segunda-feira, 30 de março de 2009

Longe da multidão de vaidades

Não esqueçamos jamais disso: nossos olhos devem estar atentos à eternidade. Para lá olhamos, não apenas por contemplação, mas como quem segue uma estrela-guia. Tudo o que fazemos e pensamos, então, se submete a este princípio: meu destino é a eternidade. Então, por que se prender nas futilidades temporais e sofrer tanto com a transitoriedade das coisas? Grande loucura é descurarmos as coisas úteis e necessárias, entregando-nos, com avidez, às curiosas e nocivas. Na multidão de idéias e discussões penetra, facilmente, a vaidade, a soberba e, não raro, as dissoluções. E tudo por razões que mal se sustentam, que não subsitiriam ao leve sopro do Verbo. Portanto, calem-se todos os doutores; emudeçam as criaturas todas em vossa presença; falai-me Vós só.
Se a eternidade é o alvo, as coisas deste mundo, em sua grande maioria, tendem apenas a me desviar dele, então, parece óbvio que minha alma deve se prender em pouco, que é tudo. Há um só Deus, há uma só Palavra revelada, há um só Messias e apenas um caminho para a salvação. Destarte, devem meus olhos olhar diretamente para onde pretendo chegar e não me distrair nas belezas que morrem. O espírito puro, singelo e constante não se distrai no meio das múltiplas ocupações porque faz tudo para a honra de Deus, sem buscar em coisa alguma o seu próprio interesse.
O acúmulo de ciência pode até ser bom, mas apenas se voltado para Cristo. Toda ela deve me levar para mais perto de quem amo, mais próximo do meu Salvador. Melhor é entrar no reino dos céus sem um olho do que permitir que este olho me conduza para longe do Senhor. Vigiai, pois há muitas vaidades e todas loucas para nos tragar. Certamente, no dia do juízo não se nos perguntará o que lemos, mas o que fizemos. Um instrumento só é útil enquanto tal; ao se transformar em fim, torna-se um vício, um veneno para a alma.

E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo.

citações de Tomás de Kempis e Filipenses 3.8

quinta-feira, 26 de março de 2009

Contra a impiedade

Quantos reconhecem o verdadeiro salvador? Se estreita é a porta que conduz à vida eterna, pela porta larga segue a maioria dos homens. E se o mundo segue ainda mais impiedoso, a largura de tal porta já se torna estreita pela demanda de sua passagem. Os pecados são tantos que é enfadonho enumerá-los e talvez a soberba da vida seja o primeiro e o fundamento de todos eles; basta este para conhecer todos os demais.
Mas há um juízo, sim. Do trono excelso o Senhor exigirá contas dos homens. E quem subsistirá? O Senhor cortará todos os lábios lisonjeiros e a língua que fala soberbamente. Quem confia em sua própria ciência é tido por louco por Deus que, então, aniquilará a sabedoria dos sábios e rejeitará a prudência dos prudentes.
São os simples, os pobres de espírito, quem Deus defende contra as astúcias artimanhas dos conhecedores deste mundo, da autoridade científica e mundana, dos mestres e doutores da loucura. Se somos frágeis, pois vivemos pela fé, se estamos indefesos, pois somos obscuros, se os senhores da técnica e do conhecimento vociferam contra nossas verdades, saibam eles que pela opressão dos pobres, pelo gemido dos necessitados me levantarei agora, diz o Senhor; porei a salvo aquele para quem eles assopram.
São cegos guiando cegos; soberbos louvando soberbos; loucos aconselhando loucos. Os ímpios andam por toda parte; quando os mais vis dos filhos dos homens são exaltados.
Nós, porém, nos sentimos seguros, arraigados na verdade, fincados com os pés na rocha, estabelecidos na realidade. Isso porque confiamos no Altíssimo, ouvimos sua voz e reconhecemos o chamado do pastor eterno. As palavras do Senhor são palavras puras, como prata refinada em fornalha de barro, purificada sete vezes. Não mes esconderei, portanto, nos jogos verbais da multidão, nem me curvarei à impureza dos que desejam negar a Deus, mas, sim, me submeterei àquele que traz em sua boca o mistério da verdade.

sexta-feira, 13 de março de 2009

O caso da menina de Alagoinha/PE

Diversas pessoas me abordaram com a mesma indagação: "E no caso daquela menina de 9 anos que foi estuprada, você, ainda assim, é contra o aborto?". Ao demonstrar a minha surpresa com a pergunta, todas elas se adiantaram dizendo que, em casos assim, é muito difícil uma decisão. Pior, quando eu falava que nada na situação fez eu mudar minha convicção, o que eu recebia, era, invariavelmente, um olhar confuso de meu interlocutor. Sabe o que é pior ainda? Quase todas essas pessoas eram cristãs.

quinta-feira, 12 de março de 2009

O Homem-que-sou

O homem-que-sou: um mísero andarilho que pouco pode alterar da realidade, que luta diariamente com progressos ínfimos, resultados parcos, conquistas nulas. Há muitos que falam em revoluções, que anseiam por mudanças, que querem, e acreditam poderem, alterar realmente o universo. Falam de lutas, subversões, ações e gestos que crêem terem forças para transformar, segundo seus próprios ideais. Quanto ao homem-que-sou, porém, fica a eterna sensação de sentir-se frustrado, incapaz de fazer o que os outros dizem que fazem.

terça-feira, 10 de março de 2009

O Aborto e o Dia Internacional da Mulher

É incompreensível, para mim, mulheres que, ao invés de serem defensoras da vida, levantem suas vozes justamente pelo direito de acabarem com vidas indefesas. Logo elas, que para nós representam a geração para a existência, estão nas ruas empunhando cartazes para matar! Quem são elas, afinal? Elas que dizem ser a esperança da paz no mundo, o modelo de sensibilidade e amor. Elas, de quem esperamos tudo, menos a crueldade que tanto marcou o sexo oposto durante toda a história.

No Dia Internacional da Mulher, foi triste ver o sexo frágil vociferando como animal faminto, ansiando pelo alimento que tanto deseja: a morte violenta de fetos indefesos.

Infelizmente, elas ainda acham que o corpo que dentro delas se forma, a elas apenas pertence, e que aquele que se prepara para o mundo vir, nada mais é do que um objeto que pode ser descartado a qualquer momento.

Diante disso, só posso concordar com o que diz, irônica, mas sabiamente, o professor Olavo de Carvalho: que esses que defendem o tal 'direito de escolha', que o defendam retroativamente, a fim de alcançar a gestação de suas próprias mães, e sejam eles mesmos abortados desta vida (ah, se isso fosse possível!).

sexta-feira, 6 de março de 2009

Malemolência espiritual


Se entre 80 mil pessoas reunidas convocadas a ajudar você, por algum motivo, apenas 3 se dispussesem a fazê-lo, como você sentiria?
Pois esse foi o número de cristãos que se dispuseram a assinar a revista da Missão Portas Abertas, num congresso da VINACC, na Paraíba, segundo informação do Julio Severo.
O próprio Julio já faz uma análise exata da situação, na qual pessoas ignoram completamente o sofrimento dos cristãos em países muçulmanos e comunistas.
Segundo ele, isso tem um caráter profético: afinal, como esses cristãos não se preocupam com o que acontece com irmãos em outros países, com as perseguições e ações estatais contra o cristianismo, como vão se preocupar com o que acontece debaixo de seus próprios olhos?
Volto a pensar no que disse Agostinho, em seu livro 'Cidade de Deus', se referindo a uma previsão de Cipião Nasica, que era contrário a destruição de Cartago:
"Receava outro inimigo das almas fracas, a segurança, e não queria do necessário tutor, o medo, emancipar a pupila romana"
Não estaríamos nós, cristãos ocidentais, vivendo uma malemolência eclesiástica, nos fartando das mordomias do mundo moderno, engordando nossas panças religiosas até que nossas veias espirituais se entupam? Será que não perdemos a noção de estarmos em uma batalha, contra um inimigo chamado Satanás, que além de comandar seus anjos, tem usado Estados e homens na busca de seus objetivos? Será que não nos sentimos seguros demais e nos tornamos, por isso, displicentes?
O sábio conselho daquele pontífice romano é atual. Se não percebemos os perigos que nos rodeiam, tendemos a relaxar e abrimos as guardas para toda investida do mal. Acompanhe o site do Julio Severo e veja como o Estado tem preparado ações para destruir nossos valores mais fundamentais.
O fato acontecido em João Pessoa é apenas um indicador de nossa realidade. Talvez seja um fator irreversível, mas, pelo menos nós, individualmente, podemos mudar isso em nossas vidas.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Leituras estranhas

Algumas pessoas chegam à equivocada conclusão de que se leio um livro, concordo com que o autor diz nele. Nada pode ser mais errado! Pelo contrário, ultimamente tenho brigado com muitos escritores, mantendo, enquanto os leio, uma verdadeira discussão com eles.
O que as pessoas precisam entender é que mesmo nos livros dos quais eu discordo, há sempre algo que consigo extrair de ensinamento. Não é apenas o retém o que é bom, mas é o aprender com os erros alheios e ampliar a compreensão com base nos equívocos do outro.
Se leio Kant, mesmo achando tudo aquilo muito estraho; se me esforço a compreender seu ponto de vista, de seus escritos posso tirar, pelo menos, a idéia de como o homem pode se perder em sua imaginação.
Até em Nietzche, a quem eu chamo de 'louco-pensador', apesar de todos os seus devaneios, é possível captar alguns momentos de lucidez e acerto.
Não é porque um escritor, no geral de sua obra, se equivoca, que tudo o que ele diz está errado ou não tem sentido. Muitas vezes, suas idéias tem muito sentido, se entendidas separadamente umas das outras. O erro, normalmente, é percebido apenas na análise do conjunto.
Outro aprendizado que costumo tirar desses autores é a compreensão dos perigos que estão sujeitos os pensamentos humanos. A maioria dos erros dos filósofos são um exemplo de tendências comuns a todos os homens: o relativismo, o cetiscismo, o materialismo etc. parecem ser a inclinação natural do ser humano decaído e distante de Deus.
Portanto, se alguém me ver com um livro meio sinistro debaixo do braço, não se assuste: posso estar lendo ele, mas isso não quer dizer que o que nele está escrito passou a fazer parte da minha filosofia.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Como um Atleta

(pregação no retiro de 2009)
Imbuido da responsabilidade de trazer-vos a mensagem desta noite, decidi que o que precisamos, não apenas neste encontro, mas em nossa vida, são mais do que palavras bem concatenadas, bem mais do que idéias corretamente delineadas. Algo bateu forte em meu peito me mostrando que necessitamos de existência. E isso significa nada mais do que o nosso ser tomado pela fé que proferimos com nossos lábios, a ponto de a verdade bíblica revelada nos envolver de tal maneira que não apenas reverberamos trechos bíblicos decorados, mas vivenciamos a realidade da Palavra de Deus em nossos pensamentos, palavras e atos.

