falsidade... Mas, para as crianças, alheias a todo tipo de dissimulação, ver tanta gente junta só pode ser sinal de coisas boas, de alegria, de confraternização. Então, para elas, o Natal também traz isso: pessoas para perto, festa, felicidade. Por isso, digo outra vez, o Natal é uma festa de crianças.

Se você ainda não se convenceu, preste atenção:

Há um Deus supremo, todo-poderoso e grandioso. Em determinado momento da história Ele se dignifica de vir à terra, como homem. Para isso, se põe como um bebezinho. Mas pode um ser supremo se colocar em um corpinho tão frágil? Sim, e foi assim. Por isso o Natal não é apenas uma festa para crianças, mas de uma criança. Nesse dia se comemora o Deus em um corpo pequeno, dependente e indefeso. Em tudo sujeito aos outros, solicitando, como toda criança, os cuidados e zelo de seus pais.

Será que já não há aí algum símbolo? Jesus não poderia aparecer de repente, surgindo no meio do deserto, dizendo que veio de Deus? Não seria adorado ainda mais se assim o fizesse? Mas não! Veio como um bebê: pequenino, frágil e singelo.

Por isso o Natal, e por isso esta é uma festa de crianças.

Os olhos estavam turvos, aguardando um grande e poderoso rei, e acabaram por não ver o sinal da estrela que guiava até o próprio Deus. Os ouvidos estavam moucos, surdos para os profetas, e não ouviram o coral de anjos que anunciava a vinda do Messias. Nem os sinais, nem a palavra, nada. Os corações maduros não poderiam entender.

Como, homens já feitos, poderiam compreender isso: um pequeno bebezinho, vindo à luz em meio a animais, fugido de um rei feroz, escondido como um ladrão, sendo o próprio Deus? Como se curvar diante de uma simples criancinha, se o que esperavam era um grande libertador?

E nós, modernos senhores de si mesmos: como seguir um homem que nos diz para deixar tudo o que temos, para viver na singeleza da fé? Como nos guiar pela idéia de que não precisamos nos preocupar, pois os lírios do campo são guardados por Deus, quanto mais nós? Como confiar em uma palavra que nos ensina a ser como pombas, tão simples que até parecem imbecis? Como acreditar em uma fé que indica um caminho para o céu que não depende de quem somos, mas apenas em quem cremos?

Além de tudo isso, nos diz para sermos como crianças, que delas é o céu, e que devemos nascer de novo, e obedecer, exatamente como uma criança deve fazer.

Sinceramente, o Natal, decididamente, não é para os adultos. Eles jamais entenderiam o que ele quer dizer.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Cristãos valentes

Uma pregação sobre as dificuldades da vida e sobre o quanto de aflição está reservada para todos nós, diferente do que possa parecer, não é derrotista ou conformista, mas, sim, uma pregação de consciência. Enxergar a verdade nua e crua jamais pode ser considerado fraqueza. Muito pelo contrário, demonstra uma clareza que é exigida de qualquer pessoa sã. Não pode ser sadio alguém que não enfrenta a realidade como ela é, mas cria fantasias ilusórias, mentindo para si mesmo, engendrando um mundo falso e alienante.

O cristianismo jamais foi uma religião de coitados. Mesmo diante das mais cruéis perseguições, a característica que sempre se observou nos crentes foi a resistência diante das maiores crueldades cometidas contra eles. São histórias e mais histórias de homens e mulheres que não abriram mão de sua fé, ainda que isso lhes custasse sofrer o terror da tortura e até a morte.

Por isso, é difícil compreender a postura dos cristãos atuais, os quais disseminam um sentimento de coitadismo absurdo, pelo qual todos se sentem vítimas de um mundo mal, aguardando a chegada de uma mão forte que os restaure a uma posição de honra que supostamente caberia a eles. Sentem-se como vítimas do mundo, do diabo, do Estado, dos patrões e de todos os que, de alguma maneira, possuem algum tipo de superioridade em relação a eles.

Diante da assimilação dessa idéia, então surge uma cultura típica de coitados, a saber, a cultura da reclamação. Reivindicam, determinam e rejeitam tudo aquilo que acreditam ser injusto. E é óbvio que, conforme essa cultura, são, o tempo todo, injustiçados. E para os injustiçados não cabe outra alternativa senão reclamar, reclamar, reclamar.