Diante disso, me vi impelido não a confeccionar um estudo sistemático de alguma passagem da Bíblia. Preferi, simplesmente, me assentar em um local silencioso e refletir sobre como anda minha relação com Deus. Meditando sobre a mensagem trazida pelo pastor ontem à noite, tentei botar em ordem, em minha cabeça, as questões que envolvem a minha existência, a minha fé e a minha conduta. Junto a tudo isso, certo que por uma providência divina, ficou em meu notebook o filme passado na reunião de ontem à noite, chamado 'O Livro Perigoso'. Bingo! Era exatamente isso que eu precisava!

Não é novidade que necessitamos de um compromisso sério com Cristo. Isso para que possamos encarar as adversidades da vida e, até mesmo, as perseguições e retaliações que podem surgir pelo fato de sermos cristãos. Nisso está contido o conhecimento profundo da Palavra de Deus, uma fé inabalável no poder de Jesus e um amor real pelo Senhor.

No entanto, uma coisa é sabermos o que é certo, outra é colocar em prática o que sabemos. Nós ouvimos a verdade, nos comovemos com ela, somos impactados por ela, mas nos deparamos com o mundo cotidiano e, invariavelmente, cedemos aos seus apelos. Isso faz com que desacreditemos da possibilidade de se vivenciar uma vida cristã plena, como vemos nos grandes exemplos cristãos que conhecemos. E vivemos assim, de inspiração em decepção. Rotineiramente nos inflamos de fé para que ela se esvazie na primeira esquina do mundo.

Senhor, como podemos mudar isso? Será que estamos condenados à derrota constante diante das forças deste mundo? Será que seremos perpetuamente a esperança de algo que nunca alcançaremos?

O apóstolo Paulo já nos ensinava como deveríamos nos colocar nesta vida. Na 2ª Epístola aos Coríntios, no capítulo 9, ele afirma que devemos ser como atletas que não medem esforços e sacrifícios afim de conquistar um prêmio material. Nós, então, que corremos em busca de um prêmio espiritual e eterno, quanto não devemos estar dispostos a nos entregar?

Você já observou como é a vida de um atleta profissional? Na busca de seus objetivos, ele se entrega de corpo e alma aos treinamentos e à preparação que poderá torná-lo um vencedor. Neste preparo, ele não mede esforços em abstinências, disciplinas e regras pessoais com o intuito de fortalecer o seu corpo e preparar a sua mente para a vitória.

Sem meias palavras, o apóstolo diz que esmurra o seu próprio corpo, reduzindo-o à escravidão, para que não seja, por fim, desqualificado. Isso já demonstra, em princípio, que ele sabia o que era realmente importante. O escravo é aquele que apenas obedece. O escravo não tem liberdade, por definição. Escravizar o próprio corpo é dizer para ele quem é o senhor. Paulo estava tentando nos dizer que precisamos dominar a nossa carne, precisamos dizer para ela quem manda. Se não fizermos isso, os escravos seremos nós, subjugados ao corpo e ao pecado, reféns da baixa vontade, sem autonomia para viver.

Mas essa disciplina, como alcançá-la? Essa santidade, como obtê-la? Será preciso apenas vontade, ou força, ou determinação? Será que basta ter fé para alcançar isso? Ao questionarmos dessa forma, nos sentimos ainda mais distantes do objetivo. Parece que decididamente devemos nos conformar com nossa iniqüidade e deixarmos a vida nos conduzir.

No entanto, não quero me conformar com isso. Quero, sim, cumprir minhas metas diante do Senhor. Longe de querer ser um super humano, longe de querer ser o mais santo dos homens, quero apenas ter consciência de que vivo um cristianismo agradável a Deus. Que serei aprovado por Ele. Que serei tido como um servo bom e fiel.

No filme citado acima, o irmão André diz, claramente, que quem não consegue ler a Bíblia inteira durante um ano é preguiçoso e não está fazendo a vontade de Deus. São palavras duras, mas que me fazem refletir sobre como anda o meu cristianismo. O que eu estou fazendo de mim mesmo, de minha fé, de minha eternidade, afinal. Até quando seguirei conduzindo as coisas de maneira relapsa, com pequenos arroubos de santidade, mas de grandes momentos de indiferença?

Tenho certeza que todos aqui, sendo cristãos verdadeiros, querem se sentir aprovados pelo Pai. Querem poder olhar para si e reconhecerem um cristão autêntico. Querem se sentir reais, sinceros. Querem sair daqui, irem para os seus quartos, olharem nos espelhos e reconhecerem a mesma pessoa que aqui estava orando, cantando e refletindo sobre as coisas do Evangelho.

Mas como cumprir aquilo que o irmão André disse ser obrigação de todo cristão, se a Bíblia, muitas vezes, nos parece chata, cansativa, entediante?

Precisamos, antes de tudo, saber o que nós queremos. Um atleta, quando se prepara para uma competição, ele tem seu objetivo claramente delineado. Todo o seu treinamento é baseado na preparação do corpo para que o objetivo traçado seja alcançado. Tudo o que ele faz e o que ele não faz visa esse alvo.

Diante disso, antes e qualquer coisa, precisamos saber qual é o nosso objetivo. O que queremos, por que estamos aqui. Qual o motivo de sermos cristãos. Qual a nossa esperança. É nesse sentido que Jesus diz que aquele que pretende segui-lo deve medir se é isso o que ele realmente quer. Não basta seguir a multidão. O verdadeiro discípulo de Cristo o segue porque sabe o que lhe espera, sabe o que o Mestre está lhe oferecendo e volta toda sua vida para este objetivo.

O cristianismo sempre esteve infiltrado por pessoas que não possuem nada com Cristo. Homens e mulheres que apenas encontraram algo bom, mas algo que não tomou conta de suas vidas. Por isso tantos, se dizendo cristãos, continuaram a viver de maneira tão pecadora. Por isso tantos, apesar de se acharem entre a Igreja, mantiveram seus passos de iniquidade.

Nós apenas vamos nos tornar verdadeiros seguidores de Cristo, quando suas palavras passarem a fazer parte não apenas do nosso conhecimento, mas da nossa vida. Quando ser cristão deixar de ser uma escolha, para ser uma impossibilidade de ser outra coisa, aí começaremos a experimentar o que realmente Deus tem para nossas vidas.

Se quisermos ter prazer em ler a Bíblia, não será apenas por curiosidade, nem mesmo pelo desejo de nos instruirmos. A Palavra de Deus só será prazerosa quando nós decidirmos que queremos encontrar a verdade e reconhecermos que nela está contida a verdade. Quando cada passagem da Bíblia nos trouxer não apenas conhecimento, mas solução existencial, aí começaremos a investigá-la com amor, com prazer, com vontade. É preciso antes de haver o desejo de conhecer a Bíblia, o desejo de conhecer a Deus. Se queremos Deus, de verdade, e reconhecermos que é na Bíblia que podemos encontrá-lo, então ela passará a ter um significado completamente diferente para nós. Cada palavra será uma preciosidade a ser decifrada, compreendida e absorvida no nosso ser.

Conquistado tudo isso, com o objetivo bem traçado, a disciplina e o sacrifício deixarão de ser um ato de desgosto, para, enfim, ter neles um significado verdadeiro.

Por fim, gostaria de dar mais um conselho para que não nos deixemos cair nas armadilhas do maligno e nos ver envolvidos pelas suas redes. A Bíblia, o tempo todo, nos informa que sendo cristãos, estamos em uma constante guerra. Paulo nos informa que vivemos em luta contra o diabo e seus anjos e Jesus diz que não podemos descansar, mas devemos nos manter vigilantes.

Interessante, pois estava eu lendo um livro de Agostinho, no qual ele conta a história de uma homem chamado Cipião Nasica, que, considerado um homem absolutamente virtuoso pelo Senado Romano, aconselhou-os, durante as Guerras Púnicas, que Roma não destruisse seu inimigo: Cartago. Seu motivo: sem inimigos, o povo relaxaria e daria vazão a toda sorte de iniquidades. Interessante que ele foi, inclusive, contra a importação dos teatros gregos, pois, segundo seu entendimento, esses teatros tornariam os homens mais suscetíveis à luxúria e a impureza.

Pensando em nossa vida, será que não estamos muito acomodados por não nos apercebemos que vivemos realmente uma batalha? Cercados de toda sorte de mordomia, a qual nos acostuma a não aceitarmos nenhum tipo de contrariedade, a não nos conformarmos com qualquer falta, percebemos que precisamos demais vigiar para não afrouxarmos as nossas defesas. Se realmente vivenciarmos aquilo que a Bíblia nos diz que acontecerá, se, de alguma maneira, sofrermos algum tipo de perseguição, de restrição ou de proibição, como enfrentaremos isso se não estamos treinados em viver na falta, na contrariedade até na injustiça?

Por isso, precisamos estar atentos para não permitirmos que as facilidades, os prazeres e o mal hábito amoleçam nossas almas e nos tornem presas fáceis do inimigo. Percebam como nos incomodamos com qualquer coisa que, mínimo que seja, nos importune. Uma pregação mais longa de um ministro, uma música menos interessante, um culto um pouco mais demorado, um estudo um pouco mais minucioso e, até, uma oração mais comprida de um irmão. Como enfrentar adversidades maiores se não suportamos a mais comezinhas?

Precisamos, sim, escravizar a nossa carne, disciplinar o nosso corpo, treinar a nossa mente e preparar o nosso espírito para que suportemos os dias mais difíceis que, provavelmente, experimentaremos num futuro não tão longínquo.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Efésios 3

Uma carta de conforto, por alguém que é prisioneiro, para homens livres. Em uma situação normal era Paulo que estaria recebendo mensagens de apoio, por ter sido preso, a fim de se manter firme, com esperança. Mas aquele homem não precisava de nada disso. Ele já vivia a esperança da eternidade plenamente, e não seriam cadeias que iriam roubar isso dele. A única coisa que evidentemente o incomodava era não poder estar pregando o evangelho. De qualquer forma, não era ele quem recebia as mensagens de apoio, mas ele as escrevia, para uma igreja que podia ter sua fé abalada por causa da prisão de seu missionário. O que Paulo enfatiza é que sua reclusão é, de uma perspectiva celestial, uma grande bênção1. Ela era sinal de que ele estava cumprindo o seu chamado, pregando aos gentios e os ensinando sobre o mistério oculto de Deus, que é a salvação dos povos pagãos, em Cristo Jesus. Instava-os a manterem-se firmes, certos de que tudo o que ele estava passando era para a bem daquelas pessoas. De maneira geral, as tribulações de Paulo eram a confirmação de que os gentios estavam sendo evangelizados e se convertendo a Cristo.