Mas há ainda outra conseqüência dessa cultura da reclamação, que é a crença de que todos eles têm um lugar de honra do qual foram retirados. Incrivelmente crédulos de seus direitos, acham que tudo conspira para os remover de seus postos elevados. Precisam, portanto, reclamar muito a fim de que haja uma restituição de seu status de direito.

É impressionante como o cristão contemporâneo é semelhante a uma criança mimada dentro de um supermercado. Bate o pé, chora, grita, esperneia, reclama, pede, exige. Talvez, a sorte dele esteja no fato de Deus ser absolutamente misericordioso. Senão, já teria levado uns belos de uns bofetões.

O pior de tudo é que aquele que vive assim, apenas dessa cultura da reclamação, tem a petulância de achar que é mais espiritual do que o pobre cristão que, de uma forma ou de outra, enxerga a realidade da vida. Aquele tem a este como um derrotado, um conformista e resignado que não tem coragem de exigir o que, supostamente, é seu por direito. Diante disso nós vemos o quanto está distorcida toda a noção de moralidade e virtude, mesmo no seio do cristianismo.

Derrotado, por certo, é aquele que não luta e não enfrenta a realidade com todas as suas agruras e dificuldades. Seu destino é a reclamação. Impotente diante das forças do mal, apenas lhe resta botar as mão na cintura e bater bastante o salto, como um típico guerreiro bárbaro!

Diferente disso, o cristão verdadeiro é um valente. E por isso a Bíblia ensina que os tímidos e medrosos não herdarão o céu[1]. Quem não for tido por guerreiro de Cristo, quem não lutar as lutas do Evangelho, quem não vestir as armas de combate espirituais[2], não terá o prazer de fazer parte da família eterna de Deus.

No entanto, a valentia cristã se dá numa base um tanto diferente da de um guerreiro de fato. O cristão valente o é por sua convicção, em primeiro lugar. Sua valentia é demonstrada diante dos ataques morais e intelectuais que sofre. Sendo um guerreiro, com efeito, não sucumbe diante dessas investidas e mantém-se firme. Também é valente por causa de sua fé. Com ela não enxerga inimigos tão grandes os quais não possa enfrentar. Tendo um supremo general, que é Cristo, segue firme no campo de batalha, certo que faz parte de uma tropa vencedora. Mas o cristão também é valente porque seus valores não estão arraigados nesta vida, e, como bom soldado, não se embaraça nos negócios deste mundo[3]. Pelo contrário, se mantém alerta ao chamado de Cristo e pronto para morrer por seu Nome!

Por outro lado, não é verdade que um bom soldado nunca chore. A diferença é que seus lamentos são derramados em seu leito, longe dos olhos do inimigo, diante apenas daquele que tudo vê e pode trazer o verdadeiro conforto. Ao toque da trombeta, no entanto, o bom soldado enxuga suas lágrimas e responde à convocação com firmeza de ânimo, pronto a servir ao grande exército de Deus.

 O bom soldado não finge que a guerra não existe, nem se sente injustiçado por causa do ataque do inimigo, o que seria absurdo. Ele, de fato, enxerga os perigos e as dificuldades inerentes a qualquer batalha. Assumindo os riscos e consciente das dificuldades, ele veste a armadura de Cristo e se dispõe a lutar todas as batalhas que se apresentam diante dele, até a derradeira, na qual sucumbirá, enfim. Porém, mesmo nesta, ele poderá dizer: Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé...


[1] Apocalipse 21.8
[2] Efésios 6.11
[3] 2ª Timóteo 2.4


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A presença da eternidade

Enquanto a morte for uma ruptura, a vida será trágica. Apenas a compreensão da dimensão da eternidade pode oferecer paz à alma humana. Somente quando a eternidade deixa de ser o estágio futuro, com o início determinado, é que ela se torna realmente eternidade e abraça não apenas a esperança do porvir, mas a existência presente.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Irmãs iranianas perseguidas por serem cristãs.


A revista Portas Abertas deste mês noticiou:


"No dia 7 de outubro, as cristãs iranianas Maryam e Marzieh, presas em Teerã no dia 5 de março, foram levadas ao tribunal. Elas respondem por três acusações: realizar atividades antiestado, propagar o cristianismo e apostasia. O juiz as absolveu da acusação de realizar atividades contra o Estado. Por esse motivo, o caso de Maryam e Marzieh será levado para um tribunal comum e não islâmico, onde as outras acusações serão julgadas. Elas voltaram para a prisão, para esperar a próxima audiência. A saúde das cristãs está debilitada. A Anistia Internacional publicou um apelo urgente, pedindo que as duas sejam soltas, afirmando que "são prisioneiras de consciência, presas apenas por sua religião".