Paulo aceitou o seu chamado sem reservas. Quando Jesus o fez apóstolo para os gentios, ele sabia que passaria por muitas tribulações por causa disso. Porém, jamais recuou, jamais contestou sua condição, jamais questionou a razão dessas dificuldades. E isso acontecia porque ele enxergava muito além do homem ordinário. Sua compreensão do mistério divino o fez contemplar uma realidade supra cósmica que o libertava das amarguras terrenas, o fazia suportar tudo sem nunca esmorecer. O pregador assumiu seu chamado com todas as conseqüências relativas a ele. Quando aceitou pregar o evangelho fora de Israel, com uma mensagem que iria incomodar tanto judeus como não judeus, tinha a certeza que seria perseguido, machucado e preso. Ainda assim, ele manteve-se firme no propósito de Deus, e cumpriu sua vocação irrepreensivelmente. Dizia, inclusive, que nenhuma tribulação poderia afastar um cristão do amor de Deus e, mesmo passando por qualquer dificuldade, sabia que era mais que vencedor2.

Esta carta de Paulo, claramente, procura explicar para a igreja o que Deus revelou para ele. Em síntese, é a demonstração de que os gentios também tinham parte no plano de salvação divino, que este não era apenas para os judeus, mas uma possibilidade universal. Sabia, porém, que até aquele momento, essa realidade era um mistério oculto, ou seja, uma verdade que existia, mas não havia sido ainda revelada. E Deus escolheu exatamente Paulo para receber essa revelação e mais, para administrá-la. Isso significa que ele era o arauto de Deus para os povos pagãos. Foi ele o incumbido de deflagrar essa mensagem e explicá-la.

Havia plena consciência, no apóstolo, de que sua mensagem era nova para os homens, e talvez até mesmo incompreensível, principalmente para os judeus. Tendo sido ele um zeloso religioso, sabia muito bem o que pensavam seus antigos pares e como compreendiam a relação de Deus com o povo de Israel. A pregação para os gentios, sem o proselitismo tradicional judaico, pelo contrário, mesmo liberando os pagãos de se agregarem à religião judaica, só poderia trazer escândalo e ódio por parte de seus concidadãos. Mas este era seu chamado, e como já dito, Paulo o aceitou plenamente.

Aquele homem sabia, inclusive, que o mistério revelado a ele era tão grande, que não era conhecido nem mesmo de anjos e demônios. Essa é uma passagem impressionante desta carta. Ele diz que para ele foi dada a graça de anunciar aos gentios o mistério que esteve oculto em Deus, para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus3.

No entanto, que não se confundam, nem se embaracem num aparente paradoxo. O mistério oculto (salvação dos gentios) era um mistério para os homens, mas estava em Deus por toda a eternidade. Desde o princípio havia um plano de salvação para os pagãos, o qual foi colocado em evidência no momento certo. Os gentios não são uma sobra da salvação rejeitada pelos judeus, mas estavam, sim, dentro dos propósitos divinos desde toda a eternidade4. Quando na carta aos Romanos Paulo diz que o evangelho é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê: primeiro do judeu e também do grego5, claramente está evidenciando uma ordem cronológica de apresentação dessa salvação, jamais uma ordem preferencial.

Paulo assumiu com amor o seu chamado e desejou, ardentemente, compartilhar a verdade do evangelho com todas aquelas pessoas. Ansiava por vê-las aos pés de Cristo, deixando para trás seus cultos místicos idólatras. Queria muito que eles compreendessem a verdade da salvação de Deus, mas sabia que tal compreensão só poderia ser alcançada se houvesse uma intervenção real do Espírito Santo, seguida de uma fé incontestável em seus corações e amor irrepreensível em suas almas6. Com todas essas coisas entranhadas no espírito humano, aí sim, poderiam eles alcançar o nível de compreensão das coisas.

Quando Paulo diz que os santos poderão compreender perfeitamente qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade7, está deixando claro que aquilo que Deus revelou é possível ser compreendido pela mente humana. Diferente de tantos gnósticos que sempre insistiram na necessidade do uso de ritos místicos para se alcançar uma compreensão das coisas elevadas, a Bíblia nos ensina que o homem possui capacidade para entender os propósitos de Deus. Diante disso, vê-se que há dois erros comuns nesta questão: um daqueles que acreditam que apenas por meio de 'rituais misteriosos' se alcança verdades superiores e outro dos que acreditam que a razão, por si só, é capaz de entender a vontade divina. Na verdade, o homem pode, sim, em sua razão, compreender as realidades celestiais reveladas, porém, só alcançará isso, se tiver fé, e amor em Cristo Jesus. Nós não sabemos qual a real capacidade de um cérebro humano, mas podemos dizer, sim, que há coisas que não são simplesmente compreensíveis logicamente, mas demandam uma compreensão mais ampla, que envolve também a intuição e o sentimento. São verdades que simplesmente são, e talvez nem saibamos porque o são, mas que as percebemos num ato cognitivo direto. Isso não tem nada a ver com misticismo, mas é a realidade da constituição do próprio homem. Dessa forma, quando Paulo clama a Deus para que Ele conceda o poder do Espírito Santo aos irmãos, para que eles alcancem uma compreensão inteira da realidade, está levando em consideração esse tipo de compreensão, que não é apenas místico, mas também não é apenas racional, na verdade é uma compreensão com todo o ser (razão, sentimento, intuição e percepção).

Uma das maiores críticas que se faz a qualquer religião é o fato de ela ser achar a 'dona da verdade'. Em primeiro lugar, não há como ser diferente. Uma religião que não tivesse certeza do que prega não poderia ser uma religião, pois quem a seguiria se nem mesmo ela tivesse certa de seus preceitos? Mas, em relação ao cristianismo, isso é ainda mais evidente, afinal ele arroga a si a explicação não apenas do universo, mas de toda a realidade. Isso é um absurdo para os céticos e agnósticos, conduzindo-os a desferirem os mais duros golpes contra a fé cristã, chamando-a de intolerante e soberba. Ocorre que esses críticos jamais poderão compreender o que a Bíblia diz, pois não possuem em princípio a fé. Sendo assim, não têm o amor a Deus que harmoniza todas as coisas, E, por fim, negam a própria percepção, ignoram a própria sensibilidade que, sem dúvida, mostra para eles que há um Deus criador de todas as coisas. O que o cristão faz é exatamente o contrário: ele percebe e sente que há realmente um Deus; antes de compreendê-lo, crê; antes de explicá-lo, ama-o; e depois disso é abençoado com o entendimento das coisas.

Ainda assim, sabemos que há verdades que nem a mente humana pode compreender. Um exemplo é o amor de Cristo8. A razão humana não consegue entender o que move Deus a demonstrar tamanho amor. Como já vimos, Cristo morreu por pessoas que estavam contra Ele, em rebelião. Nenhuma compreensão é possível para isso, nenhum raciocínio pode explicar essa ação. Apenas sabemos que ela é real, mesmo sem podermos explicá-la.

Outra verdade que está além de nossa compreensão é o poder de Deus. O que Ele pode fazer vai muito além do que podemos imaginar. Apesar de sabemos que Deus é infinito em poder, não sabemos exatamente o que isso significa. Não há limite, Ele pode tudo? Nos resignamos em aceitar que isso está além de nossa compreensão.

Está claro, portanto, neste trecho da carta de Paulo, que os gentios fazem parte da família de Deus, e, como todos os homens, têm acesso livre ao Pai, devendo, como qualquer ser humano sobre a face da terra, possuir fé para poder se achegar ao Salvador das almas, que é Jesus Cristo, nosso Senhor.

1Efésios 3.13
2Romanos 8.35-37
3Efésios 3.7-10
4Efésios 3.11
5Romanos 1.16
6Efésios 3.16-17
7Efésios 3.18
8Efésios 3.19

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Efésios 2.11-22

Os que estão espiritualmente mortos não têm esperança. Seus dias são meramente uma seqüência cronológica ininterrupta, aguardando o último suspiro. Se há algum sonho, não passa de planejamento imediato, que morre tão rápido quanto morre a carne do homem. Em quem podem depositar sua confiança? Em sua força, seus ideais, sua frágil capacidade, ou em um Estado, em uma utopia? Tudo isso passa tão velozmente que as palavras do sábio podem ser repetidas altissonantemente: Tudo é vaidade!1

Os deuses pagãos jamais ofereceram qualquer esperança para o homem. Eram eles apenas uma idealização que, longe da perfeição, tentavam elevar o ser humano a padrões de virtuosidade. Seus favores, porém, não passavam de concessões imediatas, as quais estabeleciam alguma possibilidade de uma vida melhor. Eram melhores colheitas, vitórias em guerras, prosperidade material; nada muito além disso. Esperança eterna? Não havia muita! Apesar de a maioria dos povos crerem em uma eternidade, esta não passava de um Hades comum. O além-vida era algo inexorável, uma continuação prosaica da vida terrena, mas que não abarcava a idéia de recompensa ou conquista. Ir para o além era comum e não significava, absolutamente, um aprimoramento existencial. Me arriscaria a dizer até que, pelas descrições do além feitas por poetas e escritores gregos, por exemplo, o Hades estava mais próximo a uma idéia de inferno do que de paraíso. De qualquer forma, essa era a vida pagã, uma vida sem Messias, sem esperança eterna.
Em Israel isso era um pouco diferente. Os judeus criam em um Deus único, perfeito e eterno. Deus, não é apenas uma idealização, um exemplo, é a fonte da existência, o princípio e o fim. A Ele todos devem seu ser e para Ele devem se conduzir. Nisso acabava existindo já uma idéia de recompensa. Se Deus é perfeito, alguma exigência deve haver para receber os seus justos favores. É verdade que mesmo os judeus não faziam uma idéia muito clara de paraíso e inferno e também tinham suas esperanças muito voltadas para as recompensas terrenas. Porém, diferente dos povos pagãos, em sua teodicéia já havia inserida a idéia do Messias libertador, da necessidade do perdão para a redenção e o sistema de compensação pós-vida. Talvez o povo judeu não compreendesse todas as coisas, mas tudo estava já inserido em suas leis, em seus ritos, em sua simbologia. Deus, ao proporcionar ao povo uma revelação sagrada, já manifestara todo o seu plano, sua forma de agir e sua presciência.