Este é o país do presidente Mahmoud Ahmadinejad, o mesmo que foi recebido ontem, dia 23/11/09, pelo presidente Lula, com todas as honras de Estado.


O mesmo presidente que desdenha do Holocausto ocorrido com os judeus na 2a Guerra Mundial e o mesmo que tem como objetivo obsessivo o 'varrer Israel do mapa`.


Segundo o portal de notícias G1, “referindo-se a Lula como ‘bom amigo’, o presidente do Irã manifestou gratidão ao presidente brasileiro pela acolhida e lembrou os desafios dos dois países em relação às mudanças em curso no mundo. "Brasil e Irã são dois países importantes e atuam em duas regiões bastante sensíveis do mundo. O mundo hoje enfrenta desafios de dimensões formidáveis. Tem havido um crescente ceticismo, falácias, e também vemos a continuidade de políticas por nações que desejam manter e continuar seu domínio no mundo", discursou o presidente iraniano. Ahmadnejad defendeu a parceria entre Brasil e Irã para 'construir um mundo sem guerras'. 'Um mundo distante da hostilidade, um mundo onde não haja ocupações nem guerras, um mundo distanciado da injustiça, um mundo repleto de paz, amizade, fraternidade entre as nações do mundo'.


Nada mais demagogo e mentiroso. Como falar em paz sendo presidente de um país que pune aqueles que professam uma fé diferente da oficial?


Nosso presidente, como é sabido, tem preferência pela pior estirpe mundial, com uma queda acentuada por ditadores e terroristas.


Mas vocês acham que isso é por acaso? Não mesmo. Faz parte de sua ideologia, e de todos aqueles que seguem juntos com ele.


Simplesmente lamentável.


Voltando às irmãs iranianas, a revista pede:


“Você pode intermediar a libertação dessas irmãs escrevendo em favor delas. A Portas Abertas disponibilizou em seu site uma campanha de ações institucionais. Acesse e peça a liberdade de Maryam e Marzieh ao Líder Supremo da República Islâmica do Irã, aiatolá Sayed Ali Khamenei”.


Se você puder, escreva e colabore com essa pressão internacional.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O melhor de Deus

(pregação na Igreja Fonte da Vida, no dia 28 de outubro de 2009)

Deus é aquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos. Se assim é, então eu quero o melhor que Ele pode me oferecer, o mais alto de sua graça, o mais profundo de sua bênção. Se Ele pode me dar o melhor, porque eu ficaria satisfeito com o pequeno? Eu sei que Deus me ama e que Ele sempre quer o melhor para mim.

A partir disso, estipularei uma meta: o melhor de Deus para mim. Eu sei que nossas metas são aquelas coisas que norteiam nossa vida. Quanto mais altas elas forem, tudo o que fazemos passará a se conduzir naquela direção. Se o que buscamos é pequeno, pequena será nossa existência. Ao contrário, se é grande, grandes coisas poderemos viver.

Nós não somos medidos por quem somos hoje, menos ainda pelo que nós temos. São os nossos planos que indicam verdadeiramente nossos caracteres mais profundos. Isso porque, repito, se temos objetivos finais bem altos, mesmo que não os alcancemos plenamente, são eles que guiarão todo o nosso ser. O mesmo acontece com os objetivos finais baixos – nos guiarão na medida de seus fins.

Eu quero o melhor porque sei que Deus tem o melhor para mim. Também sei que minha recompensa será de acordo com aquilo que eu desejar como fim. Disto virá meu prêmio.

O que eu mais quero nesta vida? Isto vai me guiar, isto eu vou buscar, isto será a minha recompensa. Então, eu preciso escolher muito bem o que eu quero, pois isto vai moldar o meu ser. O prêmio que buscamos é o que caracteriza a nossa personalidade, quem nós somos.

Qual a sua escolha? O que vai lhe guiar por toda a sua vida? Qual é o seu objetivo final. Lembre-se que sua estatura é idêntica a do seu objetivo.

Eu conheço pessoas que têm seus bens como o objetivo final de suas vidas. Muitas conquistaram muitas coisas. Mas isso é tudo. Elas são seus bens.

Eu conheço pessoas que têm o dinheiro como o objetivo final de suas vidas. Muitas ganharam dinheiro. Mas isso é tudo. É o que elas são: seu dinheiro.Eu conheço pessoas que têm suas carreiras como o objetivo final de suas vidas. Muitas são bem sucedidas. Mas isso é tudo. Elas são suas carreiras. Eu conheço pessoas que têm seus cônjuges como o objetivo final de suas vidas. Muitas são muito bem casadas. Mas isso é tudo. Elas são seus cônjuges. Eu conheço pessoas que têm seus conhecimentos como o objetivo final de suas vidas. Muitas são até intelectuais. Mas isso é tudo. Elas são seus conhecimentos. Eu conheço pessoas que têm o reconhecimento e a fama como o objetivo final de suas vidas. Muitas são alcançaram isso. Mas é tudo. Elas são seu reconhecimento e sua fama. Eu conheço pessoas que têm sua religião como o objetivo final de suas vidas. Muitas se tornaram grandes obreiros. Mas isso é tudo. Elas são sua religião. Elas atingiram seus objetivos e já foram recompensadas (Mt 6.2, 5 e 16).

Triste é o homem que tem a sua recompensa nos seus bens, dinheiro, carreira, religião... Ele não pode esperar da vida nada além do que essas coisas podem dar. Ele estará limitado a viver na esfera daquilo que ele escolheu como seu objetivo. Isso pra mim é um inferno, porque é uma existência inferior. Imaginem: há pessoas que têm como objetivo final de suas vidas apenas os prazeres: sexo, boa comida, diversão. O que elas recebem é o que apenas essas coisas podem dar, e mais nada. Vivem piores do que animais, por que estes têm isso como máximo de sua estrutura, mas o homem não. O homem, por ser imagem e semelhança de Deus, tem uma necessidade interna de transcender tudo isso. Porém, quando seu objetivo final não ultrapassa essas coisas imediatas, ele se aproxima do cão.


Busquem as coisas que são de cima (...) pensem nas coisas que são de cima (Cl 3.1-2). Meu Deus, qual é a extensão do meu ser? Será que eu vou ter a minha vida comparada a de uma serpente, a qual apenas se rasteja pela terra, enxergando as coisas sempre por baixo? Será que eu, imagem e semelhança de Deus, vou viver apenas um pouquinho diferente de um animal?


Não ajuntem tesouros na terra (...) mas ajuntai tesouros no céu. E aqui Cristo não está se referindo apenas a dinheiro. Aliás, pouco ele está se referindo a isso. Tesouro é aquilo que temos como mais importante, aquilo sobre o qual colocamos nossas esperanças e felicidade. São os nossos tesouros que moldam a nossa personalidade, são eles que caracterizam o nosso ser.

Então, se o meu tesouro é o céu; é o céu quem irá me moldar. Se meu objetivo final é Deus, Ele é quem vai formatar quem eu sou. Se Cristo é a minha herança, Ele será a minha recompensa.

Ora, se eu posso buscar o que Deus tem de melhor, porque vou me rastejar em migalhas. Se há uma promessa de eternidade e de vida, porque apressar meus passos pra morte? Se Deus quer me fazer um homem espiritual, porque vou querer ser simplesmente animal, carnal? Eu quero o prêmio máximo. Não me contento com nada menos que isso. As coisas deste mundo podem me recompensar, mas sei que são apenas prêmios de consolação.

Por isso, seguindo esta decisão, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensarei!

As recompensas deste mundo são pequenas algemas que nos prendem a ele. Mas o prêmio de Deus é a liberdade de sermos exatamente de acordo com o propósito que Ele nos criou. Nos libertando das amarras da corrupção, efeitos da Queda, Deus nos ajuda a superar inclusive nossas pequenezas psicológicas, nossa estreiteza existencial e a fragmentação de nossa consciência.

Meu objetivo final é o céu e é ele quem vai guiar todos os meus passos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O silêncio dos culpados

"O mal reside em que aqueles cuja vida testemunha profundo horror aos exemplos dos maus poupem os pecados dos irmãos, porque lhes receiam a inimizade, porque temem ser lesados em interesses, é verdade que legítimos, mas demasiado caros a homens em viagem neste mundo, guiados pela esperança da pátria celeste"

trecho extraído do livro "A Cidade de Deus contra os pagãos", de Agostinho de Hipona.