Não podemos olvidar da aliança de Deus com o povo, suas promessas para ele. Não havia nada parecido no mundo gentio. Os deuses pagãos viviam suas vidas em si mesmos, apenas esporadicamente atuando sobre o ser humano. Ainda assim, quando imaginava-se essa atuação, normalmente era ela independente de qualquer valor moral ou espiritual, sendo inclusive, tantas vezes, movida por interesses absolutamente pessoais. O Deus de Israel, de maneira completamente diferente, era o Deus atuante, que conduzia o povo, que acompanhava e interferia na história desse povo, que indicava o caminho, que castigava e recompensava. Era o Deus vivo que tinha o poder sobre tudo e todos. É evidente que a Aliança de Deus só podia estar com o povo de Israel, afinal os outros povos sequer conseguiam alcançar a idéia do Deus Todo-Poderoso como os judeus já compreendiam.

Porém, sendo aqueles deuses gentios apenas idealização, não existindo de fato, é óbvio que mesmo aquele povo pagão era criatura do Deus Verdadeiro e Eterno. De alguma forma, aqueles homens e mulheres estavam dentro da realidade divina e eram amados pelo Deus Criador. Mesmo havendo um pacto entre Deus e o povo judeu, os povos gentios não foram excluídos da realidade eterna do Senhor. Desde o princípio, Deus havia preparado o redentor, que seria não apenas o redentor de Israel, mas o salvador de todos os povos, de todas as raças, línguas e nações.

Os judeus, no entanto, não poderiam saber disso. Se mal compreendiam sua própria redenção, como poderiam vislumbrar uma salvação, por meio de seu Messias, de povos incrédulos e idólatras? Ocorre que esse era o grande mistério que Paulo afirma que existia na mente de Deus, e que, a partir de Jesus Cristo, foi revelado de maneira completa.

Os pagãos estavam longe da salvação não porque Deus os houvesse abandonado, mas porque eles se agarraram aos seus deuses e neles compreendiam sua realidade. Nesses povos, não havia lugar para um Deus Único e suficiente. Quando estes povos, por meio de seus sábios passaram a, de alguma maneira, questionar sua infindável ordem de deuses é que parece que o terreno começou a ser preparado para a aceitação, por eles, da idéia de um Deus Único e verdadeiro. Talvez por volta do século III antes de Cristo começaram a haver as primeiras discussões sobre a existência dos deuses e sua razão de existirem. Mesmo sendo ainda questionamentos tão distantes da realidade existente, já era um prenúncio e, quem sabe, um princípio para a pregação posterior do Evangelho. Deus sabe essas coisas, e quando a Bíblia diz que Cristo veio na plenitude do tempo2, esse talvez seja um dos fatores que contribuíram para isso.

De qualquer forma as palavras de Paulo são bem claras: eles estavam sem Messias, não faziam parte do povo de Deus, não tinham esperança, e viviam sem Deus no mundo.
O Messias era o libertador, aquele que salvaria o povo da opressão e da escravidão. Talvez os judeus não compreendessem que essa libertação era de algo muito maior do que o cativeiro terreno, mas, de qualquer forma, havia a esperança real no salvador. Essa esperança manteve a coesão do povo e sua existência. Imagine um povo sem terra que mantém suas raízes durante milhares de anos. Essa é a história do povo de Israel. Foram cativeiros, escravidão, deportações, expulsões, massacres e holocaustos. Ainda assim, esse povo continuou a existir, manteve-se como uma raça, preservou sua língua e sua identidade. Ora, isso apenas pode ocorrer se houver algum princípio que o mantenha coeso, unido e identificável. Esse princípio é a esperança no Messias. Essa esperança é o norte que sempre conduziu esse povo e o manteve alerta.

Sem essa esperança, não é possível manter-se. No fundo, todos percebemos que a vida é vaidade. Vivemos entre tristezas e alegrias, e, de uma maneira ou de outra, morreremos. Ainda que haja a crença num mundo posterior, ela só dá algum sentido para a vida atual se esse além-mundo for também um além-existência. Se crêssemos apenas em uma continuação ininterrupta da vida terrena, não haveria qualquer necessidade de libertação, de salvação. Desse jeito, se a vida aqui neste mundo tiver suas incoerências, seus desatinos e sua falta de sentido, a vida além não seria diferente. Com isso, a escravidão espiritual seria eterna, alterando apenas o local de onde ela se daria.

O salvador é necessário! Isso foi revelado aos judeus muito antes. Não se pode aceitar que toda fragilidade desta atual existência seja eterna. Não se pode aceitar que o que Deus preparou para o homem seja essa vida pequena e fugaz. A eternidade superior, perfeita, livre das impurezas terrenas é tão necessária que não pensar nela é quase que um suicídio. E de tão necessária ela se torna óbvia, e de tão óbvia sua inexistência é impensável.

Excluindo qualquer dúvida da existência de uma vida eterna paradisíaca, porém, sendo ela não uma continuação automática da vida presente, seu acesso só pode ocorrer como conseqüência do que se faz nesta vida. No entanto, não havendo ser humano capaz de produzir obras que o conduzam a essa eternidade perfeita, foi necessário que o próprio Deus, fazendo-se homem, derramasse seu sangue, possibilitando assim, para aqueles que aceitassem esse sacrifício, o acesso a eternidade maravilhosa do céu. Este Homem é o Messias esperado. Ele veio, Ele morreu, Ele deu seu sangue, e Ele venceu, então, a morte, Ele nos deu a vida, Ele nos deu acesso a Deus. Quem não tem o Messias não tem o céu, quem não tem o Salvador, não tem a esperança, e isso é o que ocorre a todos que estão fora da realidade cristã.

Os povos pagãos não faziam parte do povo de Deus, pois não o compreendiam. Assim, estavam fora da esperança. Eram estranhos à Aliança da promessa porque não poderia haver promessa a quem não acreditava na oferta. Ainda que Deus falasse aqueles povos, ainda assim seriam palavras ao vento, pois não as teriam como respostas, já que seus questionamentos eram muito diferentes.

De toda forma, mesmo os gentios estavam no plano de Deus, e o sangue do Messias não fora derramado apenas para o povo judeu, mas para toda a humanidade. Diante disso, na plenitude dos tempos, essa verdade precisava chegar aos ouvidos pagãos e possibilitar a eles a conversão. Aqueles que tão longe estavam, não apenas fisicamente, mas em sua própria concepção de existência, agora poderiam ser aproximados. O preço já estava pago e tanto os judeus como os pagãos poderiam ter acesso à esperança da eternidade ao lado de Deus.

Se Deus não faz acepção de pessoas, e todos estão incluídos no seu amor, não havia como deixar de fora mesmo os povos mais distantes. Ainda que os judeus não compreendessem isso, pois concebiam uma libertação nacional e terrena, tiveram que aceitar essa verdade, uma verdade que foi revelada simbolicamente a Pedro e de uma maneira ainda mais completa para Paulo. A partir de Cristo, não haveria mais separação entre judeus e o resto do mundo. Não haveria mais a exclusividade que norteou Israel durante tanto tempo.

O muro da separação caiu. Ressaltemos, no entanto, que esse muro existia principalmente na visão judia da realidade. No coração de Deus o homem sempre foi apenas uma espécie, criada a sua imagem e semelhança. Mas essa verdade não estava disponível para o imaginário israelense, que conhecia a revelação da lei e pouco compreendia toda a profundidade da graça já nela contida. Em Cristo, porém, foi descortinado esse mistério oculto, esse conhecimento escondido e, a partir dele, todos podem ser apenas um em Jesus. Daquele instante em diante, era necessário compreender que não poderia haver mais inimizade entre judeus e gentios, já não cabia mais a separação que havia inclusive no próprio Templo de Jerusalém, no qual os gentios podiam permanecer apenas nas partes exteriores.

O que o homem antigo compreendia era apenas a sombra da realidade. Sua vida era conduzida por ordenanças que apenas refletiam, como um espelho, a verdade. O judeu daquele tempo seguia essas ordenanças e sua virtude residia exatamente em fazer bem isso. Mas Deus não é um deus de sombras e reflexos, e sim a realidade plena, a verdade – que nunca deixou de ser – que precisava se definitivamente descortinada. E isso ocorreu com a vitória de Jesus na cruz. O véu foi literalmente rasgado e o sentido mais profundo daquelas ordenanças se apresentou ao mundo. A Lei era inimizade, não porque fosse uma regra de preconceitos, mas, precisamente por ser lei, precisava determinar o que era e o que não era. Para ensinar, que era o seu grande propósito, precisava definir os pecados, afastar as impurezas, determinar os ritos de expurgo etc. Com isso, invariavelmente, ela excluía, condenava. Porém, com a revelação do entendimento final do intuito da lei, toda exclusão pré-determinada, toda condenação antecipada perde o sentido. O que há, enfim, é a apresentação da verdade, mas uma verdade disponível a todo homem, que escolhe, simplesmente, se a aceita ou se exclui dela por si mesmo.

A revelação, agora compreendida, não mais desune, mas aproxima o ser humano. E isso deve produzir a formação de um homem novo, restaurado no Espírito do próprio Deus. Não apenas homens novos, mas um modelo perfeito, um arquétipo santo. Esse protótipo é o próprio Cristo, no qual todos devem se espelhar, a quem todos devem servir e se submeter. Deus não deve ser mais chamado o Deus dos judeus, não deve mais ser nominado o Senhor de Israel. Deus é o Deus dos homens, de toda a raça humana, que foi reunida em Jesus Cristo para O adorarem. O acesso ao Pai é livre a qualquer um, independente de raça, cor ou nacionalidade.

No mundo há apenas uma família de Deus, a qual trabalha em favor do Evangelho de salvação, nessa luta incessante contra Satanás e seus anjos3. Um só corpo, uma só fé, um só batismo e um só espírito. Uma unidade que deve abalar as portas do inferno, saqueando vidas que caminham para a perdição, conduzindo-as à maravilha da eternidade ao lado de Deus. Guiados pela Palavra de Deus (fundamento dos apóstolos e dos profetas), o povo do Senhor, obedecendo as ordens de Cristo, propagando a sua verdade, como uma missão inescusável, se mantém firme numa só esperança, que é a certeza de viver eternamente junto ao Pai Celeste.

1Eclesiastes 1.2
2Gálatas 4.4
3Efésios 6.12

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Efésios 2.1-8

Estávamos mortos e esta morte pode ser compreendida em duas acepções complementares: a morte espiritual, que é a condenação eterna como destino certo para o homem natural e a morte existencial, que é a ausência de sentido e razão no homem que vaga pela vida. Seja como for, quem fez isso conosco foi o nosso próprio pecado. Antes de tudo, a condição pecaminosa está em nós desde nossa concepção, o que, por si só, nos manteve afastados de Deus. E essa condição, certamente, nos levou ao erro, à rebelião contra Deus, às ofensas e pecados. Tempo de morte, pois seguíamos o curso deste mundo (v.2).

Uma característica óbvia de algo morto é sua passividade, seu estado inerme. O que está morto é carregado pelo vento, pelas águas, pelo transcurso das coisas. Não reage, não luta. Como um pedaço de madeira em um rio, é levado pela correnteza. Nós também éramos conduzidos, passivelmente, pelas águas mundanas. Carregados pelo instinto, pelos valores deste século, pelo desejo animal, fazíamos a nossa vontade, ou melhor, cedíamos à vontade da carne e do pensamento (v.3). Passivos diante da força do pecado, éramos, assim, sujeitos às ações do diabo (v.2). A partir do momento que não tenho controle sobre a minha vida, que não sou liberto da força da carne, evidente que estou sujeito às obras satânicas, as quais acabam por impor a vontade do diabo, conduzindo-me a executar os seus desígnios malignos.

Nenhum de nós esteve livre dessa condição. Nascemos assim: em pecado. Se há uma herança certa é esta: o pecado original. Não recebemos de Adão apenas as características humanas exteriores, mas, principalmente, esse estado corrompido de pecado, que, impregnado ao ser, naturalmente nos acompanha desde a concepção. Ninguém, absolutamente ninguém, está livre disso. Nem judeu, nem gentio, nem os santos. Todos estão sujeitos, naturalmente, ao pecado original. Rousseau, por exemplo, como outros iluministas, acreditava que o homem nascia bom e era corrompido pelo meio no qual vivia. Porém, isso é um erro. O homem nasce pecador, nasce com a tendência pecaminosa, com a inclinação ao erro. Ainda que muitos se iludam, crendo que o homem tem a capacidade de ser bom por meio de duas próprias forças, prefiro concordar com Chesterton que disse que a única parte da Teologia que é passível de prova é a doutrina do pecado original. Basta olhar para o homem; basta olharmos para nós mesmos.

Alguém ainda duvida da infinita misericórdia de Deus? E seu amor, há como contestá-lo? Ele nos deu vida (v.1) estando nós ainda mortos (v.5). Ora, nem ainda tínhamos tomado uma decisão em seu favor e Ele já havia morrido por nós. Pense nisso: o sacrifício de Cristo não foi para pessoas que estavam com Ele, pelo contrário, Jesus morreu por homens que estavam contra Ele (mortos em pecado). Não existe prova maior de amor e isso demonstra o quanto Deus, realmente, ama o mundo (Jo 3.16).

Nada fizemos para merecer isso. Pelo contrário, merecíamos mesmo era a condenação. Ninguém que já possua alguns anos de vida pode olhar para trás e dizer que merece a salvação. Alguém que diz isso mente ou está completamente iludido. O interessante é que existem pessoas que realmente acreditam nisso. Dizem elas que serão salvas porque são boas e que não fazem mal a ninguém. Ora, isso é uma completa distorção da realidade. Quem fala isso enxerga sua vida com lentes embaçadas pelo próprio pecado. Sem saber, têm um visão turva, crendo que enxergam a verdade. Esta imagem disforme, que é o pecador, para ele mesmo é alguém perfeito, justo e bom. Grande engano!

Se há uma salvação, sem dúvida ela é imerecida. Se podemos ser salvos, apenas se for por um ato de graça (v.5). O que Cristo fez naquela cruz não tem preço. Ninguém pode pagar por aquilo. Nenhum ato, nenhuma vida, nenhuma santidade ou perfeição tem o poder de comprar aquilo que Jesus pagou com sangue: nossa redenção. A salvação pela graça não é um regra criada e imposta por Deus. É, simplesmente, a única possibilidade. Se não fosse assim, ficaríamos eternamente mortos em nossos delitos e pecados.

Deus, porém, nos ressuscitou juntamente com Cristo (v.6). E o que é esta ressurreição além da possibilidade, antes impossível, de nos tornarmos vivos? O que é a ressurreição além do que a vitória sobre a morte. Se antes estávamos mortos, por causa do nosso pecado, em Cristo há a possibilidade de reviver, de vencer esta morte e se tornar verdadeiramente vivo. A vitória factual de Cristo sobre a morte é a vitória espiritual nossa também. E tal vitória não é apenas uma esperança futura, mas uma realidade bem presente. O esmagamento da morte já ocorreu na vida do cristão. Ele não é mais aquele ser passivo, conduzido pelo curso deste mundo. Agora, ele tem vida, consciência de sua existência e destino, podendo, com isso, negar o mal, o pecado, o diabo. Haverá uma ressurreição de fato, mas podemos seguir o apóstolo e dizer que já ressuscitamos, pois não estamos mais mortos, à mercê do príncipe deste mundo.

Podemos dizer, então, que somos salvos ou esta é apenas uma condição futura? Paulo não exitava em falar disso como certo. 'Nos ressuscitou', 'nos fez assentar': verbos no passado, como se referissem a fatos que já houvessem ocorrido. Estas formas de expressão denotam a certeza que o apóstolo tinha em relação a realização de tudo isso. Para ele, já mergulhado na infinitude da existência divina, não fazia muita diferença expressar-se no passado, no presente ou no futuro. Independente do tempo cronológico, tudo aquilo já era uma realidade.

Da mesma forma, passamos, a partir do momento que fomos levantados de nosso sepulcro existencial, a ser prova viva da bondade de Deus. Sem merecermos, Ele transformou homens absolutamente corrompidos em seres agora restaurados. Quem os olha, não pode deixar de captar algo impressionante e sobrenatural. Acabamos por nos tornar testemunhas vivas da benignidade divina (v.7). Somos a prova de que Deus é bom.

Evidência disso é que nossa salvação é gratuita, um presente (dom) de Deus para nós. Não compramos, não adquirimos, não conquistamos. Na verdade, recebemos livremente. Apenas aceitamos esse presente humildemente. Nada do que façamos é capaz de atrair o favor da salvação sobre nós. Que me desculpem os espíritas que acreditam na força redentora de suas obras. Isso é presunção, cegueira, ilusão. Isso também é contrária à verdade revelada da Bíblia. Um dos pilares dessa revelação é a completa incapacidade humana para conquistar a salvação. Esta apenas acontece por causa de um amor eterno do Pai e por pura misericórdia de sua parte. Quem nega isso não pode ser chamado de cristão.

Por causa disso, ninguém possui motivo pra se envaidecer por causa de sua salvação. Como alguém que recebe um presente, não temos mérito algum na redenção (v.9). Isto não quer dizer que fomos envolvidos passivelmente pela salvação. Para que ela tivesse efeito em nossa vida, perdoem-me a redundância, houve uma atitude ativa de nossa parte. Um presente pode ser aceito ou rejeitado, no entanto, nós aceitamos esse presente divino. Enquanto muitos negam a oferta de Cristo, nós nos agarramos a ela. Mesmo assim, não é possível enxergar mérito algum nisso. Quem pode se orgulhar simplesmente porque aceitou um presente?

Agora, mesmo estando claro que não há obra alguma que possa nos fazer conquistar a salvação, isso não quer dizer que as boas ações não façam parte da vida do crente. Seria absurdo pensar em alguém que, como dissemos, é testemunha da bondade de Deus e não reflita isso através de suas atitudes. Dispensar as boas obras da vida é ignorar a vontade de Deus. O cristão pratica, sim, boas ações e vive de maneira correta. Porém, ele não faz isso para obter a salvação (o que seria inútil), mas por causa dela. A diferença entre o cristão e o que crê no poder salvador das obras é que aquele compreende que as obras são apenas o corolário da fé, a exteriorização dela. Se digo que possuo fé, isso, invariavelmente, me conduzirá à prática das boas obras. Se não produzo boas obras, não é porque, simplesmente, estou em falta com a religião, mas, porque, verdadeiramente, eu não tenho fé. A fé é o motor das boas obras. No entanto, não custa repetir, essas obras não têm o condão de proporcionarem a salvação. Elas são, unicamente, um subproduto da fé e a prova da existência da alma cristã.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Fome de Verdade

(pregação do dia 21 de janeiro de 2009)



Aos covardes não falta apenas o comprometimento com Deus, mas há uma falta evidente de fidelidade consigo mesmo. Se a fidelidade é fruto do Espírito, então não é apenas um ato exterior, mas algo que passa a fazer parte da personalidade do cristão. E se faz parte da personalidade, então envolve todos os aspectos da vida. Se é assim, portanto, o cristão fiel o é não apenas em relação a Deus, mas em relação ao outro e em relação a si mesmo. Aliás, seria impossível ser fiel a alguém se antes não fosse fiel a si mesmo.

Clamo para não me encontrar infiel, traindo minha consciência e tudo o que acredito. Quero poder olhar no espelho e me reconhecer. Saber que o que falo é o que penso e o que penso é o que digo acreditar.

Para isso, preciso de um inegociável compromisso com a verdade. Ainda que tantos prefiram a ilusão, o aplauso fácil, as lisonjas superficiais, devo escapar da zona de conforto da ilusão e mergulhar na incerteza da verdade. Até quando buscareis a mentira? (Sl 4.2).

Incerteza da verdade? Que paradoxo tão estranho! Mas é isso! A ilusão nos conforta, nos abraça e finge nos assegurar o que desejamos. A verdade, ainda que seja o fim último de tudo, nos é insegurança pois nela nos abandonamos a nós mesmos e nos deixamos levar por suas ondas.

Não sirvo a Deus por escolha, mas, unicamente, por Ele ser a verdade. Se fosse uma preferência seria apenas mais uma. Mas não, Deus não me deixou escolha. Não o escolhi, me rendi a Ele. Se sou cristão, não sou pelos privilégios (que nesta vida nem são muitos), mas simplesmente por causa da verdade contida no cristianismo. Há outra opção? Não, não há. Mas apenas para os que tem fome de verdade. Ainda que minha natureza clame por se afastar, o espírito e a razão são mais fortes. Aquele me faz sentir e intuir a verdade, este me convence da mentira.