A Vós líderes da igreja cristã: atentai às palavras do ministro! Vosso silêncio é um golpe e vossa bajulação é traição.  

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O que eles querem?

Algumas coisas são realmente bem difíceis de entender. Após me deparar com a notícia de que as Igrejas Luteranas na Suécia aprovaram a possibilidade da realização de casamentos homossexuais sob sua ordem, além de tendências similares em outros países, e da efusão de alegria dos grupos gays com essa conquista, me pergunto: o que esses grupos realmente querem?

Pense comigo: durante muito tempo, e ainda hoje, as pessoas conservadoras, defensoras da família e de uma tradição foram tachadas de retrógradas. Instituições como a família e o casamento sempre foram considerados, pelos grupos liberais, como exigências sufocantes sobre a sociedade. Cresci ouvindo as pessoas dizerem que o casamento é uma instituição falida e a família uma imposição não natural. Pasmem, isso mesmo. Lembro de uma professora de Antropologia que nos disse que poderia provar cientificamente que a família era uma criação burguesa. É evidente que ela não provou e não explicou por que. Porém, à época, eu com apenas 18 anos de idade, fiquei muito impressionado com aquela afirmação.

Em relação à igreja e à religião, então, o ataque sempre foi bem mais feroz. Para homossexuais, feministas, esquerdistas e tutti quanti, cristianismo, de maneira geral, sempre foi modelo de repressão, atraso e preconceito. Para eles, a religião era uma mal alienante e uma maneira de submeter as massas. Também sempre criticaram os cristãos por suposta hipocrisia, além de enxergar em qualquer instituição religiosa apenas um modelo de totalitarismo.

O mais importante, porém, é ter a certeza que todos esses grupos humanistas e progressistas (liberais e esquerdistas) sempre levantaram a bandeira que dizia: Abaixo a família! Abaixo o casamento! Abaixo a Igreja!

Porém, agora, o que eles estão conquistando é exatamente o direito sobre tudo aquilo que sempre combateram. Criticavam a família e estão conquistando o direito à adoção. Criticavam o casamento e estão conquistando o direito de se casarem e, pior ainda, sob as 'bênçãos' da mesma igreja sobre a qual eles não podiam sequer ouvir falar!

Diante disso, as únicas conclusões que chego é que esses grupos poderiam ter se tornado conservadores e, sem abrir mão de suas práticas antigas, agora defenderiam os mesmos valores e instituições que os mais radicais religiosos sempre defenderam ou, bem mais provável, considerando que chamá-los de conservadores é, para eles, uma ofensa pessoal e como é impossível qualquer conciliação entre os valores que eles defendem e a fé cristã, então, o que está ocorrendo só pode ser uma verdadeira infiltração destrutiva no âmago da igreja.

É óbvio que essa penetração não seria possível sem a conivência dos próprios líderes da igreja, porém, quem não garante que esses líderes também não sejam infiltrados?

As recentes conquistas dos grupos de esquerda, no seio da igreja, não são mero resultado da secularização da religião, mas fazem parte, e isso para mim parece bem claro, de um planejamento para a destruição do cristianismo desde dentro.

É importante, ainda, salientar que a existência de pessoas bem intencionadas que acabam simpatizando e às vezes até se juntando a esses grupos não é uma exceção à regra, mas faz parte do planejamento mesmo. Essa infiltração apenas é possível porque há, por parte de líderes e fiéis, uma predisposição criada por anos de desvios doutrinários, pelo mundanismo crescente, pela perda de valores básicos e pela falta de convicção pessoal. O que os grupos liberais fazem é, se aproveitando da situação, como vírus oportunistas, contaminar a instituição esperando o seu definhamento.

Satanás é covarde e sabe que não pode enfrentar de peito aberto a Igreja de Cristo. Então, por meio de seus asseclas, tenta minar sorrateiramente as próprias bases dessa igreja para, por fim, tentar destruí-la.

Não há espaço para diálogo. Não é possível qualquer negociação. O que há são existências antagônicas que se expelem mutuamente. Não se iluda pensando que possa haver um meio-termo entre as partes. Não se engane acreditando que possa haver mútuas concessões. Ceder, um milímetro que seja, para esses grupos é abrir ainda mais as portas do inferno para que pessoas se precipitem em seu abismo. Eles não cederão em nada, como não cedem há muito tempo. Apenas a igreja vem cedendo e cedendo e cedendo...