Ouço, por todos os lados, que a Bíblia é um livro maravilhoso, belo e reconfortante. Não discordo, mas, para ser sincero, ela sempre foi, para mim, um livro terrível. Nela descobri que sou pecador e rebelde, que no mundo teria aflições e que o salário do pecado é a morte. Mas ela fala da verdade, e ainda que sejam tremendamente impactantes suas palavras, nela me fio.

Esta fome de verdade, então, me conduz a Deus e me faz buscá-lo com toda a minha força. Quando Deus diz: Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes com todo o vosso coração (Jr 29.13), nos instiga a querê-lo não apenas com o esforço exterior e ascético do corpo, mas com uma ginástica descomunal da alma que, ainda que enfrente as contradições e antinomias de um mundo estranho, se joga com todo empenho nos braços da verdade.

Ser cristão não é um escolha, repito. Pois as escolhas podem mudar. Ser cristão é uma mudança na alma, no ser. Aquele que está em Cristo é nova criatura (2ª Co 5.17). Um novo homem que nasce não apenas de um ato único e milagroso de Deus (apesar do conteúdo de milagre que existe nisso), mas que se transforma a ponto de ser outro, que agora vê a existência de uma outra perspectiva, mais real, mais ampla e mais correta.

Se queremos encontrar a verdade, imperioso é que passemos por quatro fases, essenciais nesta caminhada:

Em primeiro lugar, antes de a buscarmos, deve haver uma necessidade imperiosa de razão para a existência. Sem isso não podemos ver a Deus, já que Ele não preenche um coração que se acha abastecido e que de nada tem falta. Na verdade, um coração assim não sabe que é um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu. Em um coração cheio não há espaço para Cristo.

Depois, deve haver um desejo impressionante de verdade. E isso significa aceitá-la como ela é, ainda que não seja exatamente o que esperamos. Aceitar a verdade é como um filho horrível que não abrimos mão, ainda que nos ofereçam outras crianças infinitamente mais belas. Nenhuma mãe, em são consciência, escolheria outra criança que não o seu próprio filho, ainda que ele fosse a mais feia das crianças. Isso é fome de verdade, pois o filho é a verdade de uma mãe e é tudo o que ela quer.

Em terceiro lugar de ve haver uma aceitação absoluta das conseqüências. Se render à verdade é se render também a tudo o que ela traz consigo. Por isso, uma conversão não é apenas um ato exterior de mudança de práticas, mas um caminho sem volta.

Por fim, deve haver um compromisso inquebrável com a consciência. Se não foi apenas uma escolha, mas uma verdadeira alteração no ser, esta mudança deve acarretar uma aliança tal de si para consigo que nada pode quebrá-la: nem a morte, nem a vida, nem os anjos,nem potestades. O corpo até pode ser dilacerado, mas a alma, esta jamais é destruída.

A verdade existe, e ela é Deus. Porém, apenas a contemplam aqueles que a desejam com todo o coração, com toda alma e com toda a força.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

A Mornidão

Há algo que desagrada a Deus profundamente e este algo é a mornidão. Não sei se vocês já pararam para pensar no que isso quer dizer. Se Jesus diz para a igreja de Laodicéia que, antes fosse ela fria ou quente, mas por ela ser morna, seria vomitada de sua boca, quer dizer que há nesta atitude algo que afronta o caráter divino.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A Verdade Dói e Cura

Há apenas uma testemunha de meus próprios atos: a minha consciência. Ela presencia não apenas o que exteriormente aparece, mas, principalmente, as intenções. Ainda que eu engane o mundo, jamais poderei enganar a minha própria consciência.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Esquizofrenia espiritual


Apenas aqueles que encaram a realidade como ela é, com suas feições, muitas vezes, ameaçadoras, podem, de verdade, saber o que é a vida e como vivê-la. Somente aqueles que não procuram desculpas para suas mazelas, mas são maduros o bastante para compreenderem que nem tudo são flores, podem saber como continuar, sem o risco de se perderem no meio do caminho.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

O Valor da Intuição

Entre os homens há grande admiração àqueles que se expressam com eloqüência, destilando verborragia e distribuindo opiniões. Os que falam se admiram, tendo a si próprios como verdadeiros mercúrios da sabedoria. Mas também os outros os admiram, como semideuses, como iniciados em uma arte inacessível a maioria dos mortais, a qual os eleva a um patamar superior e de poder.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Mais que duas vidas

(Homenagem pelas 'Bodas de Prata" do Pastor Fernão e da Eliane)

Jó afirmou com sabedoria “Vim nu para este mundo e sairei dele, da mesma forma: nu”. Quando somos dados à luz nada temos: roupas, bens, amigos, esposa. Quando a luz se apaga, seguimos, da mesma forma, sem nada: sem roupas, sem bens, sem amigos, sem esposa. E quem pode negar essa verdade? Podemos dizer que vimos só, e vamos só. Existe uma solidão intrínseca em cada pessoa, atestada pela verdade da própria natureza do nascimento e da morte. Mas, entre esses dois trágicos eventos há um período no qual esse caráter solitário é arrefecido. Há um lapso temporal que é preenchido pela união de um homem e de uma mulher, os quais constituem entre si um núcleo que será a fonte de novas solidões que serão geradas.

O próprio Deus afirmou que não seria bom para o homem permanecer só. O criador perfeito viu que sua criação ainda não estava completa. Se não era bom o homem estar só, e se Deus apenas pode criar aquilo que é bom, enquanto não criasse a mulher, a criação de Deus não estaria perfeita. Portanto, a mulher, pode-se dizer, foi tão necessária à criação como o homem. Apenas cronologicamente criada posteriormente a ele.

A unidade que se forma dessa união é algo bem maior do que a soma de duas vidas. Uma cooperação é a junção de esforços em torno de um objetivo comum. Porém, a cooperação não pressupõe nada mais do que individualidades que se ajudam mutuamente. Na união conjugal há algo ainda maior. Não é apenas cooperação, não é somente acordo. Vemos, na verdade, ocorrer uma fusão. São duas substâncias que, a despeito de manterem suas aparências externas inalteradas, exceto pelo devir natural, acabam por se confundirem nos aspectos mais interiores de suas existências. Há uma verdadeira confusão! E não se prendam ao uso popular desse termo. Confusão é a mistura de tal monta que torna impossível identificar as unidades separadamente.

Quantas vezes não ouvimos o homem dizer algo e depois alguém comentar: “Isso não é idéia dele, isso é coisa da mulher dele!”. Ou então: “Ela fica falando igualzinho ao marido dela”. Glória a Deus! Essa é exatamente a proposta do Altíssimo. “Tornar-se-ão uma só carne”. E como a carne, sendo física, não pode misturar-se, Deus só poderia estar falando desses aspectos mais profundos do ser. Santa confusão é o casamento! Bendita mistura de substâncias formando um novo ser: o casal.

Entre os casais, há diversas maneiras de expressarem seu amor. O beijo, o abraço - os mais comuns; A beliscada, a mordida - os mais atrevidos. Mas há uma maneira - que é a preferida dos pais mais zelosos pela virtude de suas filhotas - que são as mãos dadas. Enquanto o beijo é a colisão de dois desejos e o abraço o encontro de corações, é o entrelaçamento das mãos que simboliza, ao menos para mim, o que há de verdadeiro na união entre duas pessoas. No enganchar dos dedos há uma mistura visual que dá a impressão de não mais existirem duas mãos, mas um outro membro, que não mais uma mão, mas, poderíamos dizer, uma hiper mão. No casamento ocorre o mesmo: a individualidade é diluída, surgindo como que uma super individualidade. O novo ser - casal - não são dois indivíduos que se ajudam, mas é um novo indivíduo, mais forte, mais valoroso, mais humano. Talvez o super-homem nietzcheniano sempre tenha existido, apenas não captado por seu idealizador.

Nessa mistura, a fraqueza de um é compensada pela coragem do outro. A soberba de um é aliviada pela humildade do outro. A mansidão de um é equilibrada pela intempestividade do outro. A audácia de um é temperada pela prudência do outro. Por isso, acho que muitos sofrem na solidão, ainda, por estarem buscando afinidades, quando poderiam simplesmente se permitir viver a diferença que completa, os antagonismos que se equilibram, as aparentes incompatibilidades que são, na verdade, a completude do ser.

Mas como esta é a celebração, não do início de uma união, mas de sua permanência, quero compartilhar com vocês o que eu entendo sobre amor perfeito. Se perguntarmos para qualquer pessoa recém apaixonada, sobre a razão de tal paixão, as respostas não variarão muito. Percorrerão os elogios físicos, psicológicos e comportamentais. E isso é bom, mas não é perfeito. Aquelas que já vivem um relacionamento há algum tempo responderão, invariavelmente, de maneira um pouco mais abstrata, exaltando a amizade, o companheirismo e as virtudes morais do outro. Isso é muito bom, mas ainda não é perfeito. Acredito que o amor perfeito, ao ser indagado das razões de seu amor, responde em alto e bom som: “Não sei!”. Como alguém que ama seu próprio corpo, o amor perfeito talvez nem mais saiba explicar a razão desse amor, mas sabe perfeitamente que sem ele não é mais o mesmo. Ninguém, ao ser ameaçado de amputação de qualquer parte de seu corpo, passa a expor para o torturador das razões úteis ou estéticas daquele membro. Simplesmente, o horror da amputação, por si só, faz tremer todos os ossos. Saber que perderá uma parte do corpo é uma idéia aterrorizadora, por si mesma. No amor perfeito é assim: ainda que não se ache mais a razão do amor, a simples possibilidade de perder o outro é idêntica à idéia da amputação. O amor perfeito, conforme entendo, não ama mais por causa de algo, mas simplesmente ama. Como não nos amamos por causa de alguma característica em nós, mas por sermos nós. Com exceção dos que sofrem de alguma patologia mental, o homem saudável não se apaixona por suas próprias virtudes, apenas se ama por natureza. O casal que experimenta o amor perfeito se ama, não pelas virtudes próprias, mas por não poder conceber a vida sem ele mesmo. O que ao indivíduo é inconcebível - a amputação, no casal também passa a ser impensável. Para o casal que atinge o amor perfeito, separação é o mesmo que amputação.

Diante disso imaginemos que os cônjuges nunca discordam? Jamais há um conflito entre eles? Pelo contrário! Qual homem que não discute consigo mesmo? Qual pessoa que não vive a equilibrar seus conflitos? Isso é humano e isso é saudável! Triste do homem que não possui discordâncias internas, complexidades e incoerências - é um psicopata; um doente. Por isso não se iludam com a idéia do casal que não tenha esses conflitos. Eles são naturais, saudáveis e necessários. Essa dialética do casal é que o torna mais forte, renovado e aprovado. O resultado não é um casal que soma as características de dois indivíduos. É um novo ser que é mais forte que a soma dos dois, é uma fusão que dá forma há um novo ser, com características próprias, mais virtuosas, mais valorosas.

Interessante como a lei humana tenta, muitas vezes, refletir uma verdade natural. Havendo o casamento, uma das primeiras providências legais é associar o nome de um dos cônjuges ao outro. Mais comum, a mulher toma o sobrenome do marido e agrega ao seu nome. Daria eu uma sugestão: por que a lei não vai mais adiante, e para refletir bem a realidade não permite que os próprios nomes sejam misturados? Não seria interessante? Em nosso caso, o casal que aqui está, ao invés de se chamarem Fernão e Eliane, poderiam se chamar Elião e Ferliane. Perfeito! Os pais, que com tanto afeto escolheram os nomes de seus filhinhos, teriam, já aí, a certeza de que perderam suas crias para aquele estranho que não apenas raptou seu filho, mas também tomou posse de seu nome. Aí sim, estaria caracterizada, perfeitamente, também na realidade concreta, a verdade que já aconteceu na realidade espiritual.

Pois, quem conhece o casal, sabe que andam os dois verdadeiramente no mesmo espírito. E que lição é esta para a igreja! Esta, como a noiva de Cristo, é chamada para ser um com ele, vivendo em um mesmo espírito com seu esposo. E o que é isso além da mistura, pela qual a vontade de um se confunde com a vontade do outro? O Senhor nos ensina que sejamos um com ele. Como um casal que é um. Por isso quando nos deparamos com um casal que vive a unidade, podemos nos espelhar nele, não apenas como exemplo de matrimônio, mas como modelo de comunhão com Deus. Como nos dispomos a servir nossos cônjuges, assim devemos nos dispor para servir a Deus. Como nos preocupamos em agradar nossos cônjuges, assim devemos querer agradar a Deus. A fusão que é o casamento, assim seja - uma fusão, a nossa união com Cristo. Como experimentamos as delícias do casamento, assim também há eternas delícias no relacionamento com Jesus.

Bendito seja Deus, nosso mestre, que nos ensina não somente por dogmas e doutrinas, mas pela vida! Na instituição do casamento, há mais verdade do que compêndios e compêndios de teologia sistemática. Na simples celebração do tempo de união de um casal, podemos aprender muito sobre Deus.

Portanto, pastor Fernão e Eliane, compreendam isso: o exemplo de vocês extrapola a lição sobre casamento. Ele nos ensina que, se é possível uma verdadeira comunhão entre duas pessoas, muito mais é possível uma profunda comunhão com Cristo. Pois se somos imperfeitos, e, ainda assim, podemos nos manter juntos, quanto mais com Cristo, que é perfeito, amoroso e bondoso eternamente. Amém!

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Amar é Escolher

O amor humano é uma escolha. Amar tudo seria uma contradição, pois seria o mesmo que não amar. Amar é dar preferência. Alguém gostaria de ser amado na mesma medida que todo o resto? Haveria prazer em ouvir: "Te amo, da mesma forma que amo tudo"? O amor humano é uma preterição, é separar um entre todos, é escolher. Ninguém aceita que um marido ame sua esposa e seus filhos da mesma forma que ama o restante das criaturas. A própria fidelidade pressupõe a preferência. Se alguém é único para alguém é porque está acima na ordem de preferência, de amor. Isso é humano, demasiado humano! Não é possível amar tudo, e provo a quem tentar discordar de mim.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Indecisão: o medo de perder

A indecisão é o medo de perder. Quem escolhe algo, nega todo o resto. Escolha é a coragem de renunciar muitas coisas. Por isso, algumas pessoas são tão indecisas; elas têm medo do irreversível, daquilo que estão abandonando e, talvez, jamais possam recuperar. O indeciso deve amar demais a si mesmo, de tal forma que não aceita perder. Porém a vida é uma constante perda, com alguns poucos ganhos. Superar a indecisão é compreender que a escolha é o motor da existência e não escolher é, por si mesmo, uma escolha; escolha pela manutenção do que se é, abandonando o que se pode ser.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Temos apenas o agora

Um coração grato será sempre feliz. Haverá nele um eterno reconhecimento de que o que tem, ou o que é, são a medida de sua existência, gratuitamente fornecidas por Deus. Enxergará, portanto, em si mesmo, a plenitude da existência, a realização do ser.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

O Sustentador

Olha as aves do céu. Quem as sustenta? Olha as flores do campo. Quem as alimenta?[1] Por acaso elas perdem noites de sono preocupadas com o que há de acontecer amanhã? Há quem não pertence o poder de controlar as coisas, não faz sentido sofrer por elas. Acumula toda a sabedoria do mundo, junta toda a riqueza, ainda assim não poderás definir o dia que Deus pedirá tua alma[2].

segunda-feira, 26 de maio de 2008

O Fim da Lei é Cristo

Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê. Romanos 10.4

Um grande conflito há na mente de grande parte dos cristãos relativo à sua relação com o Antigo Testamento bíblico. Sentem-se eles inseguros; vacilantes na linha divisória entre a negação da prática do escrito e a aplicação irrestrita da lei mosaica. Ainda que tenham consciência que nenhuma das duas antagônicas posições pode ser irrestritamente encampada, resta-lhes a incerteza de qual é a posição correta neste assunto.

Podemos começar com a própria denominação que é dada aos pactos de Deus com o homem. A Velha e a Nova Aliança. Apenas por ela já temos uma indicação de uma separação. Se há o novo, o velho ficou para trás. Se há um novo pacto, isso significa que o pacto antigo, de alguma forma, foi substituído. Não haveria sentido em haver uma nova aliança sem a revogação da antiga. Do contrário, não seria uma nova, mas uma continuação da velha aliança. Porém, isso não resolve todo o problema, muito diferente, poderiam objetivar a possibilidade de uma nova aliança não revogar a antiga, mas, apenas, aperfeiçoá-la.

Gostaria de começar citando as palavras de Jesus Cristo, o personagem central de nossa discussão. Afinal, se há uma nova aliança, está se dá nele, a partir dele, por causa dele. Em Mateus 9.16 e 17, o mestre diz:

Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho; porque semelhante remendo tira parte do vestido, e faz-se maior a rotura. Nem se deita vinho novo em odres velhos; do contrário se rebentam, derrama-se o vinho, e os odres se perdem; mas deita-se vinho novo em odres novos, e assim ambos se conservam.


Cristo, ali, havia sido indagado do motivo de seus discípulos não jejuarem, como os de João Batista. A resposta dada por ele, no entanto, parece envolver mais do que simplesmente a questão do jejum. Jesus parece estar se referindo a um novo período na relação entre Deus e os homens. Alguma coisa estava mudando; algo na prática religiosa ao menos. Pelo menos é isso que Jesus parece dizer. Nessa passagem, claramente, ele faz referência de uma incompatibilidade ou, ao menos, inconveniência, da composição de algo novo com algo que já estava estabelecido. Segundo Ele, essa mistura não seria, no mínimo, satisfatória. Se Ele estava se referindo, exatamente, a uma nova aliança e a completa incompatibilidade com a antiga, isso vamos analisar melhor.

Aqueles que defendem que o Velho Testamento é absolutamente aplicável aos dias de hoje, apenas sendo aperfeiçoado por Jesus Cristo, costumam citar a passagem de Mateus 5.17 a 19, na qual está escrito, conforme Jesus expressou:

Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus.

É compreensível, para o leitor neófito, ou ao leigo, interpretando apenas essa passagem sem atentar para todo o sistema salvífico criado por Deus, concluir que todos os preceitos e cerimoniais contidos na lei e nos profetas do Antigo Testamento (que é ao que Cristo se referia) devam ser cumpridos, ou melhor, praticados religiosamente da maneira como estão expressos. Bem, como eu disse, essa interpretação é compreensível àqueles que não possuem um conhecimento mais abrangente do plano de salvação de Deus. Porém, para aqueles que compreendem a verdade do Evangelho tal interpretação chega a beirar a apostasia.

O apóstolo Paulo, em Romanos 10.4, afirma que “...Cristo é o fim da lei para justificar a todo aquele que crê”. Considerando apenas essa passagem, parece haver um conflito evidente entre as palavras do apóstolo e a de Jesus Cristo. Aquele diz que Jesus é o fim da lei e o próprio Cristo afirma que veio cumprir a lei. Ora, como pode alguém que cumpre a lei ser, ao mesmo tempo, a abolição dessa mesma lei?

Quando Jesus fala que veio cumprir a lei isso pode estar se referindo, primeiramente, no sentido óbvio, que Ele veio cumprir os cerimoniais, os ritos e a lei do Antigo Testamento. Tal interpretação poderia ser feita, considerando que Cristo, realmente, na sua passagem terrena, como judeu que era, cumpriu muitos dos rituais religiosos previstos no Antigo Testamento. Apenas para citar: Mateus 8.4, João 7.10, Mateus 26.19. Porém, tal interpretação parece restrita demais para ser aplicada no contexto do sermão do monte, dentro do qual tais palavras foram proferidas. O ensinamento do mestre tinha a dimensão da história universal; abrangia não apenas aquele povo, mas toda a humanidade, de todos os tempos; chegava até o fim do mundo. Parece claro que Cristo estava enfatizando a eternidade das palavras do Senhor, sua aplicabilidade eterna, seu valor perene.

Uma segunda interpretação, que considero ainda mais restrita que a anterior, é que Jesus haveria dito aquilo apenas para não parecer um revolucionário, um herege. Apesar de poder haver algum conteúdo nesse sentido em suas palavras, não é este o objetivo principal delas. O que Jesus estava ali expressando era algo absolutamente verdadeiro. Era a expressão manifesta de uma realidade pura. Era o sentido de sua missão. Compreendamos!

Paulo falou que Jesus era o “fim da lei”. E que não nos percamos pela aparência da expressão. Fim, não significa, apenas, o término de algo, mas, além disso, o objetivo de alguma coisa. Por exemplo: o casamento tem o fim de unir perpetuamente duas pessoas. A finalidade do matrimônio é juntar um homem em uma mulher numa instituição familiar. Podemos dizer que esse é o seu fim, ou seja, sua finalidade. Podemos dizer, também, que determinado contrato, tem por fim a entrega de produtos a um determinado comerciante. O ato de entregar as mercadorias é o fim do contrato. Com a efetiva entrega, o contrato se resolve, não há mais razão de existir. Podemos dizer que o fim (finalidade) do contrato é a entrega, e que a ocorrência desta resulta no fim (término) do negócio jurídico. Veja como a mesma palavra ‘fim’ tem uma conotação um pouco mais ampla do que, simplesmente, a de término de algo. Numa linguagem coloquial não costumamos usar o termo ‘fim’ no sentido de finalidade, mas é um uso muito comum numa linguagem pouco mais formal.

Vamos percorrer um pouco mais pelas palavras da Bíblia para concluirmos este ponto. Gálatas 3.24 e 25 expressa:

“...a lei se tornou nosso aio, para nos conduzir a Cristo, a fim de que pela fé fôssemos justificados. Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio”.

Aio era o criado particular encarregado da educação doméstica das crianças de famílias nobres. Paulo compara a lei mosaica a este professor. E diz mais: que vindo a fé, tal professor não tem mais ascendência sobre o seu antigo aluno. Se torna evidente, portanto, que o apóstolo afirma que os que vivem sob a Nova Aliança não mais estão sujeitos aos preceitos do Velho Testamento. Usando da mesma analogia bíblica, podemos dizer que o que nos ensinou o velho professor se mantém insculpido em nossas almas, porém não possui mais qualquer valor normativo. Como a obediência a um pai. Quando criança isso não é uma escolha: obedecemos, pois somos absolutamente dependentes dele. Na fase adulta, se ainda o obedecemos, isso se dá por uma decisão livre, por uma expressão da vontade individual. Mas isso não resolve completamente o nosso problema. Se encerrássemos o estudo por aqui poderíamos concluir que antes o homem cumpria os preceitos do Velho Testamento por determinação legal e hoje deve cumprir por decisão livre. Ocorre essa não é a interpretação correta dos textos citados e não é a nossa conclusão.

Os que são das obras da lei estão debaixo de maldição[1] e por ela ninguém será justificado[2], assim afirma Paulo. Apenas essas duas afirmações já servem para concluirmos que não há salvação pela lei. Não precisamos nos alongar nisso, afinal sabemos que a salvação vem por meio de Jesus Cristo, que morreu por todos, e oferece a vida eterna a todo aquele que nele crê[3]. Para o assunto abordado aqui neste estudo gostaria de enfatizar o aspecto mandamental da lei sobre nós, os quais vivem na época da graça. Concluímos que sendo um professor em nossa infância, como humanidade, poderíamos carregar os ensinamentos da Velha Aliança conosco, mesmo que não mais sob a tutela legal desse tutor. Mas isso pode facilmente conceder a possibilidade da necessidade da prática dos ritos e cerimoniais antigos, não mais como lei, mas como escolha religiosa. É claro que essa não é a conclusão que chegamos. E isso vamos resolver agora.

Paulo afirma, categoricamente, que aquele que tenta se justificar pela lei está decaído da graça[4]. Não há dúvida que há uma inconciliação entre as duas coisas. A justificação do homem, sua salvação, apenas pode ocorrer pela graça divina manifestada em Jesus Cristo. Qual o sentido, então, de guardar algum preceito do Velho Testamento? Se ele não justifica, se ele não salva, se ele é uma maldição, por que seguiríamos seus cerimoniais? Qual a razão disso? A resposta é dada pelo próprio apóstolo que diz que toda a lei se cumpre no mandamento: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo[5]. Essa afirmação paulina se coaduna perfeitamente com aquilo que Jesus já havia dado como resposta a um doutor da lei, quando disse que os dois maiores mandamentos eram “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças” e “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”[6]. Não farei aqui uma ode ao amor, pois não caberia neste conciso estudo. Porém, posso dizer que tanto Jesus Cristo, como seu apóstolo resumiram a verdade do Evangelho. O que eles querem dizer é que, para aqueles que vivem o amor verdadeiro, o qual tem dentro de si diversas manifestações como obediência, fidelidade, misericórdia etc., tudo o que está contido na lei é absolutamente desnecessário, pois o próprio amor conduzirá sua vida na direção da vontade de Deus. A Bíblia indica isso:

“...o fruto do Espírito é: o amor, o gozo, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão, o domínio próprio; contra estas coisas não há lei” (Gálatas 5.22-23) - (grifo meu).

Em Jesus Cristo foi inaugurada uma era absolutamente nova. Aquilo que era preceito legal, cumprido apenas por causa da coação penal, agora deveria ser cumprido observando a essência do que nela estava contida - o espírito da lei. O espírito da lei mosaica (sua essência) era ensinar os homens sobre Jesus Cristo, prepará-los para sua vinda, fazê-los compreender o plano de salvação. Até a vinda de Cristo, a lei nos ensinava sobre ele, após sua vinda, para que ela serviria? Se o espírito da lei (sua essência) é Jesus Cristo, sendo ele manifestado, é ele a quem devemos agora obediência, não mais à lei. A letra mata, mas o espírito vivifica[7]. Se obedecemos a lei, olhando apenas sua forma externa, estamos condenados; porém, se compreendemos sua essência (espírito) e vemos nela Jesus Cristo, somo justificados. O Velho Testamento é como o contrato firmado que tem por fim (finalidade) ensinar sobre o Messias. Aparecendo esse Messias, o contrato se resolve, não mais tendo utilidade, sendo apenas um registro, uma memória, uma prova. Resumindo: o amor é o cumprimento da lei[8].

Agora, essa ausência de lei não significa a completa libertinagem dos costumes. Aliás, o apóstolo Paulo precisou explicar isso em suas cartas. O ser humano tem muita dificuldade em compreender o império do amor. Não entende como Jesus pode ter enfatizado um reino que não tivesse regras a serem seguidas. O homem não consegue separar religião de regras, de imposições. Isso porque não compreende que na prática do amor verdadeiro reside um completo entendimento da vontade de Deus. Apenas no amor há obediência sincera, só no amor há santidade, nele apenas há fidelidade, somente nele se encontra humildade. A verdadeira religião é amar a Deus e aos homens e quem no amor vive não precisa ser julgado por lei alguma, afinal seus atos serão mais virtuosos, mais corretos e mais preciosos do que qualquer ordenamento legal pode prever. Não é o império dos sentidos e da vontade, é o império do amor. Não é relatividade da moral, mas a moral perfeita. Não é a anarquia, mas o governo de Cristo sobre nós. A lei existe para ordenar e pacificar os homens[9], mas se esses homens já estão ordenados pela força do amor de Deus, se já estão pacificados pela consciência de Cristo, que lei pode ser tão perfeita que ainda precise ser promulgada para eles?

Com esse entendimento podemos, agora, conciliar o que vimos no início deste estudo. Se Jesus veio cumprir a lei, o fez isso sendo ele mesmo o Messias. Se a lei, em tudo, apontava para Ele e preparava o povo para a sua vinda, Ele era o cumprimento dessa mesma lei. Não o que Ele fizesse ou praticasse, mas Ele mesmo, sua figura humana e divina que era o Messias esperado e profetizado pela lei e pelos profetas. Assim, era Ele o fim da lei. Finalidade única de todo o arcabouço de normas, ritos e cerimônias dadas no Velho Testamento. Nele se cumpre todo o prometido e esperado, finaliza o logro da lei. Dessa forma, da lei nada mais resta, a não ser o exemplo e a prova do pacto que se cumpriu.

Falando diretamente do Velho Testamento, podemos enxergá-lo como prova das coisas que haviam de vir e outras que ainda virão; instrumento do conhecimento da personalidade divina, naquilo que Deus se Deixou revelar; compreensão de uma moral eterna, imutável, que permanece no tempo[10]; preparação para a compreensão da vinda de Cristo, afinal, sem o Velho Testamento, o Novo Testamento é incompreensível; e, por fim, o registro da história humana em sua relação com Deus.

Gostaria de terminar este estudo transcrevendo um artigo meu chamado - O Governo do Símbolo e o Reino do Espírito, o qual fala sobre essa relação entre o Velho e o Novo Testamento:

O cristianismo é a religião do sentido real das coisas, e não da aparência. A Lei Mosaica era apenas o simbolismo do real[11]. Em Jesus, o real se manifesta por inteiro, sem mais a simbologia. Ora, para o homem que tem o encontro com o real, não convém regredir à aparência, não faz sentido. Enquanto o real é o reino do espírito, a aparência é o governo do símbolo, necessário como instrutor para o que havia de vir, mas sem mais função quando o que ele apontava se manifesta. Para o homem espiritual, que teve a seu favor o véu de acesso a Deus rasgado para todo sempre, o ritual é inócuo. Se ele ainda o pratica, só pode ser para a satisfação da carne mesmo[12], já que, espiritualmente, não possui mais efeito algum. Até parecem piedosos, mas não servem para nada!Hoje, se nos relacionamos com Deus, não mais é por meio dos símbolos que, de maneira incompleta, representavam a divindade. Esta relação é direta – espírito com Espírito. Então, e isso Paulo tenta alertar, não devemos aceitar o jugo da estética. O reino de Jesus não é estético, é conceitual (realístico).Santidade, obediência, pureza, amor, sabedoria não se encaixam no conceito de rituais simbológicos representativos do real. São princípios e virtudes reais mesmo. Não é possível ser santo apenas em aparência, nem sábio. Ou é ou não é. A aparência é do ritual, que pode tentar representar o real, mas nunca será o real. Então, quando Paulo fala que essas coisas possuem até aparência de virtude, ele está afirmando que jamais essas coisas serão virtude.
Até hoje as pessoas têm dificuldade de compreender isso. Como não se sentem capacitadas de alcançar a realidade, preferem manter-se na aparência. Até porque a aparência não pode ser julgada, por não possuir valor moral. Sendo apenas uma representação, a virtude que ela simboliza é que é passível de julgamento. Mantendo-se apenas no rito, o homem tenta, talvez inconscientemente, se eximir de responsabilidade. Ao ser retirado da segurança do ritual, o homem é desnudado por completo. E o que sobra? Sua essência. Aí, não adianta se contentar em parecer piedoso, é necessário o ser, de verdade”.


[1] Gálatas 3.10
[2] Gálatas 2.16
[3] João 3.16
[4] Gálatas 5.4
[5] Gálatas 5.14
[6] Mateus 22.36-40
[7] 2ª Coríntios 3.6
[8] Romanos 13.10
[9] 1ª Timóteo 1.8-10
[10] As leis morais de Deus não mudaram. O que Deus condenava antes continua condenando hoje. Porém, não podemos confundir os preceitos morais com as penas determinadas no Antigo Testamento. A execução da pena pode variar no tempo, devido às peculiaridades de cada época, o que não afeta em nada à compreensão da eternidade da moral divina.
[11] Hebreus 10.1
[12] Colossenses 2.16-23